Quando crianças, uma vez por ano, viajávamos para a praia ou para a colônia. Íamos todos no mesmo carro velho — uns sete dentro — crianças no colo, sacolas no assoalho, travesseiros entre os vidros. Levávamos as comidas prontas para cozinhar lá, como se o cheiro de casa precisasse acompanhar o mar. Não havia luxo, mas havia tudo: um retrato por viagem, talvez dois, e o resto da memória guardado em risos, bronzeados malpassados e a areia que nunca saía da toalha.
Foi assim, num desses passeios, que conheci Gramado, no auge dos meus dois anos, em 1991. Tenho um registro fotográfico: estamos na cascata do Caracol, em Canela, no colo, olhando para um mundo que só as crianças conseguem ver por inteiro.
Mais de trinta anos depois, voltei. Mas, dessa vez, com minha mãe ao lado, no banco do carona. Era eu que guiava — o carro, o roteiro, o tempo. Conduzia, talvez pela primeira vez, as rédeas da vida que antes ela segurava por mim. Quis devolver, ainda que simbolicamente, aquele passeio. Retribuir, com o coração cheio, um pouco do que recebi.
Vi nos olhos dela algo raro: uma luz de infância reencontrada. Quando conheceu os lugares encantadores que na época não existiam, quando entrou na igreja de pedra, quando jantou num restaurante temático e me perguntou, com ingenuidade sincera, se o dinossauro era de verdade… Quando se sentiu chique ao estar, pela primeira vez, numa piscina de hotel… era como se a menina que existe nela tivesse voltado à superfície.
O tempo, que sempre corre pra frente, naquela viagem se curvou gentilmente — e por instantes fomos dois filhos: eu do passado, ela da memória.
É curioso como as coisas simples persistem. Passamos a vida buscando grandes feitos, grandes destinos, mas, no fim, são esses retalhos que aquecem. Um passeio modesto, um riso dividido, uma lembrança contada em volta da mesa. Descobri, nessa devolução de afeto, que somos feitos das histórias que ousamos viver — mesmo as pequenas, mesmo as que parecem sem importância.
E não é só a estrada que nos leva de volta. É o gesto. O querer bem. O lembrar que todo amor verdadeiro precisa, em algum momento, ser retribuído.
Minha mãe voltou de Gramado com lembranças novas, mas, mais do que isso, voltou com a alma acesa. E eu voltei com a certeza de que, às vezes, os melhores presentes que podemos dar são aqueles que foram plantados em nós há décadas — e só agora florescem.
As memórias que ficam nem sempre têm moldura, nem sempre estão nas fotos. Mas vivem ali — no que sentimos, no que retribuímos, no que nunca se perde.