Garantir que filhos e netos deem continuidade às propriedades rurais é hoje um dos maiores desafios da agricultura familiar na Serra Gaúcha. Mais do que convencer os jovens a permanecerem no campo, a questão envolve a própria sobrevivência das famílias agricultoras diante de um cenário marcado por dificuldades econômicas, burocracia crescente e incertezas externas. A avaliação é de Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza.

Segundo ele, os obstáculos não se restringem à sucessão em si, mas afetam toda a estrutura da atividade agrícola. “Os desafios não são só para garantir que os jovens permaneçam no campo, mas para que a família como um todo consiga continuar na agricultura”, afirma. Entre os principais entraves estão a falta de mão de obra, as leis ambientais cada vez mais severas, a burocracia restritiva e, sobretudo, os baixos preços pagos pelos produtos agrícolas. “A atividade está ficando praticamente insustentável”, resume.

Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares

Esse cenário impacta diretamente as decisões das novas gerações. Embora Postal observe uma mudança gradual nos últimos anos, com jovens que permanecem ou até retornam às propriedades, a instabilidade da renda ainda pesa contra a permanência no meio rural. “O jovem vai em busca de uma garantia mais estável de emprego e de remuneração mais constante. Na agricultura, tudo depende de fatores externos, como clima e preço, muitas vezes mais do que do próprio trabalho do agricultor”, explica.

Para o presidente do sindicato, a renda é o fator decisivo. Se a propriedade não é rentável, a saída para a cidade torna-se quase inevitável. Em contrapartida, experiências bem-sucedidas mostram que onde há estrutura e retorno financeiro, há sucessão. “As propriedades mais organizadas, com maior rentabilidade, conseguem manter os jovens”, destaca.

Ações integradas

A tecnologia e a educação técnica surgem como aliadas fundamentais nesse processo. Postal lembra que a década de 1990 marcou uma virada importante, com o fortalecimento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que possibilitou a aquisição de máquinas e equipamentos. “De lá para cá, as coisas mudaram bastante. Hoje já temos drones, sistemas de irrigação automatizados, e isso está diretamente ligado à educação técnica de qualidade”, afirma.

Nesse contexto, o sindicato atua em diversas frentes para estimular a permanência dos jovens no campo. A principal delas é a defesa de políticas públicas específicas, que ainda são consideradas tímidas. Programas como o Agrofamília, do governo estadual, e o Pronaf Jovem existem, mas, segundo Postal, precisam chegar de forma mais efetiva aos produtores. Além disso, há investimentos em capacitação por meio de cursos do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e parcerias com instituições de ensino.

Um exemplo citado como referência é a Escola Família Agrícola da Serra Gaúcha (EFASERRA), que alia a formação acadêmica à vivência prática da propriedade rural e ao debate sobre sucessão familiar. “É um exemplo muito positivo. Cerca de 80% dos jovens que estudam na instituição continuam na propriedade”, ressalta. Outro destaque são as agroindústrias familiares, muitas delas lideradas por jovens e mulheres, que agregam valor à produção e ampliam a renda.

Desafios

Apesar dos avanços, o envelhecimento da população rural preocupa. Mesmo com a incorporação de novas tecnologias, a agricultura ainda exige esforço físico significativo. “A mão de obra está ficando envelhecida, e quem tem mais idade já não tem a mesma força. Isso é um alerta não só para o sindicato, mas para toda a sociedade, porque é do meio rural que vêm os alimentos”, diz.

Para tornar a agricultura mais atrativa às novas gerações, Postal defende melhorias estruturais básicas e geração de renda. Estradas asfaltadas, por exemplo, são vistas como essenciais para garantir qualidade de vida, facilitar o escoamento da produção e integrar o jovem ao espaço urbano sem romper com o campo. “Não é luxo, é o mínimo para que as novas gerações consigam sair da propriedade e chegar à cidade em boas condições”, observa.

Na mensagem final aos jovens, o presidente do sindicato fala com entusiasmo sobre a profissão. “A agricultura não é só um lugar de ganhar dinheiro, é um modo de vida que respeita a natureza, a terra e o ambiente onde vivemos”, afirma. Ele incentiva a organização, a gestão eficiente das propriedades e a confiança no setor como caminho para permanecer no interior.

Sem a sucessão familiar, o risco extrapola o meio rural e atinge toda a sociedade. Para Postal, o problema não seria uma falta imediata de alimentos, mas o encarecimento da produção. “Podemos sair de um cenário de abundância e preços baixos para outro de escassez e valores elevados”, alerta. Manter o equilíbrio, segundo ele, é fundamental para garantir renda justa ao agricultor e alimentos acessíveis à população.