A temporada de festas de final de ano em Bento Gonçalves, marcada pela forte influência da imigração italiana, é um período onde a culinária se transforma em um elo de união e celebração
Longe de ser apenas uma refeição, a Ceia natalina e o jantar de Ano Novo carregam significados históricos e culturais que se manifestam de maneira particular na Serra Gaúcha. O professor de gastronomia do Senac RS, Matheus Loureiro, oferece uma visão aprofundada sobre como a tradição é mantida e, ao mesmo tempo, adaptada ao paladar contemporâneo da região. Para ele, a Ceia de Natal, em seu contexto atual, oferece uma celebração de partilha e união. “A origem da comemoração fala sobre a abertura das casas para receber os viajantes, dar o alimento e agradecer. Para os dias de hoje, isso volta a aparecer nas celebrações familiares”, explica Loureiro.
Do ponto de vista da origem de pratos icônicos, o panetone, por exemplo, possui uma narrativa ligada à homenagem. “O ‘pane Toni’ historicamente se fala de um pão criado de um padeiro para presentear a filha de um nobre, e ao trabalhar exaustivamente no dia 24 ficou uma homenagem na data. Já o peru se tornou símbolo por questão de prosperidade e fartura. Com isso as lendas foram encaixando cada vez mais no seio familiar e se mantém como tradição até hoje”, explica.

A marca italiana na mesa Serrana
Ao analisar a manifestação da culinária natalina em Bento Gonçalves, a herança italiana surge como um diferencial marcante em comparação com outras regiões do Brasil. A influência se faz presente de forma intensa na escolha dos ingredientes, conforme aponta Loureiro.“Radicchi, tomate, embutidos, bebidas, pães, massas, grostoli, vinho, espumante, frutas da estação são os destaques da mesa dos imigrantes”, afirma.
Sobre as tendências na Ceia de Natal moderna, Loureiro observa uma mescla entre a manutenção dos pratos clássicos e a busca pela modernização. O professor identifica que as famílias buscam novos sabores, especialmente através da combinação de frutas e queijos ou carnes com molhos diferenciados. “A inovação vai sendo no ambiente familiar, por sermos uma cidade de cultura de bebidas, as famílias têm se aberto a novos sabores, mantendo uma base clássica, mas buscando experimentar novos sabores”, pontua.
Simbolismo e sorte na virada do ano
O jantar de Ano Novo carrega um simbolismo ainda mais acentuado, focado na atração de prosperidade e sorte para o novo ciclo que se inicia. Loureiro ressalta que, culturalmente, as refeições de Ano Novo se mantêm nos clássicos e, muitas vezes, seguem uma pegada de comidas mais rápidas e leves para aproveitar as festividades.
Os pratos com significado cultural para a prosperidade são amplamente seguidos. “Dentro de nossa tradição, a lentilha é para prosperidade e sorte, a romã para dinheiro e abundância”, detalha. A tradição de evitar aves que ciscam para trás (como a galinha) e priorizar carnes que empurram para frente (como o porco) na virada do ano é uma crença cultural popular. Loureiro esclarece que esta recomendação não possui uma base gastronômica, mas sim uma origem puramente cultural, focada no pensamento de “sempre olhar para frente”.

Harmonizações e organização
Além do espumante, um ícone da produção local, a leveza do menu de Ano Novo abre espaço para outras harmonizações. Loureiro sugere boas opções de drinks e cervejas que se encaixam perfeitamente com carnes de porco, aves e peixes. “Weissbier (Cerveja de Trigo) com notas frutadas e condimentadas harmonizam bem com pratos leves como salpicão, aves e peixes brancos. Devido ao calor, o ideal é optar por cervejas que não sejam muito fortes ou encorpadas, que tendem a ser melhores em climas mais frios. Sirva as cervejas bem geladas para maximizar a sensação de frescor”, sugere.
Para que as famílias consigam executar grandes ceias com qualidade, evitando o estresse na cozinha, a palavra de ordem do professor é organização. “A maior dica que posso dar é se organizar. Planejar o cardápio, não deixar para a última hora, pois nestes momentos a ansiedade bate, e ficamos perdidos. Planejamento é sempre a chave, comprar com antecedência, começar mais cedo, e tudo estará em perfeita sintonia na sua festividade”, ensina.
Por fim, o professor incentiva a criatividade como a maior tendência da cozinha sustentável, especialmente no aproveitamento de sobras. Ele sugere o uso de ingredientes clássicos e neutros, como arroz, para criar novos sabores, como o arroz de forno e bolinhos de arroz com proteínas. Sobras de carnes podem ser transformadas em recheios para massas, lasanhas e panquecas.
Quanto às sobremesas, o professor afirma que “clássicos são clássicos” e devem ser mantidos, como pudim, rabanada e cremes. Para harmonizar com os vinhos e espumantes da região, Loureiro sugere inovar usando frutas da estação, como flan com calda de frutas, e sobremesas geladas, que, segundo ele, harmonizam perfeitamente com os rótulos de Bento Gonçalves.