Na véspera do aniversário da cidade, o Semanário faz sua homenagem pelos 66 anos do município
A preservação da memória histórica de Carlos Barbosa, seja material ou imaterial, vem ganhando novos capítulos nos últimos anos.
Segundo Eliseu Demari, diretor-presidente da Fundação de Cultura e Arte de Carlos Barbosa (Proarte), a cidade já percorreu diferentes caminhos na proteção de sua história. “O Município já atuou de diferentes formas sobre a preservação de itens históricos, seja tombando bens, participando de trabalhos de recuperação e conscientização. Atualmente há cinco patrimônios tombados em âmbito municipal e todos passam ou já passaram por atividades de manutenção”, frisa.
Entre os bens preservados, estão o prédio da antiga Estação Férrea, em processo de transformação em centro cultural via Lei Rouanet e com monitoramento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e o complexo da Cooperativa União Colonial, em Santa Clara, que recebe obras privadas para abrigar espaços de memória da indústria laticinista. Outros marcos incluem o Moinho de São José, hoje em mau estado, e as capelas de Santo Antão Abade e Santo Antônio de Castro, que passaram por revitalizações em 2004 e 2024, respectivamente.

O município também possui um patrimônio imaterial tombado: o modo de fazer o queijo colonial. “Recentemente foi selecionado por uma reunião de entidades para pleitear o registro de Indicação Geográfica”, indica o diretor.
Demari ressalta a importância de envolver as novas gerações nesse processo. “Além de realizar ações eventuais por ocasião do Dia do Patrimônio, a administração municipal considerou a necessidade de aproximar o assunto do público estudantil, de modo que o livro ‘Conhecendo Carlos Barbosa-RS’ deve ser lançado nos próximos dias com informações históricas e atualidades sobre o Município, a ser distribuído na rede escolar”, destaca.
Museus e outros espaços
A antiga Estação Férrea, de 1909, é o principal bem histórico municipal, que passou por trabalho de recuperação finalizado em 2023. “No momento, há captação de recursos em curso para a aparelhagem interna, considerando equipamentos de iluminação, climatização, mobiliário, e instalação do ‘Memorial do Trem’ como forma de destacar a relação histórica de Carlos Barbosa com a ferrovia. A instalação de um museu está em estudo, com objetivo de implementação no corrente período administrativo, bem como a estruturação de um arquivo histórico, uma carência da cidade. Demais itens, como monumentos, são mantidos conforme a demanda”, pondera.
Além dela, o município conta com o Centro Cultural Mãe de Deus, fruto da adaptação do Salão Paroquial, a cargo, portanto, da Paróquia Mãe de Deus.
Desafios e políticas públicas
O orçamento público para conservação segue limitado. “No momento não há investimento vultuoso com recursos próprios, mas busca de parcerias via leis de incentivo”, explica Demari. Um dos projetos em andamento é a digitalização de fotografias e documentos históricos, bem como auxílio pela preservação adequada dos itens físicos.
Além disso, há o projeto arquitetônico aprovado para a revitalização do prédio da primeira Prefeitura do município, que também foi a Câmara de Vereadores e Fórum, para que também seja utilizado como centro cultural.
No campo do patrimônio imaterial, a cidade pretende ampliar os registros. “A Proarte conta com três processos em instrução para eventualmente gerar novos patrimônios imateriais: o dialeto bergamasco, falado concentradamente no distrito do Cinco da Boa Vista; os saberes dos vimeiros, importante nicho econômico barbosense no século XX; e o anúncio fúnebre de paroquianos veiculado no serviço de alto-falantes da Igreja Matriz Nossa Senhora Mãe de Deus. Trata-se de aspectos importantes para a identidade cultural local, que devem ser inventariados e divulgados para reconhecimento e valorização das novas gerações”, frisa.
Memória e modernidade
Carlos Barbosa foi distrito de Garibaldi até emancipar-se em 1959, portanto contava com poucos aparatos públicos como prédios administrativos, de forças de ordem ou justiça, por exemplo, de modo que um pequeno prédio que serviu de subprefeitura e depois prefeitura é uma das raras edificações públicas históricas, contando com quase 80 anos de existência. “Por outro lado, a localidade experimentou um movimento intenso de desenvolvimento que se deu a partir da instalação da ferrovia, quando uma série de empreendimentos instalaram-se no entorno da Estação para aproveitar a estrada de ferro para escoar a produção. Estes empreendimentos foram instalados ‘às pressas’ em grandes casarões de madeira, que passaram a ser substituídos ao longo das décadas seguintes, de modo que poucas são as edificações centrais que atingiram o centenário. Há alguns prédios das primeiras décadas do século XX sob propriedade privada, vários que felizmente passaram por obras recentes de conservação. Um dos principais desafios em favor da preservação permanente de bens históricos é a sensibilização de empresas sobre a importância de que valores do Imposto de Renda ou do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) sejam revertidos em patrocínio de ações culturais na própria cidade”, ressalta o secretário.
Conciliar urbanização e preservação é um desafio constante, segundo ele. “O ímpeto por uma suposta modernidade prejudicou Carlos Barbosa em diversas ocasiões, fazendo extinguir diversos bens históricos. É um desafio diário que a população se conscientize em favor da preservação do que é histórico, identitário e afetivo dos barbosenses. Percebemos que recentes projetos de revitalização arquitetônica têm despertado a noção de que o histórico pode conviver com o contemporâneo, de forma harmoniosa e até rentável, então é um trabalho de letramento que se faz muito por meio de exemplos e da insistência, em chamar a atenção, destacar, valorizar, contar a história quantas vezes for preciso até que o público se engaje”, salienta.
Leis de incentivo e futuro
Para Demari, as leis de incentivo são fundamentais. “O que mantém a cultura oriunda dos fazedores culturais em funcionamento são as leis de incentivo federais e estaduais. As transferências fundo a fundo fazem a diferença para os agentes culturais dos municípios poderem executar projetos individuais, já que o orçamento municipal do setor fica bastante restrito em compromissos como eventos tradicionais e subsídios a entidades. Temos um edital anual para fomento de projetos culturais, mas o valor que conseguimos direcionar é a quinta parte do que recebemos da Lei Aldir Blanc e do Fundo de Amparo à Cultura da Secretaria Estadual. São políticas importantíssimas sobre as quais temos responsabilidade de operacionalizá-las da melhor forma possível para que se fortaleçam e permaneçam”, reitera.
Ele destaca ainda o potencial econômico do setor. “Aqui também há um desafio no sentido da sociedade compreendem que um real investido em cultura pode gerar retorno de seis reais, porque o fazedor cultural vai contratar um estúdio, uma equipe de sonorização e produção, uma gráfica, um coffee break, um cabeleireiro, enfim, ‘n’ serviços que vão movimentar a economia, de modo que os poderes executivos e legislativos precisam ter a clareza pela manutenção destas benfeitorias”, afirma.
O município também aguarda novidades para o setor audiovisual. “Recentemente, no 30º Fórum de Dirigentes de Cultura, promovido pela Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), a Secretaria Estadual de Cultura sinalizou que deve direcionar verbas aos fundos municipais para produções audiovisuais e estamos aguardando mais informações, pois temos demanda do setor e esta possibilidade é muito bem-vinda”, conclui Demari.