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Em uma sociedade que exalta a produtividade e o sucesso profissional, trabalhar muito ainda é frequentemente visto como sinônimo de virtude. No entanto, o excesso pode se transformar em dependência, trazendo sérias consequências para a saúde mental e física. A professora Dra. Silvana Regina Ampessan Marcon, docente do Curso de Psicologia e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (Mestrado Profissional) da Universidade de Caxias do Sul, explica os riscos e as causas do workaholismo, um fenômeno cada vez mais presente no mundo contemporâneo.

Segundo Silvana, “o termo workaholic caracteriza uma pessoa que tem uma necessidade incontrolável de trabalhar, tem dificuldade de se desligar das atividades laborais e excesso de horas dedicadas à profissão, resultando em comportamento compulsivo semelhante ao vício”, diz. Ela destaca que é importante diferenciar o vício no trabalho do compromisso profissional. “Compromisso profissional refere-se ao envolvimento positivo e saudável do trabalhador com suas atividades, marcado por responsabilidade, dedicação e engajamento, sem que isso represente compulsão ou desequilíbrio com outras dimensões da vida”, afirma.

A professora observa que a dependência do trabalho, muitas vezes vista como qualidade, pode ser, na verdade, um problema grave. “A dependência do trabalho, muitas vezes percebida como uma virtude em sociedades que exaltam o sucesso profissional, paradoxalmente pode desencadear uma série de problemas de saúde mental e física”, revela.

As causas do vício em trabalhar

De acordo com a professora Silvana, o comportamento workaholic pode surgir de uma combinação de fatores individuais, organizacionais, culturais e tecnológicos. “As longas jornadas diárias, a busca por resultados incontroláveis e a falta de controle pessoal contribuem para que os trabalhadores se tornem workaholics”, ressalta.

Culturas de trabalho que valorizam longas jornadas tendem a alimentar o comportamento

No nível individual, ela cita o perfeccionismo, a necessidade de aprovação, a baixa autoestima e o medo do fracasso como características que favorecem esse padrão. Já nas organizações, culturas de trabalho que valorizam longas jornadas, excesso de metas e competitividade interna tendem a alimentar o comportamento.

A sociedade, por sua vez, também tem papel importante. “A idealização do profissional de sucesso, a valorização do status social ligado à produtividade e a influência de contextos econômicos que associam trabalho a segurança e reconhecimento contribuem para o problema”, evidencia. Além disso, o avanço tecnológico agrava o quadro: “A hiperconectividade, o uso constante de dispositivos móveis e a expectativa de disponibilidade contínua ampliam a dificuldade de se desligar do trabalho”, pondera.

Consequências mentais e físicas

Os impactos do workaholismo vão muito além do cansaço. “Como são pessoas dependentes do trabalho, podem ter como consequência ansiedade muito intensa e o trabalho passa a ser uma válvula de escape”, destaca. Silvana alerta ainda para outras implicações. “Pode trazer consequências físicas e distúrbios do sono. A pessoa vive sobrecarregada e sabemos o quanto isso pode resultar em doenças cardíacas”, comenta.

Os transtornos de ansiedade e depressão são frequentemente associados ao comportamento compulsivo de trabalhar. “Os transtornos como ansiedade e depressão podem ser consequência do workaholismo, mas é necessário avaliar cada caso. Trabalhar excessivamente nem sempre significa sofrimento, depende de cada pessoa”, afirma.

No entanto, a professora chama atenção para um risco adicional: o uso de substâncias químicas. “Recorrer a isso diante da dependência do trabalho é uma estratégia utilizada para enfrentar o problema. Muitas pessoas buscam amenizar o sofrimento na bebida ou em drogas ilícitas”, pontua.

O limite entre dedicação e adoecimento

No Brasil, onde o excesso de trabalho é frequentemente visto como sinônimo de mérito, a fronteira entre o reconhecimento e o adoecimento é tênue. “Passa a ser nocivo quando interfere nas outras esferas da vida, familiar, social e na saúde física”, afirma. Segundo ela, o desafio é perceber quando a dedicação se torna excessiva: “Os workaholics são frequentemente admirados, tornando difícil reconhecer, sem acompanhamento próximo, se isso está lhe prejudicando ou não”, aponta.

Professora Dra. Silvana Regina Ampessan Marcon

O papel das empresas

Silvana observa que as companhias estão mais exigentes em termos de produtividade, e isso influencia no ambiente organizacional. Para combater o problema, é preciso um olhar atento aos processos e aos próprios trabalhadores. “É necessário verificar se o que as pessoas precisam executar está dentro do que é possível um ser humano realizar no tempo de trabalho. Este aspecto depende do olhar da organização para os devidos planejamentos”, evidencia.

Sinais de atenção

Alguns comportamentos devem acender o alerta: “Permanecer além da jornada regular com frequência, levar trabalho para casa, ter dificuldade de se desconectar, responder e-mails e mensagens a qualquer hora, priorizar o trabalho acima da saúde e da família, irritar-se facilmente ou ter dificuldade de confiar nos outros. Se esses sinais são constantes, significa que a dedicação ao trabalho não está sendo saudável e está extrapolando os limites”, pontua.

Caminhos para o equilíbrio

A especialista reforça que buscar informações e agir preventivamente é essencial. “Estimular a reflexão sobre hábitos de trabalho, identificar sinais de excesso, estabelecer horários claros, respeitar momentos de lazer e descanso, aprender a dizer não e incluir atividades prazerosas e convivência social na rotina são medidas fundamentais”, reitera.

Ela também destaca o papel das empresas. “Políticas de bem-estar, ambientes que valorizem resultados sustentáveis e lideranças que respeitem limites ajudam a prevenir o adoecimento”, comenta.

Nos últimos anos, a psicologia tem observado o fenômeno do workaholismo com atenção especial. “Intervenções psicológicas adequadas, como psicoterapia ou programas de manejo de estresse, podem auxiliar na reestruturação de padrões de pensamento e comportamento”, diz. Técnicas como Mindfulness, meditação e práticas de relaxamento também são eficazes para reduzir a ansiedade e favorecer a desconexão.

Para Silvana, a pandemia e o avanço do trabalho remoto agravaram o problema. “Com o home office, os limites físicos entre ambiente de trabalho e vida privada se tornaram difusos, favorecendo jornadas mais longas”, comenta. O uso intenso da tecnologia e a expectativa de disponibilidade constante reforçam a dificuldade de se desligar do trabalho.

Ela conclui com um alerta. “Houve a sensação de que era preciso ‘provar desempenho’ à distância, o que levou a maior autocobrança e dedicação excessiva. Como consequência, observamos mais estresse, ansiedade e desequilíbrio entre vida e trabalho”, finaliza a docente.