A VIDA VIVIDA

Retomo o assunto, narrando a vocês minha história de vida, antes que ela se transforme em livro. Deixo, mais uma vez, o registro de que os fatos narrados podem ser provados, por documentos ou testemunhas pois alguns são cercados de ineditismo que podem levar a incredibilidade.

SINOPSE

Antes de iniciar contando a vocês a vida vivida na cidade, faço uma sinopse das coisas que já contei vívidas lá no Barracão onde fui forjado “a enxada e vara” em meio a coisas boas que a infância me propiciou. Coisas boas vindas do período do nascimento até os 8 anos, na casa do meu avô, e coisas não muito boas, mas que serviram para forjar minha personalidade, no período dos 8 aos 12 anos morando na casa nova que meu pai construíra, ainda está lá, paga com “suor e lágrimas” por parte de toda família. Nesse período, da casa nova, minha tarefa era contribuir para manter a roça, pomares e hortas, enxada que era extensiva a plantação. Minha mãe costurava e, meu pai, passou a ser alfaiate, vendedor de rádios “telefunken”, carros, motos, caminhões, tudo isso cercado de muitos “estresses”, mas que possibilitava que eu tivesse o melhor deles, com pensamento do então melhor colégio da cidade, o Marista, mesmo usando uniforme de segunda mão, de ter que pedir carona na beira da estrada, de suplicar o benefício do “transporte gratuito” por parte dos irmãos Nichetti. Tudo isso, foi substituído, a logística não funcionava, pela minha moradia na casa de minha avó Dileta, em dificuldade e merecedora do “Bolsa Família”, mas que me acolhia, com a assistência que podia dar. Meu único “encargo” neste período, era levar o café da manhã para meu avô que, no outro lado da rua, tinha um moinho, que funcionava em “slow motion”. O café? Bolinhos de chuva, pão, queijo e um litro de vinho de sua cantina subterrânea. Ele comia o pão mergulhado no vinho, achava estranho aquilo, mas, ao visitar a Itália vi parentes fazendo a mesma coisa então “pane in vino veritas”. Minha “folga”, nesse período de morada com os avós maternos era andar “clandestinamente” na Maria Fumaça; brincar de esconder em meio as pipas da Vinícola Aurora; assistir, jogar nem pensar, eu era um “estranho no ninho”, as peladas da gurizada no campinho da caixa d’água, lá na viação férrea. Meu trabalho ficou aliviado, troquei a enxada pela logística, 20 km diários para ir ao colégio, trajeto Botafogo-Centro. De vez em quando atalhava, como muita gurizada, descia o morro de esquibunda (arrastando a bunda) trajeto da Cidade Alta a Rua Gal. Osório, morro que ficava ao lado da casa do Dr. Paulo Zanatta. Depois da descida, uns tapas na bunda para tirar o pó, ou o barro, e bora para o colégio, sem sentimento de angústia, o uniforme era de “segunda mão”, já veio amassado.

AS COISAS BOAS

Vividas ao morar na casa dos meus avós paternos, no Barracão. O café da manhã da minha avó Irene, uma mastela de café-leite, com pão torrado, biscoitos, queijo e salame, tudo “made in house”, que momento! O jogo de viera com os amigos; as corridas com carrinho de lomba no morro que fica ao lado do cemitério; as festas da padroeira, Nossa Senhora da Salete, quando eu auxiliava aprontando as mesas, sendo coroinha SEM FUNÇÃO DEFINIDA, na procissão; a minha “função” de auxiliar na venda da rifa; a caçada das lebres, predadoras da horta, minha função era bater lata para colocá-las na mira dos caçadores. Na hora da festança, eu não comia aqueles bichinhos lindos, abatidos covardemente; o colchão de casal e travesseiros de penas no quarto com sacada, ocupado por mim no longo período em que estava vago; a hora da melancia, 17 horas em ponto, os 11 integrantes da família em torno da mesa com meu avô cortando a melancia, na expectativa de que estivesse madura, rigorosamente cortada em 13 pedaços, dois de nós iria comer 2 pedaços, momento sublime; a pesca, embaixo da ponte, de caniço, embora tenha presenciado meu pai que pescava traíras e jundiás com facão ou espingarda; as cerejas polpudas, em planta debruçada sobre o rio, eu as catava engatinhando sobre o rico pé existente e por mim reverenciado; a minha paixão platônica pela profe Carmem do primeiro ano quando eu estava no infantil; os jogos de viera e esconder-bater e, por fim o Natal, como era bom o Natal, particularmente eu gostava de quando ia desejar Feliz Natal a vizinhança e me davam as moedinhas que eu guardava no cofrinho da Caixa Federal e que, quando cheio, estava quando não fazia mais barulho, virava “poupancinha”; dos bailes comunitários, no amplo salão da casa, animados por um gaiteiro, eu ficava a noite toda sentado num banco, ouvindo aquela gaita tocar, a ponto de pensar em ser gaiteiro e ter uma gaita TODESCHINI; e, como esquecer, da tiazinha solteira que tinha leite, dádiva de Deus, que me amamentou por 30 dias afastando de mim o risco de vida, tava sem imunidade.

AS TAREFAS

Tenho outras lembranças da casa dos meus avós, os chamados “encargos”, entre os quais não fogem de minha mente, o LAVAR A ESTREBARIA com “mil” baldes de água pois “vai estar limpa quando tu chegar à conclusão que pode dormir no lugar das vacas”, dizia meu avô; da “caça” as galinhas que deveriam ir para a panela, destino cruel daquelas que não punham ovos; de dar, diariamente, mil baldes de água para o cavalo, símbolo do status do meu avô; e, como esquecer, de ter que dar manivela na máquina de fazer salame, no dia da matança do porco. Cada vez que como salame me lembro deste DIA ANUAL DA MATANÇA DO PORCO DA FAMÍLIA.

