O zumbido das abelhas, muitas vezes despercebido no cotidiano das cidades e do campo, carrega um significado muito maior do que parece
Esses insetos, responsáveis por uma das mais importantes funções ecológicas do planeta, a polinização, estão desaparecendo em ritmo acelerado. O fenômeno, que já preocupa pesquisadores em escala global, começa a ser percebido de forma nítida também na Serra Gaúcha, com impactos diretos sobre a agricultura, a biodiversidade e a estabilidade dos ecossistemas. Especialistas alertam: trata-se de um problema silencioso, mas com potencial de afetar profundamente a economia e o meio ambiente da região.
Para o engenheiro-agrônomo Nadilson Roberto Ferreira, que acompanha de perto o comportamento dos polinizadores e a dinâmica ambiental, o cenário é claro. “Esse fenômeno é real e preocupa não apenas aos pesquisadores, mas à sociedade como um todo, em virtude dos possíveis reflexos advindos do fato”, afirma. De acordo com ele, não há uma causa única para explicar a redução das populações de abelhas, mas sim uma combinação de fatores que, somados, criam condições adversas para sua sobrevivência.
Entre os fatores mais relevantes, Ferreira destaca a perda de habitat provocada por modificações no uso do solo, em especial pelo avanço de monoculturas e desmatamentos, que reduzem as áreas de flora diversificada, fundamentais para a alimentação das abelhas. “A fome, em decorrência da diminuição e desestruturação do pasto apícola, é um dos elementos centrais dessa crise”, explica. A isso se somam doenças e parasitas, vírus, fungos, bactérias, protozoários, ácaros e besouros, muitas vezes introduzidos em ecossistemas frágeis e já degradados, comprometendo ainda mais a capacidade de sobrevivência desses insetos.
Outro ponto crucial é a utilização intensiva de agrotóxicos. “O uso elevado e crescente de produtos químicos nas lavouras atinge diretamente o sistema nervoso das abelhas, levando-as à falência e morte”, destaca Ferreira. O alerta é reforçado por Luis Fernando Wolff, pesquisador em abelhas e polinização na Embrapa Clima Temperado, que tem acompanhado a situação no Sul do Brasil. “A contaminação ambiental pelo uso de agrotóxicos é a causa mais importante das grandes mortandades de abelhas que temos assistido nos últimos anos entre apicultores e meliponicultores”, ressalta.
Wolf explica que o fenômeno decorre principalmente de três causas: a perda de habitats, os desequilíbrios climáticos e a contaminação química. “O desmatamento, a perda de floradas naturais pelos monocultivos, a ausência de locais adequados para nidificação, chuvas intensas na primavera, verões excessivamente secos e oscilações bruscas de oferta de flores se combinam para enfraquecer as colmeias. Quando somamos a isso o uso abusivo de pesticidas, criamos um ambiente letal para as abelhas”, detalha.
Outros fatores de alerta

A crise climática também tem influência direta nesse processo. Alterações no balanço hídrico, variações bruscas de temperatura e eventos extremos têm provocado mudanças nos ciclos naturais das floradas e dificultado a sobrevivência dos polinizadores. “Estamos chegando a níveis de calamidade e quebra de ponto de resiliência ambiental. As abelhas são indicadoras de qualidade ambiental. Se o ambiente está ruim, elas nos mostram com sua morte”, alerta Ferreira. A gravidade do tema será debatida de forma ampliada durante a COP 30, que acontece neste mês, no Pará, onde líderes mundiais discutirão a crise climática e suas múltiplas consequências.
Mesmo em uma região como a Serra Gaúcha, inserida no Bioma Mata Atlântica, a situação não é menos preocupante. A legislação de proteção do bioma atenua alguns impactos, mas não os elimina. “Por ser uma área com maior resguardo legal, alguns pontos são atenuados, mas isso não isenta a Serra dos riscos. Trata-se de um fenômeno global, e estamos inseridos nele”, explica Ferreira. Wolf complementa: “Muitas espécies vegetais cultivadas aqui dependem de uma boa polinização para garantir produtividade, especialmente as frutíferas. Entre os casos mais preocupantes estão os pomares de maçã e outras rosáceas, como ameixa, cereja, pêra, morango, amora e framboesa, além das lavouras de colza, soja e outros grãos”.
Influências em diversos setores

