Nos últimos anos, alguns estudos indicam uma estabilização ou até mesmo um ligeiro aumento do número de católicos em determinadas regiões, especialmente na América Latina, onde o Brasil concentra grande parte dos fiéis. Globalmente, a Igreja Católica reúne cerca de 1,39 bilhão de seguidores, com destaque para países como Brasil, México e Colômbia, que registram crescimento ou manutenção no contingente de fiéis em contraste com algumas nações europeias, onde se observa queda na adesão à religião. Esses dados refletem não apenas tendências demográficas, mas também o papel contínuo da Igreja em programas sociais, na educação e no engajamento comunitário, fatores que contribuem para a manutenção e o fortalecimento do catolicismo.

Católicos no Brasil
No Brasil, cerca de metade da população se declara católica, o que representa aproximadamente 106 milhões de fiéis. Os dados foram obtidos por meio de pesquisas do instituto Datafolha, referentes a dezembro de 2024, e confirmados por estudos divulgados pelo Vatican News em dezembro de 2021. A pesquisa foi elaborada pelo professor e teólogo Fernando Altemeyer Jr., da PUC-SP, e divulgada pelo Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), órgão ligado à Igreja Católica.
Na região Sul do país, 47% da população se declara católica, enquanto no Norte esse índice chega a 58%.
O Censo Demográfico 2022, divulgado pelo IBGE, trouxe um retrato inédito sobre a diversidade religiosa nos municípios brasileiros. Em Bento Gonçalves, o levantamento confirma a predominância da fé católica, com 73,47% da população se declarando Católica Apostólica Romana.
Para o padre da Paróquia Cristo Rei, Miguel Mosena, esse aumento não acontece apenas no campo espiritual, mas também como uma busca por sentido na vida. “Em algum momento da vida nós nos perguntamos: o que fiz dela? Na Palavra e na presença real de Cristo na Eucaristia, os fiéis que retornam”, comenta.
Segundo ele, a presença de fiéis nas missas é cada vez maior. “Percebemos claramente esse movimento nas celebrações dos finais de semana”, observa.
O padre destaca que o número de católicos apresenta crescimento contínuo: “Um dado importante para entender esse fenômeno é o Jubileu em Roma, celebrado a cada vinte e cinco anos ao longo destes dois milênios, que representa um momento de renovação da fé em Cristo e de encontro dos fiéis com Ele e com o sucessor de São Pedro, o Papa Leão XIV. Mais de um milhão de jovens participaram no final de julho, e há cerca de 15 dias celebramos a canonização de dois santos jovens: São Carlo Acutis, de 15 anos, e São Pier Giorgio Frassatti, de 24 anos”, relata.
Mosena lembra ainda que, na França, durante a Vigília Pascal deste ano, 10.384 adultos e mais de 7,4 mil jovens entre 11 e 17 anos foram batizados, número 45% maior em relação ao ano passado. “São dados que revelam o aumento deste movimento da busca dos fiéis à Igreja Católica e que também revelam uma sede profunda de plenitude e felicidade, mas não àquela passageira, e sim a duradoura”, comenta.
Para o padre, o aumento de fiéis também está relacionado às instabilidades políticas, econômicas, às guerras, desigualdades e outras formas de desumanidade que marcam o mundo atualmente. “Basta olhar ao redor para perceber que não vivemos em uma bolha: os problemas do mundo nos afetam porque fazemos parte dele. Esse retorno dos fiéis à fé parece ser um grito de quem não quer enfrentar sozinho essas instabilidades constantes. Sabemos que não somos de ferro e que, em algum momento, tudo isso cansa. É nesse momento que ouvimos de Cristo: ‘Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso de vossos fardos, e eu vos darei descanso’ (Mt 11, 28)”, explica.

Impacto da pandemia
Mosena relata que o surgimento da Covid-19 trouxe profundas transformações. “Tivemos que alterar muitos hábitos devido à pandemia. Por exemplo, os velórios deixaram de ser possíveis, e após esse período, ficou cada vez mais evidente a importância de nos deter e demonstrar proximidade com os familiares e com aqueles que viveram a Páscoa. Passamos a ser menos agitados, especialmente em relação às atividades paroquiais. Outra mudança importante foi perceber a necessidade de nos encontrarmos com mais frequência e promover momentos de fraternidade que envolvam todas as famílias, entre outras iniciativas”, menciona.

Bento Gonçalves
Segundo o pároco, a Igreja vem buscando iniciativas para aproximar as pessoas do catolicismo. “Além da experiência litúrgica das celebrações e de toda a programação paroquial normal, destaco a Catequese para adultos, que é a formação por um ano dos jovens adultos que ainda não receberam os sacramentos da Eucaristia e da Crisma. Também oferecemos uma prática milenar da Igreja, que é a Direção Espiritual feita pelos sacerdotes das paróquias”, destaca.
O padre observa ainda uma mudança no motivo pelo qual os fiéis se aproximam dos sacramentos: “Os que hoje buscam os sacramentos, sobretudo a Eucaristia e a Crisma, não é mais tanto por tradição herdada dos pais, mas por convicção e um passo dado por vontade própria e que, por vezes, até se torna desafiador para a pessoa que poderá enfrentar a incompreensão por parte de familiares, pessoas do trabalho, amigos ou dos ambientes que convivem”, ressalta.

Reflexos
Mosena destaca que o crescimento do número de fiéis repercute diretamente nos diferentes espaços da Igreja. “Isso se reflete, sobretudo, na revisão das estruturas, onde investimos recursos materiais e humanos. Se você perguntar a um jovem, aqui em Bento ou em qualquer parte do mundo, o que ele considera essencial para manter na Igreja, certamente a resposta será preservar os espaços que favorecem a formação e o serviço da caridade organizada. Refiro-me, em especial, aos salões comunitários: é preferível ter poucos, mas bem cuidados e utilizados, do que muitos sem manutenção ou finalidade, já que a realidade atual é diferente daquela em que foram construídos. Esse é um movimento que percebemos tanto nas campanhas realizadas quanto nos momentos de vivência da espiritualidade”, explica.

Desafios para manter a vida comunitária
Para ele, a permanência dos fiéis está diretamente ligada ao crer e ao viver. “Que as comunidades cristãs, de fato, testemunhem tudo aquilo que significa ser discípulo do Senhor, discípulo de Cristo. É um caminho lento, mas constante e sempre eficaz, porque quando percebemos Deus conduzindo na Providência, as coisas parecem que se tornam mais leves, autênticas e livres. Relações fraternas em Cristo são sempre edificadas na liberdade, na verdade e no desejo sincero de uma vida que não desmorona com a morte ou com as ilusões do mundo líquido”, frisa.

Mensagem final
O padre deixa uma mensagem a quem está descobrindo ou redescobrindo a fé: coragem. “Não tenhais medo! É a palavra constante de Jesus aos discípulos. Se você está descobrindo a beleza do caminho da volta, não tenha medo de procurar um sacerdote e conversar com ele. É o primeiro conselho; o segundo é não poupar nas perguntas feitas a ele, e o terceiro conselho é deixar Deus fazer o resto! Coragem”, finaliza Mosena.