Quando eu era pequena, no auge dos meus 6 anos, eu tinha um sonho ambicioso: ser exemplo como o meu irmão. Não por tirar sempre nota 10, mas por “reprovar apenas uma vez na vida e nunca pegar exame”, como ele. Meta estranha para uma criança? Talvez. Mas eu olhava para ele com admiração.
Meu irmão reprovou no 1º ano do Ensino Médio. Não foi por incapacidade, foi por escolha. Escondeu da mãe que tinha ficado de recuperação para não perder a ida à praia. Ele e meu primo. Quando ela descobriu, no ano seguinte, ficou furiosa. Mas, passado o susto, entendeu: ele tinha feito escolhas e, portanto, encararia as consequências. Reprovou por um ponto em uma disciplina. Doeu. Foi difícil. Mas passou.
Hoje, meu irmão é um adulto bem-sucedido, dedicado e responsável. Sabe exatamente o peso de uma escolha e, talvez por isso, faça boas. Não foi destruído por um ano de reprovação. Pelo contrário: foi lapidado por ele.
Lembro dessa história toda vez que vejo as discussões sobre as novas regras de aprovação. Muitos criticaram, com razão, a decisão do Estado do RS de permitir que o aluno seja aprovado mesmo reprovando em quatro componentes curriculares. O mesmo espanto com o RJ, que admite aprovação sem alcançar o mínimo em seis disciplinas. É ou não é o fim da picada? Em vez de elevarmos o nível de aprendizagem, investirmos em educação, apoio pedagógico e estrutura, preferimos “baixar a régua”. Assim, a educação pública perde credibilidade, diferente da escola do nosso tempo, em que nota baixa doía e boletim não era negociável e responsabilidade da escola somente.
Mas aí vem a pergunta incômoda: nós, pais modernos, aceitamos uma reprovação quando ela acontece? Ou fazemos exatamente o que criticamos no Estado?
Quantas vezes, diante da notícia de que o filho não alcançou os objetivos, a primeira reação é brigar com a escola, pedir “trabalhinho para recuperar o ano inteiro”, dizer que ele ficará frustrado, que “vai perder os amigos”, que não é justo? Quantas vezes transformamos a consequência de um ano letivo inteiro de escolhas erradas em falha da instituição?
Falamos mal das políticas públicas, achamos um absurdo a flexibilização da régua, mas será que, dentro de casa, somos coerentes? Não dá para criticar o governo se, em casa, o recado é: “não se preocupe, a gente dá um jeito”.
Eu me tornei aquilo que a menina de 6 anos sonhava: nunca reprovei, passei com proficiência máxima em língua inglesa no Mestrado, tenho quatro pós-graduações e sou mestra em Educação. Humildemente, me orgulho do caminho que trilhamos lá em casa. Fomos os primeiros e únicos, até agora, a conquistar diploma superior em uma família de escola pública, classe média batalhadora, pais com pouca escolaridade, muito trabalho e um valor inegociável: estudo.
Parece simples, mas não é. Ainda são poucos os que chegam lá. E, quando chegam, quase sempre há uma história de renúncia, cobrança, frustração, esforço e persistência. De escolhas e consequências.
Educação não é tapete onde escondemos os problemas debaixo. É chão firme, construído dia após dia, com regras claras, limites, amores e alguns “nãos” pelo caminho.
E você, como pai ou mãe, qual tem sido o seu papel diante do ensino dos seus filhos? Proteger não é apagar consequências. É caminhar junto enquanto elas ensinam.
Talvez seja melhor doer um pouco hoje, para um dia, lá na frente, a gente poder se orgulhar do adulto que ajudou a construir.