O impacto econômico da redução dos polinizadores é expressivo. Estima-se que dois terços das espécies alimentares cultivadas no mundo dependam ou se beneficiem da polinização por abelhas, representando aproximadamente 10% do valor bruto da produção agrícola global. “Na agricultura mundial, as abelhas visitam 90% das 107 principais culturas estudadas. No Brasil, culturas como maçã, laranja, café e soja são responsáveis por bilhões de dólares em exportação. Qualquer redução significativa no número de abelhas implica em menor capacidade produtiva e ameaça direta à segurança alimentar”, reforça Ferreira.
A relação entre o desaparecimento das abelhas e a polinização é direta. “Menos abelhas disponíveis junto às lavouras e pomares resultam em menor enchimento de grãos, frutas menos doces, de peso reduzido e com conformações defeituosas”, explica Wolf. O reflexo também se estende a setores indiretos, como a pecuária, já que a polinização garante a produção de sementes de leguminosas usadas na recomposição de pastagens.
No Rio Grande do Sul, as culturas mais afetadas por essa redução seriam, canola, melancia, laranja, bergamota e soja. Mesmo culturas que não dependem exclusivamente da polinização, como a soja, apresentam ganhos de até 15% na produtividade quando há presença ativa de abelhas. “Quando falamos em grandes extensões de cultivo, isso representa um impacto econômico significativo”, observa Ferreira.
Tipos de abelhas

Outro aspecto frequentemente ignorado no debate é a diversidade das espécies. “Além das abelhas melíferas africanizadas, as abelhas nativas sem ferrão (meliponíneas) e as abelhas solitárias são importantíssimas para a produção de alimentos e para a recomposição da flora nativa”, destaca Wolf. No estado, há registro de 24 espécies sem ferrão, todas sociais. Na Serra Gaúcha, destacam-se jataí, manduri, guaraipo, mandaçaia, tubuna, mirins (guaçú, emerina, droriana, saiqui, nigriceps), guiruçu, borá e iraí. Ferreira acrescenta ainda espécies ameaçadas, como Plebeia wittmanni, Plebeia remota e Melipona bicolor.
Cada espécie possui uma forma distinta de interação com as flores, desempenhando papéis específicos e complementares na polinização. “Flores pequenas, tubulares ou muito fechadas, como as de abóboras, melões, feijões, pimentões e tomates, costumam ser mais bem polinizadas pelas abelhas sem ferrão do que pelas melíferas”, explica Wolf. Essa especialização é resultado de milhões de anos de coevolução entre plantas e polinizadores. “Não existem abelhas mais ou menos importantes. Cada uma possui uma função, e sua ausência causa distúrbios e quebra de resiliência nos ecossistemas”, reforça Ferreira.
Além de Plebeia wittmanni, Melipona bicolor e Melipona tórrida, espécies de abelhas de chão, que nidificam no solo, também estão em risco devido ao avanço da mecanização agrícola e da urbanização. “Infelizmente já temos no RS espécies consideradas em extinção ou risco de extinção, e muitas outras cada vez mais raras de serem encontradas na natureza”, afirma Wolf. A perda desses polinizadores compromete a reprodução de plantas nativas e cultivadas e enfraquece toda a cadeia alimentar. “O desaparecimento de um desses indivíduos comporta-se como trincas em uma coluna de sustentação de uma obra de engenharia. O ambiente fica mais pobre, chegando ao risco de não retorno resiliente”, alerta Ferreira.
O cuidado com a espécie precisa ser imediato
Os efeitos da redução das abelhas não são imediatos e, por isso, muitas vezes passam despercebidos no curto prazo. Mas, a médio e longo prazo, tornam-se evidentes: perda de biodiversidade, queda na produtividade agrícola, erosão genética de espécies vegetais e alterações no equilíbrio dos ecossistemas. “Em curto espaço de tempo não se percebe, mas o impacto é muito grande devido à produção de sementes pela flora nativa e à produção de alimentos para a cadeia alimentar na Natureza”, afirma Wolf.
Diante desse cenário, a mobilização da comunidade torna-se indispensável. Ele propõe três atitudes centrais: “Reduzir ou eliminar o uso de agrotóxicos, implantar técnicas de transição agroecológica e plantar árvores e arbustos com flores melíferas e poliníferas em áreas rurais e urbanas”. Essas medidas podem ajudar a restabelecer habitats e a garantir alimento e abrigo para as abelhas.
Ferreira acrescenta que ações de base comunitária também são essenciais: “Cada pessoa pode fazer a diferença. Ao cultivar flores em jardins, observar as abelhas e valorizar seu papel, estamos construindo um elo de reconexão com a natureza. Uma simples caixinha de abelhas nativas no jardim pode ser uma poderosa aliada da biodiversidade local”. Ele incentiva ainda práticas simples como plantar espécies melíferas em áreas domésticas, evitar produtos químicos em jardins, proteger fontes de água limpa e envolver escolas em projetos de educação ambiental.
O declínio das abelhas exige ação coordenada entre poder público, produtores rurais e sociedade civil. Reflorestar áreas degradadas, reduzir a dependência de monocultivos e fortalecer práticas agroecológicas podem ajudar a garantir o futuro desses polinizadores e, com eles, a segurança alimentar da população. “As abelhas são muito mais do que produtoras de mel. Elas são fundamentais para a vida como a conhecemos”, finaliza Wolf.