A vida acontece na cidade e ainda que rime, de fato, isso não é nenhuma novidade. Entretanto, dentre tantas telas que nos separam da realidade, uma delas, me dei conta, é o para-brisa do carro.
Numa dessas manhãs do início deste preguiçoso janeiro, desembarquei, testei as poucas horas de academia e fui trabalhar curtindo a brisa de um vento que denunciava a chegada da chuva.
Mesmo a passos largos, desci a ladeira da rua Livramento rumo, ao bairro Conceição – antiga vila Operária, onde orgulhosamente nasci.
Acenos de longe, parada para uma conversa com morador antigo do bairro, já aposentado e dando trabalho para a vassoura já um tanto descabelada pelas folhas acumuladas no pátio, crianças brincando na rua – lembrei dos campinhos de futebol que não existem mais, pois aqui mesmo, no bairro, revelaram jogadores de destaque no cenário nacional e internacional – um olhar crítico na limpeza da rua, enfim, quantos detalhes escondidos pelo filtro do para-brisas.
Mas nada me chamou mais atenção que uma casa de madeira, ou o que está a sobrar dela.
Até mesmo a descida da escadaria num compasso mais lento e o olhar aguçado de um “turista” buscando novidades poderá não se aperceber da existência de uma pequena casa, rodeada por árvores frondosas, parece uma ilha esquecida, em cujo telhado se vê uma lona de plástico, bem fina, como se fosse um cobertor curto, escondendo, certamente, um grande buraco e esgueirando-se sobre as poucas telhas que ali restam, do que uma vez serviu de proteção das intempéries do tempo.
As antigas janelas de madeira, já “desdentadas”, cederam; as paredes dão lugar a corajosas tábuas empenadas, como de joelhos, tentando segurar o telhado que ameaça ruir, mas já cansado de ser o aviso silencioso de uma tragédia anunciada.
A fiação elétrica segue exposta nas laterais da casa, esperando uma chamada para o 193.
Enquanto olhava a casa, um senhor parou ao meu lado, tendo nas mãos uma criança e com o olhar desolado, não menos preocupado, me disse: e até bem pouco tempo vi pessoas morando no porão…
Após alguns telefonemas, descobriu-se alguns entraves. Sim, mesmo a caridade ao abraçar, precisa ser abraçada; ao estender a mão, requer igualmente mãos para recebê-la, se possível, de bom grado; se não o for, não importa, pois, como diz a música, “fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas…”.
Por óbvio, não se trata de mudar o mundo, pois sabidamente há outras casas e famílias na mesma situação, mas, de qualquer forma, não cabe olhar de paisagem, tão pouco desistir, pois o risco persiste e o mundo que nos é próximo é aquele que chamamos de cidade.
Vamos em frente!