O clima mais quente e úmido cria o ambiente ideal para a reprodução desses insetos, que se multiplicam rapidamente em locais com água parada. Além do incômodo das picadas, o crescimento da população de mosquitos acende um alerta para os riscos de transmissão de doenças como dengue, zika e chikungunya. Especialistas reforçam a importância da prevenção e do cuidado redobrado durante esta estação, quando os primeiros sinais de proliferação costumam aparecer.
De acordo com o professor Wilson Sampaio de Azevedo Filho, do Setor de Entomologia do Museu de Ciências Naturais (MUCS) da Universidade de Caxias do Sul (UCS), o aumento das temperaturas acelera o metabolismo dos mosquitos, reduzindo o tempo de desenvolvimento dos ovos até a fase adulta e intensificando sua atividade de voo e alimentação. “A umidade elevada também favorece a sobrevivência dos insetos adultos e amplia a disponibilidade de criadouros”, explica o especialista.
Ele destaca que o calor encurta as fases de desenvolvimento larval e pupal dos mosquitos, fazendo com que alcancem a fase adulta em menos tempo. “Com isso, há um aumento mais rápido na população desses insetos, intensificando sua presença”, ressalta.

Wilson Sampaio de Azevedo Filho, professor da UCS

Mosquitos mais comuns no calor
Durante as épocas quentes, diversas espécies de mosquitos se tornam mais frequentes devido ao calor e à umidade, que favorecem sua reprodução. Entre os mais comuns no Brasil, destacam-se:
Aedes aegypti – É o mais conhecido e preocupante, por ser o transmissor da dengue, zika e chikungunya. Costuma se reproduzir em água limpa e parada, como vasos, caixas-d’água e recipientes domésticos.

  • Culex quinquefasciatus: popularmente chamado de pernilongo comum, é aquele que mais incomoda durante a noite. Diferente do Aedes, ele prefere água suja ou com matéria orgânica, como esgoto e valas;
  • Anopheles: embora menos presente nas cidades, é conhecido por transmitir a malária em regiões específicas do país. Reproduz-se em áreas alagadas e próximas a rios;
  • Aedes albopictus: também conhecido como mosquito-tigre-asiático, tem hábitos semelhantes ao Aedes aegypti e pode atuar como vetor secundário das mesmas doenças.
    Azevedo menciona que o Aedes aegypti é mais ativo em regiões urbanas quentes. Já o Culex quinquefasciatus se prolifera em áreas com esgoto e água poluída, comuns em temperaturas elevadas. “Espécies silvestres incluídas nos gêneros Haemagogus e Sabethes são mais comuns em áreas de mata”, destaca.

Serra Gaúcha
Por conta do clima mais ameno, a região pode limitar um pouco a atividade de mosquitos tropicais como o Aedes aegypti. “Em períodos de calor e chuvas intensas, há aumento de criadouros e maior risco de proliferação, especialmente em áreas urbanizadas”, afirma o professor.
Ele enfatiza que, além do mosquito da dengue o Culex quinquefasciatus pode causar incômodo pelas picadas. “Ele também é responsável por transmitir filariose e o vírus do Nilo Ocidental (um vírus ARN de fita simples que causa a febre do Nilo Ocidental), em outras regiões do país. Mosquitos silvestres incluídos nos gêneros Haemagogus e Sabethes são vetores da febre amarela em áreas de mata”, explica.

Saúde
De acordo com o coordenador da Vigilância Ambiental em Saúde, Dener Salvador, o principal mosquito que causa preocupação em Bento Gonçalves é o da dengue. “Este mosquito se desenvolve muito bem em água limpa e parada, principalmente nos depósitos espalhados pela cidade, como garrafas, caixas d’água, latas, baldes, plásticos, lonas, tonéis, lajes de casas etc.”, menciona.

Medidas adotadas na cidade
Salvador explica que, com o reaparecimento dos mosquitos após o inverno e o registro de casos suspeitos de dengue, têm início os ciclos de pulverização de inseticidas em áreas específicas, definidos a partir da confirmação da presença do vetor e da possibilidade de transmissão da doença.
O coordenador reforça que vem sendo observado um aumento gradual nos pontos estratégicos e nas armadilhas de monitoramento. “Também intensificamos as pesquisas do vetor em imóveis onde há registros positivos para Aedes aegypti. É importante lembrar que a maior proliferação desses insetos ocorre entre os meses de fevereiro e maio em nossa região”, destaca.
Ele ressalta ainda as ações de conscientização que vêm sendo realizadas. “Os agentes de endemias estão concluindo um ciclo de palestras e apresentações teatrais nas escolas, iniciado em julho, com o objetivo de sensibilizar alunos e a comunidade escolar. Além disso, as equipes seguem realizando pesquisas vetoriais especiais para identificar a presença do mosquito em locais onde há pacientes com suspeita de dengue”, afirma.
Nos próximos meses, o coordenador adianta que o número de armadilhas será ampliado e que um novo modelo de controle das estações disseminadoras de inseticidas será implementado no município. “Também está prevista a implantação do chamado BRI, borrifação intradomiciliar, com foco especial em locais públicos. Essas estratégias atuam como medidas complementares à principal forma de controle do mosquito Aedes aegypti: a eliminação dos criadouros”, explica.
Para isso, a Secretaria da Saúde, em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente, irá promover ações de recolhimento de materiais descartáveis e entulhos, conhecidas como ‘bota-fora’, com o objetivo de reduzir os possíveis focos de proliferação no município.

Bairros com mais focos
Salvador conta que, no município, os bairros que mais apresentaram focos de mosquitos neste ano foram: Progresso, Centro, Borgo, Vila Nova, Maria Goretti, Eulália e Humaitá.

Sinais de alerta
Embora longe da época de pico a prevenção é a melhor solução. “Nesta época do ano, o índice de infestação permanece baixo, porém vamos verificar o aumento gradativamente até fevereiro, quando atinge o pico que perdura até maio”, explica.
Os pedidos da população para verificação de focos continuam baixos, embora haja sinais de alerta. “Nas últimas semanas, tivemos vários casos suspeitos de dengue, sendo que um foi confirmado em outubro”, completa.

Comportamentos
Segundo o professor, os mosquitos agem de forma diferente em alguns tipos de clima. “Em dias muito quentes, eles tendem a buscar locais sombreados e úmidos. Após as chuvas, há aumento de criadouros e atividade de postura dos ovos. O Aedes aegypti costuma picar mais ao amanhecer e ao entardecer”, frisa.

Vigilância Entomológica
O professor destaca a importância da manutenção do monitoramento entomológico como ferramenta essencial no combate à dengue e a outras doenças transmitidas por mosquitos. Segundo ele, essa prática consiste na observação contínua de insetos vetores, buscando compreender seus aspectos bioecológicos e a interação entre as espécies, o ser humano e o ambiente. “Através da vigilância entomológica, é possível detectar indícios e oscilações nas populações de vetores, funcionando como um importante instrumento de apoio na tomada de decisões para o controle desses insetos”, explica.

Como combater
Para controlar a proliferação de mosquitos, Azevedo destaca algumas medidas de prevenção, como:

  • Manter quintais limpos e organizados, evitando o acúmulo de lixo e pequenos recipientes que possam reter água;
  • Não utilizar pequenos pratos ou bandejas junto aos vasos de plantas;
  • Manter caixas d’água ou outros tipos de reservatórios tampados e/ou telados;
  • Manter limpos e protegidos os potes de água dos animais de estimação;
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