O exercício tem crescido não apenas como esporte, mas como ferramenta acessível e científica para o enfrentamento da ansiedade. Para entender como essa prática atua no organismo e por que se tornou recomendada por profissionais de saúde e educação física, a reportagem conversou com Ricardo Rodrigo Rech, doutor em Ciências da Saúde e coordenador do curso de Educação Física da Universidade de Caxias do Sul (UCS).

Segundo o professor, os benefícios começam já nos primeiros minutos de atividade e se acumulam ao longo das semanas.

O que ocorre no corpo

Rech explica que ela produz dois efeitos: o agudo, sentido imediatamente após o treino, e o crônico, resultado de meses e anos de prática regular.

De forma imediata, correr melhora o humor e provoca alterações cerebrais e hormonais diretamente relacionadas ao controle da ansiedade. Durante e após o exercício aeróbico, o corpo libera substâncias como serotonina, dopamina e noradrenalina, todas associadas à sensação de bem-estar e à regulação emocional.

Além disso, o exercício ajuda a modular o cortisol. “A corrida regula a resposta ao estresse e reduz a hiper-reatividade em longo prazo”, afirma o pesquisador. Também há redução de marcadores inflamatórios e melhora do sistema nervoso autônomo, fatores que influenciam diretamente o equilíbrio emocional.

Objetivos semanais ajudam a manter a motivação

Exercício, psicoterapia e medicação: como se complementam

Embora a literatura científica aponte eficácia na combinação entre exercício físico e tratamento medicamentoso, Rech defende que a corrida pode ser, por si só, uma intervenção potente. “Eu usaria como o principal tratamento, porque é não farmacológico”, afirma. Ainda assim, ele ressalta que a decisão sobre a necessidade de medicação cabe exclusivamente ao médico responsável.

O ambiente importa

Quando o assunto é saúde mental, correr ao ar livre oferece vantagens. “Ar fresco, vento no rosto, mudança de cenário… tudo isso aumenta a motivação”, explica. A chamada variabilidade sensorial faz com que treinar na rua estimule mais sentidos e ajude a manter o foco.

Mas ele reforça: o mais importante é fazer. Se a esteira é a única opção, ela cumpre plenamente o papel no controle da ansiedade.

Criar o hábito reduz incertezas e melhora a autoestima

A construção de uma rotina de corrida traz ganhos psicológicos fundamentais para quem sofre de ansiedade. De acordo com Rech, estabelecer dias e horários para correr aumenta a previsibilidade, algo valorizado por pessoas ansiosas.

Além disso, a evolução nos treinos reforça a percepção de autoeficácia, ou seja, a sensação de ser capaz. “É motivacional. Tu vais tendo pequenos avanços semanais, e isso contribui para o bem-estar”, comenta.
Durante a corrida, há ainda outro benefício: a quebra do ciclo de pensamentos negativos. A concentração no ritmo, no percurso e na respiração atua como uma espécie de ancoragem mental.

Riscos para iniciantes

Começar a correr sem orientação é arriscado para qualquer pessoa, especialmente sedentários. Entre os principais riscos, Rech cita: lesões musculoesqueléticas; problemas cardiovasculares; overtraining, quando há excesso de esforço sem recuperação adequada.

Por isso, o professor recomenda que iniciantes procurem orientação profissional. Quem vem de uma vida ativa pode começar aos poucos, mas sempre com progressão gradual.

Uma relação direta com o bem-estar

A corrida também melhora significativamente a qualidade do sono, frequentemente prejudicado pela ansiedade. Segundo ele, treinos intensos muito próximos da hora de deitar podem atrapalhar, mas praticar a atividade com duas a três horas de antecedência favorece o adormecer e reduz a vulnerabilidade emocional.

Primeiros passos

O professor orienta que o ponto de partida é buscar um profissional qualificado para assessoria, de preferência alguém com experiência em corrida. A progressão ideal começa com caminhadas, três a quatro vezes por semana, evoluindo para treinos intercalados de caminhar e correr.

Metas curtas e semanais ajudam a manter a motivação: distância percorrida, minutos correndo ou número de treinos. Ter companhia e escolher locais arborizados e agradáveis também favorecem o processo, como evidencia Rech.