Neste país em que comemoramos, quase colados no calendário, o Dia do Professor e o Dia da Criança, há uma pergunta que insiste: quem cuida de quem cuida? Falamos muito de escuta (e que bom), mas às vezes confundimos acolher com permitir tudo. A escola vira palco de uma inversão silenciosa: a regra pede licença, o limite teme desagradar, o “não” vira vilão. E assim, sem perceber, vamos esvaziando a profissão de quem escolheu educar. Do que adianta a festa no dia 15 se, no dia 16, o professor volta à sala para justificar cada regra como se educar fosse ofensa?
“Ninguém é substituível.” O que é substituível é o que fazemos; o que somos, não. A tragédia, já disseram, não é quando um homem morre, mas o que morre dentro de nós enquanto vivos. Quando desistimos de colocar o essencial no lugar do certo, algo se apaga: o brilho de aprender, a reverência ao conhecimento, a gratidão pelo esforço. “Não sei” é sinal de inteligência — abre caminho para o estudo. Errar não é fracassar; fracasso é desistir. Thomas Edison precisou de 1430 tentativas para que a lâmpada acendesse. O erro é para ser corrigido, não punido; o que se pune é desatenção, descuido, negligência. Isso também é educação.
A neurociência nos lembra que a infância não determina toda a vida adulta, mas molda profundamente quem nos tornamos. É nela que se forma a base das conexões neurais que sustentam nossa forma de ver o mundo, interpretar emoções e reagir a frustrações. Criança não nasce pronta: ela é a soma das interações que tem com os adultos ao seu redor (pais, professores, cuidadores). Cada gesto, cada resposta, cada limite ou ausência dele, esculpe o cérebro em formação. Limites consistentes, longe de serem punições, dizem à criança: “você é amada”. Eles oferecem segurança emocional e previsibilidade, fundamentais para o desenvolvimento saudável. Regras claras não reprimem a criatividade — elas a direcionam. Crianças que crescem sem limites não se sentem livres, sentem-se perdidas. E adultos que não podem exercer sua autoridade com respeito perdem a referência do ensinar.
Humildade nos devolve humanidade. Está em Gênesis: do pó viemos e ao pó voltaremos. Em importância, estamos todos no mesmo nível: o adulto que ensina e a criança que aprende, ambos aprendizes do tempo. Perdemos a alma da infância quando trocamos presença por presentes; perdemos a alma da docência quando cobramos espetáculo e negamos autoridade. Onde está a gratidão? “Um pai trata dez filhos; dez filhos não cuidam de um pai”, diz o Couro de Boi. Que nossos filhos aprendam outro provérbio, o da reciprocidade: quem cuida merece cuidado, quem ensina merece respeito. Escuta é ponte, não é abandono do leme. Regras são trilhos; sem eles, o trem da curiosidade descarrila.
No Dia das Crianças, celebremos o direito de brincar com limites que protegem. No Dia do Professor, celebremos o direito de ensinar com autoridade que orienta. Se seguirmos trocando o essencial pelo imediato, um dia teremos crianças cansadas de ser adultas cedo demais e salas vazias, porque ninguém aguenta pedir desculpa por educar.
Que a lâmpada de Edison siga acesa em nós: coragem para tentar, humildade para corrigir, firmeza para orientar. Assim, a infância não perde a alma e a escola não perde seus mestres. Porque ninguém é substituível — nem a criança em formação, nem o professor em missão.