Uma imagem de terracota, escura e incompleta, resgatada das águas do Rio Paraíba do Sul em 1717, é o coração de uma das maiores devoções marianas do mundo. A história de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, é inseparável do milagre da pesca que se seguiu à sua descoberta por três pescadores. A celebração de 12 de outubro não é apenas um feriado, mas um marco que recorda a origem simples de uma fé que moldou a cultura e o catolicismo brasileiros.
Como nasceu a história
Em 1717, três pescadores: João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia encontraram a pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição (primeiro o corpo e depois a cabeça) nas águas do Rio Paraíba do Sul. Logo após o achado, tiveram uma pesca abundante, após horas de frustração.
A partir daquele momento, as redes passaram a se encher de peixes. A notícia se espalhou rapidamente pela região, e a imagem encontrada por acaso tornou-se objeto de intensa devoção. A peça milagrosa foi levada para a casa de um dos pescadores, onde as pessoas começaram a se reunir para rezar e pedir graças. Assim nasceu a devoção à Nossa Senhora Aparecida, que se espalhou por todo o Brasil, atraindo fiéis de diversas regiões.
Como Nossa Senhora Aparecida se tornou padroeira do Brasil
A devoção popular que começou nas águas do Paraíba do Sul alcançou seu ápice no início do século XX, quando Nossa Senhora Aparecida foi formalmente aclamada Rainha do Brasil. Esse reconhecimento foi um marco na história religiosa nacional, sustentado pela fé dos fiéis e pela aprovação da Igreja.
Devoção dos fiéis
Para Maria Foscarini Pereira, a fé em Nossa Senhora Aparecida passou de geração em geração, o que carrega consigo há 84 anos. “A minha devoção começou quando eu já nasci”, recorda.
A força da devoção atravessou gerações, um legado familiar que remonta a tempos de conflito. Maria conta que foi sua bisavó quem trouxe a imagem da santa da Itália, iniciando uma tradição inquebrantável que perdurou por filhos, netos e bisnetos. “Essa santa veio do tempo da Guerra do Paraguai,” relembra. A imagem não era apenas um objeto de oração, mas um refúgio em momentos de perigo iminente. Ela descreve as cenas de urgência: “Quando viam os piquetes se aproximando, elas pegavam a santa e saíam para o campo”.

A fé se tornava o escudo da família. “Com a santa que começava a rezar”. “Os soldados chegavam, faziam a volta e tinham ido embora”, lembra.
Essa devoção, no entanto, era testada pela natureza. A santa era a esperança em momentos de escassez hídrica. A imagem era levada de casa em casa, onde se rezava o terço. O resultado, segundo ela, era quase imediato: “Com uns oito dias já vinha chuva”, recorda.
A devoção a Nossa Senhora Aparecida não conhecia horário, sendo parte inseparável da jornada de trabalho e da vida no campo. De sol a sol, a família mantinha o ritual da oração. “Nós íamos pra lavoura rezando de tarde, porque de noite dormia, como dizia a avó, ‘tirava o chapéu que estava embaixo do braço e rezando pra Nossa Senhora Aparecida’”, lembra.
A fé de Maria em Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma tradição herdada, mas uma fonte viva de conforto nos momentos mais críticos. Ela recorda o dia em que sentiu a intercessão da Padroeira em uma situação de vida ou morte: o tratamento de rim de seu filho. Naquele dia de angústia, enquanto o filho se preparava para a cirurgia de doação de órgãos com o irmão, Maria recorreu ao que tinha de mais forte. “Eu fui no quarto e rezei para Ela”, conta. O pedido desesperado foi atendido, transformando o temor em celebração. “Deu tudo certo,” comemora, creditando à Padroeira do Brasil a graça alcançada e a superação do momento mais difícil de sua família.
A prática da fé é um legado ininterrupto para Maria, centrado na recitação do Terço. “De noite, sábado, eu rezo a Ordem do Terço,” afirma, sublinhando a constância do ritual. É um hábito que remonta à sua infância: “Toda a vida, nos criamos assim. De pequeno, rezando o Terço com o Pai”.
Essa tradição de devoção familiar não parou nela. “E criei meus filhos, ensinando, rezando o Terço”, enfatiza.
A devoção a Santa pode surgir em momentos inesperados, como foi o caso de Fabiane Nunes Boccalon. Assim como Maria, ela também cultiva uma fé profunda na Padroeira do Brasil. “Em 2016 eu estava indo a praia pela Rota do Sol,e as imagens de Nossa Senhora Aparecida nas tendas começaram a me impactar”, conta.
A devoção a Nossa Senhora Aparecida, para Fabiane, carrega um elo ainda mais profundo com a própria história. Ela revela uma curiosidade que a conecta à Padroeira desde a primeira infância: “Sou devota há dez anos. Curiosidade que soube da minha mãe, o meu aniversário de um ano, foi no Salão da Comunidade de Nossa Senhora Aparecida”.
O impacto da Padroeira se manifesta de forma poderosa para aqueles que visitam o seu lar, o Santuário Nacional. Fabiane relata que a primeira visita ao local, em 2017, ao lado de seus pais, foi um divisor de águas. “Senti uma força e uma paz profunda ao passar na imagem de Nossa Senhora Aparecida encontrada no Rio Paraíba do Sul em 1717. Precisava tomar uma decisão muito importante em minha vida e, naquele momento, eu senti uma clareza e a confiança para decidir”, recorda.
Ao refletir sobre o que a Padroeira do Brasil representa, ela une sua fé à história da imagem. Para ela, o significado é duplo. No plano pessoal, a santa é sinônimo de “força, coragem e reconstrução”, um paralelo direto com a história da própria imagem que foi quebrada e restaurada. Já no plano espiritual, Aparecida é a certeza de que a fé prevalece sobre a adversidade: “É a presença da vida quando tudo parece morto”.

