O que há de mais triste quando se perde alguém é que, de repente, o cotidiano que antes era cheio de presença se rompe — e só quem já viveu essa dor sabe do que estou falando. É o cheiro da pessoa que vai se esvaindo aos poucos, é o sorriso que falta no dia a dia, é o aroma do café ou do churrasco que já não se espalha mais pelo ar. Até das discussões sentimos falta. É ver alguém parecido na rua e, por um instante, acreditar que é quem já se foi. É uma junção de saudade com planos interrompidos — tudo o que poderia ter sido e não foi.
Ainda guardo as roupas da minha tia amada. Lembro-me, como se fosse hoje, da casa impecável onde ela morava, das unhas cor de bordô, do bolo de cenoura quente, dos passeios e dos abraços que me envolviam. Já se passaram vinte e seis anos desde a sua partida e ainda sinto tudo isso. Dos meus avós maternos, recordo a comida, o cuidado, o carinho de me protegerem, de assistirmos Chaves juntos. Eles me viam todos os dias, já que morávamos a menos de um metro de distância.
Dos meus avós paternos — quase imortais, falecidos com mais de 90 anos — trago comigo as histórias de superação, as risadas da colônia e o amor simples de um para com o outro que sempre admirei. Penso, às vezes, o que diriam se vissem toda essa tecnologia de hoje. Se minha avó visse que eu posso dirigir, viajar o mundo, trabalhar fora, estudar, escolher com quem casar. Tudo mudou. Eu sou o futuro que ela sonhou — tenho certeza disso.
Meu tio, sempre doce e risonho, encontrava na roça o melhor lugar do mundo, sem precisar sair dali para ser feliz. Até hoje olho o tronco que ele cortou para mim como enfeite e o enxergo em cada detalhe. Meu pai amado, que me deixou órfã cedo demais, vive em cada gesto meu. Reproduzo suas falas, inclusive as em italiano, jogo bola como ele jogava, ajo e penso como ele — mesmo nas atitudes que antes eu tanto criticava. Penso no que faria se pudesse ver meu filho crescer, se pudesse me ver prosperar e colocar em prática tudo o que me ensinou. E meu dindo, recentemente falecido… por todo o carinho desde que eu era pequena, por cada viagem, passeio e churrasco. Meu melhor amigo, vizinho da frente, presente em todos os meus dias.
Que falta todos eles me fazem. Que dor imensa é traçar o futuro sem essas presenças. Fica um vazio, uma saudade que se instala.
Ainda mais agora, na semana de Finados, quando a memória parece falar mais alto que o silêncio.
Mas o tempo, generoso e paciente, transforma a ausência em presença leve. Aprende-se a enxergar os que amamos nas pequenas coisas: na flor que nasce sozinha, na música que toca por acaso, no pôr do sol que parece ter vindo com uma mensagem.
Hoje entendo que a partida não é o fim — é uma mudança de endereço da alma.
Quem amamos não vai embora: apenas se espalha em tudo o que tocou, em tudo o que deixou dentro de nós.
E é isso que nos faz seguir.
Porque a vida é feita de chegadas e despedidas, mas o amor — esse, sim — permanece. Sempre.