O Natal mudou muito. As pessoas também.
Quando éramos crianças, as árvores eram pequenas, cabiam no balcão da sala ou eram de verdade, lá no quintal. A gente enfeitava com bolinhas vermelhas e papel celofane, embrulhando presentinhos que pareciam de verdade. Praticamente todas as casas tinham luzinhas piscando, o caminhão da Coca-Cola passava na rua e nós ficávamos na área, esperando o Papai Noel jogar balas.
Nos reuníamos na casa dos avós, um monte de gente espremida em volta da mesa para comer frango recheado, churrasco, sobremesa, trocar presentes, mesmo sendo pobres. Não esquecíamos de rezar antes, para agradecer e pedir. A figura do Papai Noel alegrava, mas não substituía a novena, a missa do galo, o nascimento do Menino Jesus. A casa era cheia de primos e os maiores presentes do ano eram daquela noite. Esperávamos ansiosos para abri-los, com a esperança de tê-los merecido, depois de um ano em que nos comportamos e passamos de série.
De lá pra cá, muita coisa mudou. O espírito do Natal, principalmente. A família grande reunida foi ficando rara. A roupa era simples, ninguém ia ao salão de beleza, a árvore era menor, mas o calor humano era bem maior.
Hoje, a viagem para a casa da família foi substituída por viagens caras, com cada vez menos gente para partilhar a mesa. Poucos riem de verdade, muitos só fazem foto para provar qual ceia é a mais farta mesmo que, do lado de dentro, o coração esteja mais vazio. Há pouca humildade, isso foi sendo substituído por roupas e bebidas caras, comidas terceirizadas, crianças no celular.
Ainda assim, eu tenho esperança, a cada Natal, de que possamos voltar a viver o óbvio: lembrar que fomos criados com outros valores, que estamos perdendo aos poucos. A cada ano que renasce (mesmo que o calendário repita os mesmos dias) podemos refletir e ser melhores naquilo que precisamos.
Podemos colocar como meta para o ano novo menos celular, mais natureza, mais coisas simples e verdadeiras; menos falsidade, ódio e violência. Cada um sabe no que pode melhorar e como pode ajudar o outro. Que estejamos menos armados e cheios de razão e mais confiantes no outro e em nós mesmos.
O ano só vai ser melhor se cada um for melhor e, assim, também melhorar a vida do outro.
Quer um conselho? Não seja chato, nem hipócrita. O mundo é maior que o seu umbigo.
Ficou triste? Erga a cabeça. Levante. Faça algo melhor pelo mundo, em vez de apenas esperar que ele seja melhor para você. Agradeça pelo ano que viveu, peça saúde e família reunida. O resto, é supérfluo. Que permaneça o que for apenas essencial, afinal a vida é feita disso: de momentos inesquecíveis com pessoas especiais. Abençoado Natal a todas as famílias e um ano novo repleto de coisas boas!