Para Fabiane, a devoção à Padroeira não se restringe aos grandes santuários, ela é uma companhia diária e íntima, presente em todos os aspectos da vida. “A presença dela está em minha casa, carro, carteira,e faço minhas atividades conversando com ela. Coisas simples como cozinhar, conversar, rezar o terço”, sente. Para ela, é uma fé que se pratica com emoção e devoção. “É uma relação que se constrói pela fé e orações,” explica.
Já Augusta Salete Boeno conta que sua história com a Nossa Senhora Aparecida nasceu de um momento difícil. “Eu me considero devota desde o momento que eu me senti assustada, quando meu filho com três anos machucou um olho com uma estaca de madeira brincando. Eu na hora pedi a Nossa Senhora Aparecida que ele não perdesse a visão. Naquela hora de desespero eu prometi que um dia levaria ele ao Santuário de Aparecida. E a vista ficou normal”, conta.
Para ela, a Santa representa Maria, mãe de Jesus e nossa mãe. “A fé em nossa senhora é que nos mantém fortes para seguir o caminho de Deus”, declara. A fé de Augusta não se limita a grandes peregrinações, mas é vivida ativamente em sua comunidade. “Sempre que possível participo das celebrações e aqui no bairro onde moro, a padroeira é Nossa Senhora Aparecida”, explica.
Apesar da graça alcançada, a promessa feita no momento de desespero é um compromisso que Augusta deseja honrar. Ela confessa que a peregrinação, o ato de levar o filho ao Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, ainda está pendente. “Eu ainda tenho a promessa de levar meu filho até o Santuário, as condições financeiras me impediram até aqui, mas pretendo um dia cumprir”, diz. Sua devoção se manifesta em um espaço sagrado. “Tenho um cantinho dedicado a Nossa Senhora Aparecida e outras Santas, todas ganhei de presente”, finaliza.
Tanto Maria quanto Fabiane já visitaram o Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo. Ambas descrevem a experiência como transformadora. “A fé de cada um é o que faz a experiência. O que mais me tocou foi ver tantas pessoas emocionadas e a Sala dos Milagres, com fotos e histórias impressionantes”, relata.
Maria também fala com emoção sobre o momento. “Era um sonho. Me senti muito bem”, conta. O carinho pela Santa se renova com pequenos gestos: “Meu filho e minha nora trouxeram uma santinha pra mim. Fiquei muito feliz com o presente.”
Fé que move caravanas
De acordo com a guia de turismo Rosana Beatriz de Oliveira, que acompanha grupos de visitantes ao longo do ano para o Santuário Nacional de Aparecida, há grande participação de fiéis da Serra Gaúcha. “Vêm muitas pessoas de Bento Gonçalves, Farroupilha, Garibaldi e Carlos Barbosa. A maioria vai para cumprir promessas”, relata.
Sobre o perfil dos viajantes, Rosana destaca a diversidade. “Vão pessoas de todas as idades, jovens, famílias inteiras, crianças. É um grupo bem mesclado”, afirma.
Embora o dia da Santa seja 12 de outubro, os grupos da região costumam viajar em outras épocas do ano. “Por incrível que pareça, é difícil formar grupos em outubro. O movimento é intenso, e a hotelaria fica lotada. Os meses mais procurados são maio e setembro”, explica.
Rosana observa que o perfil dos visitantes tem mudado, refletindo transformações na vivência da fé. “Antes, os grupos eram formados principalmente por peregrinos que iam pagar promessas feitas há anos. Hoje, vemos muitas pessoas indo pela primeira vez, movidas pela devoção e curiosidade de conhecer o Santuário”, comenta.

A guia afirma que a experiência é única para cada fiel. “Depende muito da emoção de cada um, do que veio buscar ou agradecer. Há quem vá várias vezes e se emocione em todas. O Santuário é um lugar que só se entende estando lá”, afirma.
Nos últimos anos, Rosana tem notado um crescimento expressivo da religiosidade no país, refletido no aumento das peregrinações. “A cada ano vemos mais visitantes, especialmente jovens. Há também romarias de cavaleiros, ciclistas e motociclistas que percorrem longos trajetos até o Santuário”, relata.
Essas peregrinações estão cercadas de histórias de fé. “As pessoas contam sobre bênçãos alcançadas, gravidezes bem-sucedidas e reconciliações familiares. O que mais chama atenção é ver as famílias buscando união e se fortalecendo na fé”, destaca.
Os relatos de milagres são frequentes e comoventes. “Ouvimos histórias de curas, conquistas e superações. Mas os mais emocionantes são os que envolvem laços familiares, reencontros entre pais e filhos”, diz.
Rosana recorda uma cena marcante: “Vi uma família inteira atravessando a Passarela da Fé, que liga o Santuário à Basílica Antiga, de joelhos. Tentavam seguir de mãos dadas, se desequilibravam e riam juntos. Foi uma cena linda de fé e união”, afirma.
Para ela, guiar grupos religiosos é mais que uma profissão, é um privilégio. “Não considero um desafio, e sim uma recompensa. As pessoas estão abertas à espiritualidade, ao amor e ao respeito. É algo visível e inspirador”, conclui.