O panorama demográfico de Bento Gonçalves, em consonância com o cenário nacional, aponta para uma crescente longevidade que reconfigura as prioridades de saúde pública
À medida que a população envelhece, o controle de doenças crônicas como hipertensão, diabetes e problemas cardíacos ou de circulação tornam-se regra, e o uso contínuo e simultâneo de múltiplos fármacos, a chamada polifarmácia, emerge como um desafio sanitário de grandes proporções. Esta prática, embora vital para a manutenção da saúde, carrega consigo um risco silencioso e grave: a interação medicamentosa, um tema que, para os pacientes na terceira idade, adquire uma criticidade incomparável a outras faixas etárias.
A médica geriatra e paliativista Caroline Sbardellotto Cagliari, especialista no cuidado integral ao paciente idoso, esclarece a definição essencial. “Interação medicamentosa existe quando o efeito de um remédio passa a interferir no efeito de outra medicação, aumentando, diminuindo ou mudando a sua ação no organismo. Esse tema é ainda mais importante em idosos, pois eles costumam utilizar diversos remédios ao mesmo tempo”, explica.
O metabolismo lento e a sobrecarga orgânica
O risco associado à polifarmácia reside na forma como o corpo idoso processa os fármacos, que é substancialmente distinta da reação observada em adultos e jovens. O envelhecimento natural provoca mudanças fisiológicas que diminuem a capacidade orgânica de lidar com a carga química dos medicamentos. A especialista aponta a desaceleração do metabolismo como fator-chave, impactando diretamente os órgãos responsáveis pela filtragem e eliminação de substâncias: os rins e o fígado. “Com o envelhecimento, o metabolismo fica mais lento e esses órgãos funcionam com menor eficiência. Se, além disso, a pessoa também possuir doenças que prejudiquem esses órgãos, os efeitos colaterais das medicações e suas interações podem surgir com maior facilidade, por vezes só se manifestando como sintomas quando o problema já está mais avançado”, afirma a especialista. Isso faz com que as substâncias ativas permaneçam mais tempo na corrente sanguínea ou se acumulem, facilitando o surgimento de efeitos colaterais e interações que podem, por vezes, só se manifestar em estágios avançados, dificultando o diagnóstico preciso e a reversão do quadro.

Medicamentos de alto risco
Existem classes de medicamentos que, dada a sua ação no sistema nervoso central ou a complexidade de sua metabolização, apresentam um risco particularmente elevado de interações perigosas em idosos. A geriatra menciona que estas substâncias são classificadas internacionalmente pelos chamados “Critérios de Beers”, uma referência fundamental na triagem de medicações inapropriadas. “Antibióticos, calmantes e remédios para alergia e insônia estão presentes nessa lista. As medicações inadequadas para idosos (e portanto, que devem ser evitadas nessa população), devem ter seu uso revisado junto a médico de confiança e especialista, pois podem causar confusão mental, sonolência excessiva, tonturas e quedas, levando a complicações graves nos idosos”, detalha.
Um dos principais contribuintes para a polifarmácia perigosa é o fenômeno da “cascata de prescrições”. Este termo descreve uma sequência de eventos onde um efeito colateral de um medicamento é erroneamente interpretado como um novo sintoma ou uma nova doença, levando à prescrição de um segundo remédio para “tratar” o efeito colateral do primeiro. Caroline ilustra o perigo dessa prática: “Às vezes, um remédio causa um efeito colateral, como enjoo ou insônia, e ao invés de revisar ou suspender esse remédio, o médico acaba prescrevendo outro para corrigir o problema. Isso chama-se ‘cascata de prescrições’. O risco é que, ao adicionar mais remédios, o organismo do idoso fique ainda mais sobrecarregado, aumentando a chance de reações adversas e de interações perigosas. Um exemplo comum é quando o idoso começa a tomar um remédio para pressão alta e, após um tempo, sente tonturas. Ao invés de ajustar ou trocar o remédio inicial, acaba recebendo outro medicamento para a tontura. Se essa tontura for um efeito colateral do primeiro remédio, o ideal seria rever essa medicação, e não somar mais remédios de uso contínuo”.