A CASA NOVA

Meu pai e minha mãe, meus irmãos, familiares, todos estávamos submissos ao meu avô, uma submissão saudável era ele que, fundamentalmente, cuidava da educação dos netos na Presidência do Conselho Familiar, digamos assim. Mas, como toda a mulher que casa quer casa, não foi diferente com minha mãe Zulma. O sonho da casa própria veio, eu só soube dela no dia da mudança, fomos todos morar nela “sem lenço e sem documento”. Foi uma mudança radical na minha vida, a troca do meu educador, do meu avô para meu pai, as dificuldades de implantação de um novo sistema de vida, a luta pela sobrevivência, o fazer dar certo. Cada caminhão que chegava de viagem, meu pai tinha dois, trazia uma alegria e uma tristeza: a alegria da chegada de cachos de banana e palmito, e a tristeza do meu pai constatar que a viagem dera prejuízo, ele ficava uma fera. A luta pela afirmação era cercada de angustias, bullyng, depressões, problemas de ordem financeira e familiar, tudo era uma questão de “vida ou morte”. Mas, em meio a tudo isso, eu tive a chance de, nos meus 8 anos viajar duas vezes para São Paulo e uma para o Rio de Janeiro. Não saem de minha lembrança cidades como Mafra, Rio Negro e Pindamonhangaba, a cidade do Vice-presidente Alckmin, Capital dos Urubus, eu descia do caminhão, espantava os urubus para ele poder passar. Como esquecer? Não saem da minha cabeça também os 12 dias de viagem, muitos caminhões atolados e, na espera, os motoristas abriam o “refrigerador”, uma caixa presa debaixo da carroceria, de onde tiravam, queijo, salame e pão que estava ali há vários dias que os gourmets hoje ao invés de falar em pão velho falam “pão dormido”. Eu recusava comer aquilo aí eu ouvia “se der uma guerra ele vai comer até pedra”. Numa viagem para o Rio com tio meu, lembro que eu estava na cabine do caminhão estacionando para descarregar o vinho que transportava. O calor era grande assim como a demora em se livrar da carga, resolvi subir e ajudar, tarefa concluída, resolvi voltar e, ao descer da carroceria, minha calça ficou presa no pino de fechamento, minha calça rasgou de cima abaixo deixando minha “bunda branca” exposta aos cariocas. Não sai mais da cabine e, ao chegar no hotel entrei tapando a fenda com uma mão na frente e outra atrás. Fiz outra viagem a São Paulo com o Felipetto, motorista do meu pai, inaugurando um caminhão novo, PAGO NA MORAL. A vida não se ajeitava, para piorar eu vivia com problemas de saúde, uma baita infecção nos ouvidos, que era tratada pela minha mãe derramando nele azeite quente formando, lá dentro, verdadeiras crateras vulcânicas, definição do médico, constatadas e corrigidos já lá pelos meus 30 anos. Essa situação era agravada quando eu errava a enxadada e acertava um formigueiro, aí era os pés na salmoura a noite toda com minha mãe me cuidando. E tem mais, tinha a britola fatídica. Eu escapava de casa aos sábados e domingos para ir ver as partidas no campo de futebol onde eu jogava prá caramba, “como gandula”! Acontece que para chegar ao campo, tinha que atravessar o então caudaloso rio, pulando de pedra em pedra, sempre alguém me carregava nas costas. Quando o juiz dava prorrogação eu chegava em casa, meio tarde, meu pai me alcançava a britola e ele dizia: vai cortar a vara, ou vai cortar uma vara de vime, ou vai cortar uma vara de marmelo. Via de regra quando ele encontrava a enxada abandonada na roça, vinha a vara de vime e quando eu ia ver o futebol, vinha vara de marmelo. Vara simples era para os pequenos delitos. Explico: vara simples quebra fácil, vara de vime quebra depois de 8 varadas e a vara de marmelo não quebra nunca. Façam o teste. Com a britola na mão meu sonho era ouvir “VAI BUSCAR UMA VARA”! Um dia, ao atravessar o rio o rapaz que me transportava errou a pedra e lá fui eu correnteza abaixo, fui salvo pela cerejeira que, deitada sobre o rio, me alcançou um galho salvador. Alguém gritou “homem no rio”, parou o jogo fizeram uma corda humana e me resgataram. Nunca mais apanhei com vara de marmelo, eu passei a entender por que eu apanhava com ela.

Ao ouvir minhas histórias sobre a britola e sua influência sobre as varas de marmelo, amigo me presenteou com duas, fixei na parede aqui no salão de festas do Sistema S. Está a disposição para testes.
Influenciados pelos EMBALOS DE SÁBADO A NOITE, no salão de festas do vô, eu com a gaita e, o Henrique Antônio Frâncio, com o pandeiro, resolvemos ensaiar a formação de conjunto, assim não precisaria contratar o gaiteiro e nossa poupancinha seria incrementada. NÃO DEU CERTO.

A MUDANÇA PARA A CIDADE

Era problema demais para pouca família. Meu pai, um homem de contatos, arrumou um negócio da compra de uma loja de artigos masculinos ali na Saldanha Marinho, vendeu a casa do Barracão e viemos embora para a cidade em busca da “cucanha”. E assim, concluo a narrativa de minha vida vivida no Barracão, a partir de agora vou contar a vida vivida na cidade, onde chegamos, como os imigrantes, minhas roupas cabiam numa sacola de supermercado e minha mãe trouxe o quarto dela, a mesa da sala e a cristaleira.