A Serra Gaúcha, ainda em processo de recuperação dos recentes eventos climáticos extremos, torna-se o palco para uma nova iniciativa de cunho social e ambiental

A enóloga e pesquisadora Deise Pelicioli, mestre em Viticultura e Enologia e especialista em agricultura biodinâmica, lança o projeto “Raízes do Futuro”. A proposta central é transformar o conhecimento técnico em ação comunitária, buscando uma regeneração efetiva e o preparo das comunidades para enfrentar um futuro de mudanças climáticas. Deise afirma que o impulso para a criação do projeto surgiu logo após as enchentes. “Me perguntei profundamente o que eu poderia fazer, de forma prática e responsável, para contribuir com a minha região e agir diante das mudanças climáticas”, relata. Segundo ela, seu vasto conhecimento em viticultura sustentável e agricultura biodinâmica não poderia ficar restrito ao meio técnico ou a quem pode pagar, mas precisava chegar ao social. “O Raízes do Futuro nasceu desse impulso: transformar a dor coletiva em cuidado, regeneração e preparo para o futuro”, sustenta.
O programa piloto é implementado estrategicamente em Bento Gonçalves, cidade natal de Deise, e Caxias do Sul. A escolha, segundo a pesquisadora, é tanto afetiva quanto prática, baseada nas suas raízes e na rede de trabalho já estabelecida, incluindo experiências em escolas, Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) de Caxias.

Idealizadora do projeto

O tripé regenerativo
A estrutura do projeto se apoia em três pilares interligados: agricultura biodinâmica, educação ambiental e protagonismo feminino. Deise explica que essa união não é forçada, mas sim complementar e natural. “A agricultura biodinâmica oferece ferramentas de regeneração da terra; a educação ambiental forma novas gerações conscientes; e o protagonismo feminino fortalece a autonomia econômica e o papel social das mulheres no campo. Ao unir esses elementos, o projeto cria um ciclo completo de cuidar da terra e das pessoas e fortalecer as comunidades”, detalha.
A base técnica do projeto é a agricultura biodinâmica, que Deise simplifica como uma forma avançada de agricultura orgânica que vê a propriedade como um organismo vivo. Ela frisa que a chave para a mudança de paradigma está em enxergar o solo de forma diferente. “Sempre digo que, quando entendemos o solo como um ser cheio de vida, tudo muda: passamos a cultivar com mais respeito e consciência. Ela combina práticas regenerativas, como compostagem, adubação natural e o cuidado com os ciclos da lua e dos planetas com uma visão integral da natureza. É uma agricultura que produz alimentos verdadeiramente vivos e fortalece o equilíbrio do solo, da água e das plantas. Para mim, é uma forma de cuidar da terra com propósito e responsabilidade”, esclarece.
Para as comunidades afetadas por deslizamentos e inundações, os benefícios são de ordem prática e urgente. Deise destaca que a biodinâmica regenera solos degradados, previne erosões, aumenta a retenção de água e, fundamentalmente, devolve vida ao território. Além disso, o aspecto social do projeto, capacitar mulheres e educar jovens, é visto como um caminho para construir uma autonomia real.

A valorização do saber ancestral
O projeto “Raízes do Futuro” também faz uma ponte entre o conhecimento científico moderno e a sabedoria tradicional. A biodinâmica incorpora observações astronômicas que eram práticas comuns de povos originários e de agricultores antigos. Deise cita o exemplo de seu próprio avô, que podava parreiras observando a lua. “Hoje a ciência confirma o que esses saberes sempre sustentaram. Integrar tradição e técnica moderna valoriza a memória das famílias e empodera quem vive da terra”, afirma.
O papel da mulher no campo é um ponto de destaque na iniciativa. Os Círculos de Mulheres Agricultoras serão encontros presenciais concebidos para serem um espaço seguro de voz, acolhimento e fortalecimento, onde são compartilhados saberes, vivências e desafios da lavoura. Mais do que troca de sementes crioulas, receitas de família e ervas medicinais, os círculos oferecerão formações em práticas regenerativas, economia solidária e liderança comunitária. A ambição de Deise é transformar o grupo em uma rede permanente de apoio e protagonismo feminino no campo e, ao final, registrar essa experiência em um caderno coletivo, preservando o conhecimento que é transmitido de geração em geração.
A implementação de hortas em escolas e comunidades promete um impacto de múltiplas camadas. “Há o visível, que aparece nos alimentos produzidos, no solo regenerado, na aprendizagem prática e na capacitação das pessoas. E há influência mais profundo: a transformação de vidas. Ao longo da minha carreira, vi agricultores recuperarem saúde, famílias adotarem práticas mais seguras e crianças desenvolverem uma relação mais consciente com a natureza. Esse tipo de mudança é difícil de medir, mas é real e duradouro”, afirma.

Justiça social e transparência
O princípio orientador do projeto, “um futuro justo e resiliente começa no cuidado com a terra e com as pessoas”, se manifesta, primeiramente, na democratização do conhecimento. Deise é enfática ao comentar os custos de sua própria formação em biodinâmica e vê o oferecimento gratuito desse conteúdo a escolas e comunidades como uma forma concreta de justiça. O princípio se traduz nas ações cotidianas: o solo é regenerado pelas hortas, as pessoas são cuidadas pela educação e pelo fortalecimento feminino, e as redes comunitárias criadas têm o potencial de subsistir à conclusão das atividades. “Quando alguém aprende a regenerar a terra, ganha ferramentas para transformar a própria realidade. Para mim, é assim que construímos um futuro verdadeiramente justo e resiliente”, resume.
Para viabilizar a proposta, o Projeto Raízes do Futuro abriu a Campanha de financiamento coletivo. A meta de arrecadação é de R$30 mil, em parceria com o programa TrilhaRS, que fará o repasse de parte dos recursos arrecadados. Para participar, basta acessar o site Benfeitoria (https://benfeitoria.com/projeto/raizesdofuturors) e doar. É possível entrar na categoria “apoiador” que recebe algumas recompensas de contrapartida dos idealizadores como certificado de participação, calendário e acesso a cursos, bem como doar diretamente à campanha com o valor mínimo de R$10,00. Até o fechamento desta edição o valor arrecadado já passa de 28 mil reais. “Sucesso absoluto de engajamento”, celebra.
Deise assegura que a aplicação será transparente e direta, abrangendo a infraestrutura das hortas (ferramentas, sementes, composteiras), hortas pedagógicas, remuneração de professores e técnicos, oficinas, círculos de mulheres, materiais didáticos, coordenação e gestão, além do deslocamento da equipe. A prestação de contas, será mensal e totalmente pública no perfil digital do projeto.
Para aqueles que ainda hesitam em apoiar, Deise deixa uma mensagem final que evoca sua experiência de mais de 15 anos na área. “A biodinâmica transforma o solo, a saúde e a vida das pessoas. É essa experiência que me dá certeza de que podemos transformar fragilidade em força coletiva. O Raízes do Futuro é um convite para regenerar a terra, fortalecer mulheres agricultoras e preparar crianças e comunidades para um futuro mais justo e resiliente”, finaliza.