O uso do metanol tem despertado a atenção de autoridades de saúde e fiscalização em todo o país. Substância altamente tóxica, ela tem sido encontrada em bebidas clandestinas e utilizada de forma inadequada em processos industriais, representando um risco grave à população. Mesmo em pequenas quantidades, o metanol pode causar cegueira, intoxicação severa e até a morte, levando especialistas a reforçarem a necessidade de controle rigoroso, informação e prevenção. Diante do aumento de apreensões e casos suspeitos, órgãos de vigilância reforçam o alerta para que consumidores e empresas redobrem os cuidados.
De acordo com Janaina da Silva Crespo, professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS), o metanol é um álcool incolor e altamente tóxico. “O CH₃OH, conhecido como álcool metílico, é incolor, inflamável e tóxico. É usado na indústria como solvente, em anticongelantes, em combustíveis (ex.: produção de biodiesel) e como matéria-prima química. Não é próprio para consumo humano e não deve estar em bebidas”, destaca.
Consumo humano
O produto foi amplamente usado na adulteração de bebidas alcoólicas, que se tornou a principal forma de exposição entre a população. “Também pode haver intoxicação por acidente ocupacional, seja por inalação ou por contato repetido em ambientes de trabalho sem proteção”, destaca Janaina.
O uso do metanol em bebidas ocorre principalmente porque ele é barato, incolor e pode aumentar artificialmente o teor alcoólico, até mesmo enganando testes simples. “Criminosos o misturam para reduzir custos. É prática ilegal e extremamente perigosa”, salienta.
Riscos à saúde
Após ser metabolizado pelo organismo, se transforma em ácido metanoico (HCOOH), substância altamente tóxica que provoca acidose metabólica grave e danos ao nervo óptico. “Os riscos incluem cegueira, insuficiência respiratória, convulsões e até morte”, alerta a professora Janaina.
Sintomas iniciais podem incluir:
- Alteração da consciência;
- Tontura;
- Vômito;
- Cólicas e dores abdominais;
- Confusão mental;
- Visão turva;
- Fraqueza.
Sinais de alerta
- Visão embaçada;
- Fotofobia;
- Respiração ofegante;
- Confusão;
- Sonolência extrema;
- Em casos graves, coma.
Janaina explica que a substância pode causar danos permanentes ao corpo. “A lesão do nervo óptico pode levar à cegueira permanente; também pode haver sequelas neurológicas. O risco aumenta com doses maiores e atraso no atendimento”, menciona.
Ela conta que não existe dose segura de ingestão do produto. “Quantidades pequenas já podem causar danos (há relatos de cegueira com 10 mL (aproximadamente uma colher de sopa) de metanol puro). Para trabalhadores, há limites ocupacionais específicos e necessidade de Equipamento de Proteção Individual (EPIs) e ventilação, mas isso não se aplica a consumo”, completa.
Os primeiros sintomas podem aparecer nas primeiras horas após o consumo. “Os sinais mais graves (acidose e alterações visuais) costumam aparecer entre 6 e 24 horas após a ingestão, e podem demorar mais se a pessoa também ingeriu etanol. Os mais afetados são o sistema nervoso central, o nervo/retina e o metabolismo ácido-básico do corpo”, alerta a professora.
O que fazer em caso de suspeita de ingestão
Janaina sugere:
• Procurar atendimento médico imediato (UPA/Hospital);
• Não provocar vômito e não “contrabalancear” bebendo outras bebidas;
• Se possível, levar a embalagem/amostra da bebida para análise;
· Acionar o Disque-Intoxicação: 0800 722 6001 e/ou o SAMU: 192.
Tratamentos
- Antídoto: fomepizol (preferencial) ou etanol hospitalar para bloquear o metabolismo tóxico;
- Bicarbonato para corrigir a acidose; ácido folínico/folato para acelerar a eliminação do metanoato;
- Hemodiálise em casos moderados a graves, para retirar o metanol e corrigir a acidose.
Atendimentos
A rapidez no início do tratamento é determinante para salvar vidas em casos de intoxicação. Segundo a professora Janaina, quanto mais cedo o antídoto é administrado e, quando necessário, iniciada a hemodiálise, menores são os riscos de cegueira e morte. “Com atendimento precoce, as chances de recuperação são boas; mas, quando há atraso superior a 24 horas, o risco de sequelas graves aumenta significativamente”, alerta.
Conscientização
Janaina finaliza reforçando orientações importantes em um momento em que a utilização de metanol está elevada:
- Reforçar que bebida muito barata, sem rótulo/registro ou de origem duvidosa é risco real;
- Divulgar que não dá para identificar metanol por cheiro, sabor ou “teste da chama”;
- Incentivar a compra apenas de produtos regularizados e denunciar o comércio clandestino;
- Em eventos e comunidades, orientar sobre sinais de alerta e canais de emergência (0800 722 6001 e 192);
- Promover campanhas em rádios locais, escolas e redes sociais com linguagem simples e exemplos práticos.