Você já sentiu vermelhidão, dor de cabeça ou palpitações após tomar uma taça de vinho tinto? Se sim, a causa pode não estar apenas no álcool, mas em uma substância natural chamada histamina. Presente em diversos alimentos e produzida pelo próprio corpo, ela tem papel essencial em funções como a imunidade e a digestão, mas, quando está em excesso, pode provocar reações semelhantes a uma alergia.
De acordo com a médica gastroenterologista Amanda Zilio Varoni, o vinho é uma das bebidas com maior concentração de histamina, resultado do próprio processo de fermentação. “Durante essa etapa, bactérias e leveduras produzem naturalmente a substância, e o álcool ainda inibe a enzima Diamina Oxidase (DAO), responsável por metabolizá-la. Ou seja, o vinho aumenta a produção e, ao mesmo tempo, reduz a capacidade do corpo de degradar a histamina, uma combinação perfeita para causar sintomas como dor de cabeça, vermelhidão e palpitações”, explica.

Os vinhos tintos tendem a apresentar níveis mais altos da substância, já que passam por fermentação prolongada e em contato com as cascas das uvas, ambiente rico em microrganismos produtores de histamina. “Os brancos e espumantes costumam conter até dez vezes menos histamina, mas ainda podem causar sintomas em pessoas sensíveis”, acrescenta a especialista.
Com o crescente interesse por hábitos mais saudáveis, compreender a relação entre o vinho e a histamina ajuda não apenas a identificar a origem de certos desconfortos, mas também a consumir a bebida com mais consciência.
A gastroenterologista explica que a histamina participa de funções fundamentais no corpo humano. “Atua na defesa imunológica, na produção do ácido do estômago, regula o sono, o apetite e o humor, e também influencia a pressão arterial e o funcionamento do intestino. Ou seja, é essencial ao equilíbrio do organismo, o problema surge quando há excesso ou dificuldade em degradá-la”, afirma.
Intolerância x alergia
Segundo a médica, a intolerância à histamina ocorre quando o organismo não consegue eliminar adequadamente a substância presente nos alimentos. “Isso geralmente acontece por uma deficiência na enzima responsável por quebrá-la DAO”, explica.
Ela destaca a importância de diferenciar a intolerância da alergia alimentar, já que os mecanismos são distintos. “Na alergia, há uma resposta imunológica verdadeira: o sistema imunológico reconhece uma proteína como ‘inimiga’ e libera histamina como parte dessa reação”, esclarece.
No caso da intolerância à histamina, a médica reforça que não há uma alergia real, mas sim um acúmulo dessa substância no organismo, o que provoca sintomas semelhantes aos de uma reação alérgica, como coceira, vermelhidão, dor de cabeça e desconforto digestivo.
Principais causas da intolerância
A médica relata que a condição pode ter diversas origens, como:
- Genética, quando há produção naturalmente menor da enzima DAO;
- Adquirida, quando doenças intestinais, como disbiose, Supercrescimento Bacteriano do Intestino Delgado (SIBO), doença celíaca, gastrite ou uso prolongado de antibióticos, reduzem a atividade da enzima. Nesses casos, a intolerância pode ser temporária, desaparecendo quando o problema intestinal é tratado.
Como age no organismo
Amanda explica que o excesso de histamina pode desencadear sintomas em diferentes partes do corpo, já que a substância atua em receptores espalhados pela pele, intestino, coração e sistema nervoso. “Por isso, os sinais clínicos podem ser bastante variados e, muitas vezes, confundidos com outras condições”, ressalta.
Segundo a especialista, a intensidade das manifestações varia de pessoa para pessoa, do momento e da quantidade de histamina ingerida.
Onde mais encontrar
A histamina também está presente em diversos alimentos. Entre os principais estão:
- Queijos maturados;
- Embutidos (como salame e presunto cru);
- Peixes defumados ou enlatados;
- Tomate, berinjela e espinafre;
- Molhos fermentados (como shoyu e vinagre);
- Chocolate e bebidas alcoólicas.
A médica ressalta que a combinação entre esses alimentos e o álcool pode potencializar os sintomas.
Sintomas mais comuns
Estudos clínicos mostram que os sinais mais frequentes incluem:
- Gastrointestinais: estufamento, náusea, distensão abdominal, sensação de plenitude após comer, diarreia, cólica e constipação;
- Cutâneos: vermelhidão, coceira e urticária;
- Cardiovasculares: palpitações, tontura e queda de pressão;
- Neurológicos: dor de cabeça, tontura, fadiga e ansiedade.
Como é realizado o diagnóstico
A médica salienta que ainda não há um exame definitivo para diagnosticar a intolerância à histamina. “O diagnóstico é principalmente clínico, baseado nos sintomas e na melhora com uma dieta pobre em histamina”, menciona.
Ela explica que alguns testes, como a dosagem de DAO no sangue, podem auxiliar, mas não são conclusivos, já que os níveis da enzima no sangue nem sempre refletem sua atividade intestinal. “Por isso, o diagnóstico costuma envolver uma avaliação médica detalhada, exclusão de outras doenças e observação da resposta à dieta”, complementa.
Tratamento
Amanda menciona que o tratamento envolve identificar e tratar as causas intestinais. “Fazer uma dieta de baixo teor de histamina por um período e, gradualmente, reintroduzir os alimentos para testar a tolerância individual. Com o tempo, muitas pessoas voltam a tolerar pequenas quantidades sem sintomas”, explica.
Medicamentos
A especialista conta que existem suplementos com a enzima DAO, que podem ser usados antes das refeições. “Anti-histamínicos podem aliviar sintomas pontuais, como cólica abdominal, mas o ideal é não usá-los de forma contínua sem acompanhamento médico”, orienta.
Hábitos que ajudam a reduzir os efeitos
Entre as principais recomendações para quem sofre com intolerância à histamina estão mudanças simples na alimentação e na rotina. “Preferir alimentos frescos e pouco processados, evitar guardar sobras por muito tempo, já que a histamina aumenta com o tempo de armazenamento e reduzir o consumo de álcool”, orienta. Segundo ela, essas medidas contribuem para restabelecer o equilíbrio da histamina e melhorar a tolerância do organismo com o passar do tempo.