Considerada uma das infecções virais mais comuns no mundo, a herpes, em suas diversas formas, como o herpes simples (labial e genital) e o herpes-zóster (cobreiro), afeta milhões de pessoas e carrega consigo não apenas o desconforto físico, mas também um estigma social. Causada por diferentes tipos de vírus da família Herpesviridae, a principal característica dessa condição é a sua permanência no organismo: após a infecção inicial, o vírus se aloja nas células nervosas em estado de latência, podendo ser reativado periodicamente e causar lesões na pele ou mucosas.

Diferenças entre as herpes
Com taxas de contato viral que chegam a mais de 70% da população adulta mundial, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entender a herpes é crucial. De acordo com o médico dermatologista Breno Marzola, existem dois tipos de herpes: o tipo 1 e o tipo 2. “O Herpes Simples mais comumente são o tipo 1, que aparece na volta dos lábios (boca), e o tipo 2, ou genital. Mas o Herpes Simples pode ser atípico e aparecer em áreas não tão comuns, como mãos, coxas, etc. Pela recorrência das lesões típicas, pode ser diagnosticado”, explica.
A principal distinção entre os tipos de herpes, segundo a dermatologia, reside na sua via de transmissão e na localização das lesões. O vírus herpes simples tipo 1 (HSV-1), que provoca o herpes labial, não é tipicamente uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST), sendo o contato o meio comum de contágio. Já o tipo 2 (HSV-2), que se manifesta nos genitais, exige precauções como o uso de preservativos. A reativação de ambos os vírus, porém, segue um padrão comum, como explica o especialista: “O (HSV-1), tipicamente no lábio (boca), não tem um padrão de transmissão sexual, como o (HSV-2), que aparece nos genitais, em que há necessidade de uso de preservativos nos homens e cuidados de contato. O retorno das lesões pode ocorrer por gatilhos (estresse, infecções respiratórias, etc.)”.
O Herpes-Zóster, popularmente conhecido como “cobreiro”, representa uma reativação do Vírus Varicela-Zóster, o mesmo agente causador da catapora. Após a contaminação inicial, o vírus permanece latente e pode retornar, desencadeando um quadro que afeta os nervos e a pele. A doença se distingue por suas lesões que seguem o trajeto de um nervo específico, uma característica que o dermatologista define como “comprometimento neurocutâneo”.
A condição é marcada por dor intensa e sensação de queimação, sendo considerada mais grave em pacientes idosos. Um aspecto raro, mas que merece atenção, é a forma atípica da doença, conhecida como Herpes Zóster Sine Herpete. Esta modalidade ocorre sem as vesículas (pequenas bolhas) clássicas na pele e se manifesta apenas com a dor e a atividade viral. O médico ressalta a importância do diagnóstico correto, especialmente quando a dor ocorre no tronco. “Existe uma forma Sine Herpete, atividade do Zóster sem lesões clássicas vesiculosas na pele, forma rara, mais comum no tronco, que às vezes leva ao erro de pensar em dores abdominais”, cita.
Vírus alojado no corpo
A persistência do (HSV) no organismo é uma das características centrais da infecção. Segundo o dermatologista, mesmo após a resolução da crise na pele, o vírus não é eliminado: ele permanece em estado de latência no sistema nervoso.
O vírus se aninha em um “gânglio nervoso”, um agrupamento de células nervosas, ficando inativo por tempo indeterminado. Apenas quando o organismo sofre algum tipo de desequilíbrio é que ele se reativa. Como o especialista detalha: “O Vírus do Herpes Simples, após a crise da infecção na pele, fica incubado em gânglio nervoso e, após um estímulo (gatilho herpético), reaparece normalmente na mesma área em que apareceu”, destaca.
Esses “gatilhos herpéticos” podem ser diversos, como estresse emocional, febre, exposição solar intensa ou queda da imunidade, e são os responsáveis por fazer com que o vírus percorra o trajeto do nervo e provoque novas lesões, em geral, no mesmo local da manifestação anterior.

