Com o mês de novembro, chega também a campanha Novembro Azul, iniciativa que tem como objetivo chamar a atenção para a saúde do homem, especialmente para a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de próstata. Ao longo do mês, instituições de saúde e entidades públicas e privadas promovem ações de conscientização, palestras e exames gratuitos. Mais do que falar sobre uma doença, o movimento busca quebrar preconceitos e incentivar os homens a cuidarem de si, adotando uma postura preventiva e de atenção integral à saúde.
O câncer de próstata ocupa uma posição alarmante no cenário de saúde nacional e global. No Brasil, a doença representa 29% de todos os casos de câncer no sexo masculino, com o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimando aproximadamente 66 mil novos diagnósticos e quase 16 mil mortes por ano. Essa incidência faz com que a doença seja responsável por 10% das mortes entre os homens no país. Em escala mundial, é o quarto tipo de câncer mais incidente, representando 7,3% do total de novos casos, sendo superado apenas pelos cânceres de pulmão (12,4%), mama (11,6%) e colorretal (9,6%), e à frente do de estômago (4,9%), dados que reforçam a urgência da conscientização e do rastreamento preventivo.
De acordo com o médico urologista Fábio Firmbach Pasqualotto, o objetivo da campanha é conscientizar os homens sobre a importância de procurar ajuda especializada e realizar exames regularmente. “Não apenas o exame da próstata, mas também os demais exames, como colesterol e triglicerídeos”, enfatiza.
Ele salienta que o mês é uma oportunidade para o homem comparecer ao especialista, já que, tradicionalmente, tende a evitar consultas. “Esse é o grande objetivo: que ele vá ao médico com todas as suas queixas, disfunção erétil, colesterol elevado, dor no peito, dores musculares e também para uma avaliação urológica. E aí sim, fazer o toque retal, se necessário, o Antígeno Prostático Específico (PSA) e os exames de rotina na área da urologia. Isso é fundamental”, afirma Pasqualotto.

Doenças que costumam ser prevenidas
O profissional destaca que a avaliação completa do homem deve incluir o rastreio e acompanhamento de condições sistêmicas e urológicas diversas. “Aterosclerose, hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, avaliação urológica, hiperplasia benigna da próstata, câncer de próstata, alterações renais, cálculo urinário todas as alterações que, porventura, o homem possa vir a ter”, detalha o médico.
A principal barreira, contudo, ainda reside na resistência do próprio paciente em buscar ajuda. “Muitas vezes, o homem só vai ao médico quando sente dor ou quando a esposa marca a consulta”, lamenta o especialista. Essa postura, segundo ele, atrasa diagnósticos e compromete a eficácia dos tratamentos, reforçando a necessidade de quebrar o tabu e incentivar a cultura de consultas e exames preventivos de rotina.
A resistência masculina em procurar atendimento médico rotineiro tem um custo alto. O recado para a população é claro: “É importante, sim, falar para o homem, para a população masculina em geral, que ele deve prevenir doenças”, afirma o médico. “O diagnóstico precoce é a chave para evitar intervenções mais drásticas”, pontua.

Importância da prevenção
O médico enfatiza que a precaução sempre supera o tratamento reativo. “Prevenir é muito melhor do que ter de usar medicamentos para tratar, ou até passar por cirurgias agressivas. Se ele tivesse feito o diagnóstico precoce, o tratamento seria muito mais simples”, explica.
Para a detecção precoce de alterações na próstata, o especialista detalha as recomendações de rastreamento: “Homens acima de 45 anos de idade, se tiverem histórico familiar, ou a partir dos 50, se não tiverem, devem fazer o exame de toque retal para verificar se há nódulos, além do exame de PSA”, destaca. O toque retal, juntamente com a dosagem do Antígeno Prostático Específico (PSA) no sangue, são os métodos indicados para a triagem e podem salvar vidas.

Avanços
Embora a tecnologia médica avance rapidamente, o diagnóstico do câncer de próstata ainda se apoia em métodos tradicionais, porém eficazes. O médico destaca que, embora existam exames com alto poder informativo, eles não são de primeira linha. “Cada vez mais se realizam exames menos invasivos, como a ressonância magnética. Mas esse não é o de primeira escolha. O mais realizado no mundo inteiro ainda é o toque e o PSA”, afirma o especialista.

Avaliação abrangente
O profissional reforça, contudo, que a consulta de rotina vai muito além da próstata, incluindo uma checagem completa da saúde do paciente. “Quando o homem procura o médico, é importante avaliar colesterol, glicose, fígado, rins, tireoide e urina”, detalha.
Além dos exames laboratoriais, a avaliação por imagem é essencial. “Muitas vezes, é feita uma ultrassonografia, a famosa ecografia abdominal total, ou de rins e vias urinárias para avaliar possíveis alterações”, explica. Ele alerta ainda para a necessidade de rastrear uma condição silenciosa e grave: “Todo homem acima dos 40 anos deve fazer, ao menos uma vez, uma ultrassonografia abdominal total para descartar aneurisma de aorta”, ressalta.

