O desafio de encontrar profissionais qualificados segue sendo uma das principais barreiras enfrentadas pelo setor produtivo de Bento Gonçalves e região
Para enfrentar esse cenário, a cidade oferece de cursos profissionalizantes para atuarem nas mais diversas áreas. O projeto Qualifica Bento, conduzido pelo Centro da Indústria, Comércio e Serviços (CIC-BG), Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e Prefeitura Municipal, visa justamente preencher este elo entre empresas, trabalhadores e instituições de ensino, promovendo cursos voltados às necessidades locais.
Segundo a diretora de Qualificação do CIC-BG, Hildegard Tres, a iniciativa nasceu da própria demanda empresarial e continua sendo guiada pelas exigências do mercado. “O nascimento do Qualifica remonta a uma pesquisa com centenas de empresas, as quais relataram problemas na contratação de mão de obra qualificada. Desde então, mantemos contato constante com o setor produtivo para identificar áreas prioritárias e oferecer os cursos necessários”, explica.
Criado inicialmente para atender o setor moveleiro e a indústria em geral, o programa ampliou sua atuação ao longo dos anos. Hoje, contempla também cursos voltados à formação de lideranças, educação executiva, oratória, entre outros. “É um trabalho em rede, sempre de modo colaborativo e coletivo, entre o CIC e seus diversos parceiros. Algumas das necessidades chegam pelos nossos associados, outras pelas empresas e, ainda, por entidades como Senai e Senac”, ressalta Hildegard.
A líder comercial do Senac BG, Brendali Gernhardt, destaca que a escolha das áreas de formação passa por um diálogo constante com diferentes setores. “Estamos ofertando cursos em áreas estratégicas para o desenvolvimento local, como gastronomia, comércio, administração e tecnologia. A definição se dá em conjunto com a Prefeitura, CIC e outras entidades, levando em consideração as demandas do município e cidades arredores”, afirma.
Iniciativa

A dificuldade em contratar profissionais qualificados, presente em diferentes segmentos e níveis hierárquicos, é apontada como um dos principais motores do projeto. “Esse foi o motivo central da criação do Qualifica Bento. Atuamos em duas frentes: qualificando pessoas desempregadas ou em busca da primeira experiência profissional, e também quem já está empregado, mas deseja crescer na carreira ou assumir novas funções dentro da própria empresa”, detalha Hildegard.
Os cursos não se limitam à formação técnica. De acordo com Hildegard, há um esforço para trabalhar também aspectos comportamentais e de postura no ambiente de trabalho. “Orientamos sobre pontualidade, organização da estação de trabalho, postura profissional e o interesse em buscar constante atualização. Esses pontos são ganhos intrínsecos dos cursos e hoje fazem toda a diferença para o mercado”, afirma.
A metodologia aplicada pelo Senac, segundo Brendali, busca garantir que o aprendizado seja efetivamente aplicado na prática profissional. “Priorizamos a aplicação de conteúdos no cotidiano dos alunos, simulando as situações vivenciais de cada profissão. Esse é um dos diferenciais que fazem a diferença na inserção do aluno no mercado de trabalho”, explica.
Outro ponto relevante está no uso de novas tecnologias e metodologias inovadoras. “Nossos cursos contam com recursos tecnológicos que valorizam a aprendizagem por meio da prática. Além disso, temos uma aproximação constante com empresas locais, garantindo que o aprendizado esteja alinhado às exigências do mercado. Outro fator importante é que todos os docentes são atuantes nas áreas em que ministram”, salienta a representante do Senac.
Mercado de trabalho
Embora ainda não exista um convênio formal com empresas para absorver imediatamente os alunos formados, a diretora reconhece que há uma aproximação prática e direta. “O CIC mantém um trabalho informal de encaminhamento, aproximando participantes dos cursos a vagas pontuais. Esse contato, mesmo que não estruturado como um programa de estágio, já tem gerado resultados positivos”, observa.
O grande propósito, segundo Hildegard, é reduzir o déficit de mão de obra que ameaça a competitividade regional. Para isso, é essencial o alinhamento entre diferentes frentes. “De um lado, temos as empresas precisando dessa mão de obra. De outro, as pessoas em busca de oportunidades. No meio disso, as entidades de ensino. Nosso papel é viabilizar esse encontro para que não haja evasão, nem das empresas, nem das unidades de treinamento da cidade”, reforça.
Os resultados já se refletem no índice de empregabilidade dos alunos formados. “Historicamente, os cursos do Senac apresentam alta taxa de inserção no mercado de trabalho. Muitos alunos já saem capacitados para atuar imediatamente, seja como empregados, seja buscando crescimento profissional ou ainda empreendendo por conta própria”, observa Brendali.
A instituição também projeta novos rumos para os próximos ciclos do Qualifica Bento. “Estamos estudando a oferta de cursos voltados às áreas do turismo e hospitalidade, além de reforçar as já consolidadas, como gastronomia e comércio. E, acompanhando as transformações do mundo do trabalho, já projetamos incluir recursos de inteligência artificial e ferramentas digitais como forma de inovação em nossa metodologia”, revela.
A continuidade e evolução do projeto, destaca Hildegard, dependem do engajamento coletivo. “Sem dúvida, um projeto desta envergadura precisa de várias mãos para se manter. Não basta apenas a entidade viabilizar o processo. É fundamental que as empresas apoiem seus funcionários e, sobretudo, que as pessoas tenham interesse em aprender e se qualificar”, afirma. Ela admite que, em algumas ocasiões, há dificuldade em fechar turmas, mesmo em cursos gratuitos, o que reforça a necessidade de maior conscientização sobre a importância da atualização constante.
A avaliação de impacto, segundo Brendali, é constante. “O Senac realiza uma avaliação contínua, por meio de atividades práticas, projetos e acompanhamento de desempenho. O impacto que buscamos é entregar para o mercado alunos mais treinados e qualificados, capazes de exercer suas atividades com excelência. Isso contribui diretamente para o desenvolvimento econômico e social de Bento Gonçalves”, conclui.