Gerenciamento geriátrico
Para cuidadores e familiares, a vigilância deve ser constante, e o foco não deve se restringir apenas às queixas físicas evidentes, como dor ou mal-estar. Os sinais de uma reação adversa ou interação medicamentosa no idoso são frequentemente sutis e manifestam-se como alterações comportamentais. A médica orienta a observação atenta de qualquer desvio do padrão usual do paciente. “Alterações do comportamento usual desse idoso, como maior irritabilidade ou menor apetite, podem ser sinais de alerta para uso inapropriado de medicamentos. Confusão mental e tonturas também podem ser provocadas em idosos devido a alterações naturais de sua metabolização, diferentemente do que ocorreria em adultos e jovens”, indica a geriatra.
É neste cenário de complexidade orgânica e tratamento multifacetado que o papel do geriatra se torna indispensável. Caroline ressalta que o geriatra dedicou anos de sua formação especializada para a compreensão das mudanças fisiológicas do envelhecimento, incluindo o diferente processamento de medicamentos e potenciais interferências de efeito no uso concomitante de medicações. A abordagem é global, considerando a funcionalidade, a memória e a disposição do paciente, e sempre alinhada aos desejos e à percepção de qualidade de vida do próprio idoso e sua família. O especialista atua ativamente na desprescrição, um processo estratégico de retirada gradual e monitorada de medicamentos desnecessários ou de risco, permitindo um cuidado personalizado e continuado.

O desafio da comunicação interdisciplinar
Um dos maiores fatores de risco evitáveis é a fragmentação do cuidado, resultante da falta de comunicação efetiva entre diferentes especialistas – cardiologistas, endocrinologistas, reumatologistas. Quando um paciente é acompanhado por múltiplos profissionais, cada um focado em sua área de expertise, o risco de sobreposição ou duplicação de medicações para a mesma necessidade aumenta consideravelmente. A médica reitera que, se não houver uma comunicação clara entre os profissionais e uma organização adequada por parte do paciente e sua família, medicamentos duplicados para agir na mesma necessidade podem ser prescritos por diferentes médicos e o paciente utilizar ambas as medicações de forma simultânea. “ O geriatra consegue organizar a lista de medicamentos do paciente, averiguar a indicação de cada medicação e ajustar medicamentos duplicados ou inapropriados, buscando a comunicação multi e interdisciplinar para direcionar o cuidado de forma eficaz e segura”, reforça.
Adicionalmente, a automedicação na terceira idade estende-se para além dos medicamentos de balcão e atinge produtos de origem natural, muitas vezes considerados inofensivos. A geriatra faz um alerta contundente sobre chás, suplementos, vitaminas e produtos naturais. “Costumo dizer que chás naturais foram os primeiros medicamentos utilizados pela humanidade. Dessa forma, alguns chás podem sim conter efeitos medicamentosos, e tais efeitos podem interferir no funcionamento do corpo e de outros medicamentos importantes ao paciente”, sublinha. Do mesmo modo, a suplementação excessiva ou desnecessária de vitaminas e proteínas pode sobrecarregar o fígado, os rins e o coração, culminando em complicações graves, como a insuficiência renal. A conclusão é imperativa: “Todo medicamento deve ser iniciado somente se com indicação médica, mesmo que pareçam inofensivos”, afirma.
Ações imediatas
Para a comunidade, a garantia da segurança no uso de medicamentos pelos familiares idosos exige atitudes proativas e imediatas. Caroline oferece uma orientação final, que serve como um protocolo essencial para evitar interações e eventos adversos. Em primeiro lugar, é fundamental que o paciente estabeleça um vínculo de confiança com um médico que o acompanhe de forma integral. “Tenha um médico de confiança que possa lhe acompanhar e revisar com você todas as suas medicações em uso, indicações e doses, tire suas dúvidas com um profissional com formação sólida, não tenha receio de perguntar. Leve a lista de medicamentos em uso (incluindo doses e quantas vezes ao dia as utiliza) sempre que for em uma consulta médica. Organize a rotina de administração das medicações, para não serem realizadas ingestão duplicadas, por exemplo”, enfatiza.
Por fim, a organização da rotina de administração é uma medida simples, mas salvadora, para evitar ingestão duplicadas: “Uma boa ideia é ter uma caixa ou gaveta de medicamentos, e separar os medicamentos a serem usados a cada turno em saquinhos diferentes, evite a retirada de medicamentos de seus blisters muitas horas antes da ingestão, para garantir o efeito completo das medicações. Organização, informação e diálogo com seu médico são atitudes simples que podem salvar vidas”, finaliza.