Estilo de vida
O médico reforça que a prevenção de doenças e a promoção da saúde masculina passam diretamente pelas escolhas do dia a dia. “Sabemos que a alimentação saudável, o sono de qualidade e a prática regular de exercícios, evitando o sedentarismo e fazem com que o homem se sinta melhor”, salienta.
O estilo de vida ativo impacta diretamente o equilíbrio hormonal masculino. “O exercício melhora a produção natural de testosterona e reduz a conversão desse hormônio em estradiol, o hormônio feminino produzido na gordura periférica”, explica.

Risco e proteção
O profissional alerta ainda sobre o vício mais nocivo: o cigarro. “Evitar o fumo é fundamental. Ele altera a função erétil, podendo causar problemas de ereção peniana”, explica. “Exercício físico, alimentação saudável, sono de qualidade e evitar o sedentarismo são pilares para uma vida melhor”, completa.
Além disso, os benefícios do exercício vão além do bem-estar imediato, atuando na prevenção de doenças graves. “Vários estudos mostram que o exercício físico melhora a qualidade de vida e reduz a agressividade dos tumores”, acrescenta.

O envelhecimento e a próstata
A hiperplasia benigna da próstata (HPB), aumento não canceroso da glândula, é uma condição extremamente comum e diretamente ligada à idade. “Estatisticamente, 50% dos homens acima de 50 anos terão hiperplasia de próstata, e até 90% dos homens acima de 80 anos. É uma patologia decorrente do envelhecimento”, explica o especialista.
Esse aumento é resultado da ação hormonal ao longo dos anos. “A testosterona age sobre a próstata, aumentando seu volume e reduzindo o diâmetro da uretra, o que dificulta o fluxo urinário”, detalha. Isso causa sintomas como jato urinário fraco, sensação de esvaziamento incompleto e necessidade de urinar várias vezes à noite.
Além da HPB, o médico cita a prostatite, processo inflamatório da próstata, como outra patologia comum. “O homem pode sentir dor acima da bexiga, no períneo, no pênis ou nos testículos. São dores muitas vezes inespecíficas”, descreve. O tratamento adequado depende do diagnóstico correto. “Quando diagnosticada, a prostatite é tratada com antibióticos, resolvendo o problema”, completa.

Histórico familiar
Os números relacionados ao risco familiar são significativos:

  • Um familiar com câncer de próstata aumenta o risco em 20%;
  • Dois familiares, 30%;
  • Três familiares, 40%.
    Diante desses riscos, o especialista observa uma mudança positiva na cultura de saúde masculina. “Os homens mais jovens têm procurado mais o médico, e isso é perceptível na prática clínica”, comenta.
    A importância do rastreamento cresce à medida que a expectativa de vida aumenta. “Com a longevidade cada vez maior, cresce também a incidência do câncer de próstata. Se o diagnóstico for precoce, a qualidade de vida será muito melhor”, afirma.
    A mensagem final é direta: “Procure seu médico urologista, faça exames periódicos, realize o exame de sangue e o toque retal. Isso é fundamental e salva vidas.”

Ações em Bento Gonçalves
A Secretaria de Saúde de Bento Gonçalves está intensificando as ações de promoção à saúde masculina ao longo do Novembro Azul. Reconhecendo as dificuldades dos trabalhadores em acessar os serviços, o município adaptou os horários das Unidades Básicas de Saúde (UBS). “As UBS São Roque, Municipal, Vila Nova, Zatt, Conceição/Tancredo e Santa Helena oferecem atendimento no turno vespertino às segundas-feiras”, destaca a secretária de Saúde, Daiane Piuco. “A UBS São Roque também mantém atendimento estendido de segunda a sexta-feira no mesmo período”, explica.
A estratégia busca facilitar o acesso, e segundo Daiane, o objetivo é claro: “Queremos mostrar aos homens a importância da prevenção e incentivar o autocuidado”, diz.
As unidades realizam, conforme a demanda de cada território, orientações, aferição de pressão, testes rápidos e pedidos de exames essenciais, como o PSA, reforçando o cuidado integral com o homem.
Ela explica que, durante todo o mês, as unidades de saúde estão oferecendo coleta de PSA (exame de sangue utilizado no rastreamento do câncer de próstata), além de consultas médicas para avaliação individualizada. “De janeiro a outubro de 2025, foram solicitados 3.705 exames de PSA no município. Até o momento, 30 pacientes foram encaminhados aos serviços de oncologia para investigação e tratamento”, conta.
A secretária confirma a fala do médico sobre a principal dificuldade ainda ser cultural. “A ideia de que o homem deve ser forte e não adoecer ainda persiste. Muitos associam a ida ao médico à presença de sintomas, e não à prevenção. É preciso entender que cuidar da saúde é um ato de coragem, não de fraqueza”, reforça.
Além dos exames, a Secretaria tem promovido rodas de conversa, palestras educativas e ações em empresas privadas que solicitam atividades de conscientização. “Nosso foco é aproximar o homem dos serviços de saúde e mostrar que a prevenção salva vidas”, finaliza.