Transmissão
A herpes simples é altamente contagiosa, e a transmissão ocorre principalmente durante a fase ativa da infecção, ou seja, quando há lesões (bolhas ou feridas) visíveis, que contêm uma alta concentração de vírus.
Contato direto com as lesões: é a forma mais comum. Tocar nas bolhas, feridas ou nas secreções que saem delas e, em seguida, tocar a própria boca, olhos ou órgãos genitais.
Contato íntimo (beijo e relação sexual):
Herpes Labial (HSV-1): transmitido principalmente pelo beijo ou compartilhamento de objetos que tiveram contato com a saliva (copos, talheres, batons). O sexo oral pode levar o vírus labial para a região genital.
Herpes Genital (HSV-2): transmitido essencialmente pelo contato sexual (vaginal, anal ou oral), mesmo que as lesões não estejam totalmente visíveis.
Compartilhamento de objetos: uso comum de toalhas, talheres ou utensílios que tiveram contato recente com as lesões ativas.
Marzola explica que é possível, sim, haver contaminação assintomática. “Existe, sim, em alguns casos, a transmissão do Herpes Simples por pessoas sem lesão ativa, o que se chama Transmissão Assintomática”, menciona.
O Herpes Zóster, causado pela reativação do Vírus Varicela-Zóster, não é transmitido de pessoa para pessoa. Quem está com Herpes Zóster (cobreiro) não transmite para outra pessoa. Ela passa o Vírus Varicela-Zóster, o que pode causar catapora em quem nunca teve a doença ou nunca foi vacinado.
Vias de transmissão: o contágio ocorre através do contato direto com o líquido das bolhas ativas do Herpes Zóster.
Quem está em risco: pessoas que nunca tiveram catapora ou que não foram vacinadas contra a varicela (crianças, adultos e, especialmente, gestantes). Pessoas que já tiveram catapora são imunes à transmissão.

Prevenção
De acordo com o dermatologista, as principais práticas preventivas são:

  • Evitar o contato direto da pele no período de doença ativa, seja oral ou genital;
  • Uso de preservativos para o Herpes Simples tipo 2;
  • Evitar o compartilhamento de objetos de contato direto com as lesões, como roupas, toalhas, maquiagem labial, etc.;
  • Fazer uso de antivirais preventivos, que são muito efetivos na diminuição da recorrência da virose.

Orientação médica
Marzola orienta a procurar ajuda quando há o aparecimento de lesões vesiculosas (herpetiformes, lesões cutâneas elevadas e cheias de líquido, bolhas) na boca ou nos genitais, com sensação de ardência. “A recorrência das crises e os quadros mais agressivos devem ser melhor avaliados pelo médico”, frisa.

Como reduzir crises
Para evitar manifestações frequentes de herpes, o dermatologista destaca a importância de manter o equilíbrio do sistema imunológico, controlar o estresse, garantir um sono de qualidade e adotar uma alimentação saudável. A suplementação de lisina, aminoácido com efeito anti-herpético, também pode auxiliar na prevenção. “É fundamental ter cuidado com a exposição ao sol, que pode atuar como gatilho para a reativação do vírus, além de manter uma boa higiene e limpeza da pele”, ressalta.

Complicações do herpes simples
Segundo o dermatologista, o Herpes Simples pode, em casos mais graves, assumir uma forma generalizada, atingindo inclusive órgãos internos como o cérebro, o coração e os pulmões.
“Essas manifestações costumam ocorrer em pacientes imunossuprimidos, como portadores de HIV sem tratamento adequado, pessoas em uso de quimioterápicos ou com doenças que comprometem o sistema imunológico”, finaliza. Ele acrescenta que a Erupção Variceliforme de Kaposi, também conhecida como Eczema Herpético, é uma dessas formas generalizadas, surgindo em indivíduos com lesões extensas na pele, como nos casos de dermatite atópica e outras patologias.