O episódio da senhora de São Valentim, no interior do Rio Grande do Sul, ganhou enorme repercussão na primeira semana de janeiro. A história, que se espalhou como rastilho de pólvora pelas redes sociais, provocou risos, julgamentos e indignação. Mas, para além do fato curioso, o que realmente chama atenção são as feridas sociais que ele escancara.
A primeira delas é a vulnerabilidade emocional. Carência, solidão e o legítimo desejo de afeto podem levar qualquer pessoa a acreditar no improvável. Esses golpes não atingem apenas o bolso: ferem o ego, abalam a autoestima e corroem a esperança de reencontrar, do outro lado da tela, a felicidade que um dia foi perdida em relações reais.
Outro ponto inquietante é a exposição desnecessária. A filmagem inadequada de quem deveria orientar, acolher ou proteger acabou viralizando, transformando o episódio em espetáculo. Uma família inteira foi exposta e, possivelmente, traumatizada justamente em um período em que tanto se fala de saúde mental, empatia e conscientização, como no Janeiro Branco. Na era digital, ninguém sai ileso quando algo ganha proporções virais. O bullying já não se restringe a um pequeno grupo: ele se espalha em segundos, com alcance exponencial e marcas permanentes. A mulher ficou conhecida nacionalmente pelo vexame e dificilmente apagará esse rastro, que se soma ao primeiro trauma: o de ter sido enganada por um falso Brad Pitt.
É claro que, num primeiro instante, soa quase cômico imaginar alguém acreditando que conversa com um dos homens mais famosos, ricos e desejados do mundo. Eu mesma desconfiaria. Mas o riso fácil encobre uma realidade dura: pessoas com menos acesso à informação, idosos ou emocionalmente fragilizados tornam-se alvos preferenciais desse tipo de golpe. Em muitos casos, o que se impõe não é o deboche, mas a necessidade de orientação, educação digital e cuidado, como faço com a minha mãe. Cuidar não é controlar, é proteger.
A internet, tantas vezes celebrada como espaço de liberdade, também se mostra uma terra sem freios éticos. Um deslize pode ganhar proporções irreversíveis. Quando alguém cai em um golpe, o caminho deveria ser o acolhimento, a informação e a prevenção e não o linchamento moral de quem se considera mais esperto.
Quem sabe, num roteiro quase cinematográfico, o verdadeiro Brad Pitt não aparecesse para mudar a vida dessa mulher e silenciar os juízes de plantão? Não pela fantasia em si, mas como um lembrete simbólico de que humanidade, empatia e respeito ainda deveriam valer mais do que curtidas, memes e gargalhadas fáceis.
Porque, no fim das contas, o verdadeiro teste não é nossa capacidade de rir do erro alheio, mas de reconhecer a fragilidade humana que também nos habita. Antes de compartilhar, zombar ou apontar o dedo, talvez caiba uma pergunta simples e um pouco incômoda: e se fosse com a sua mãe?