Poucas coisas na vida nos dão tanto orgulho quanto nascer no Rio Grande. Não é bairrismo, é constatação. A gente pode até torcer para times que vivem em altos e baixos, mas o coração segue firme — porque ser gaúcho é resistir: ao frio de rachar, ao calor de derreter e, principalmente, àquela pergunta inevitável de quem vem de fora: “Mas vocês tomam chimarrão até no verão?” Sim, tomamos. Não é bebida, é indumentária.
Duvido que exista povo mais afeito ao trabalho que o nosso. Se tem chão para capinar, a gente capina. Se tem parreiral para cuidar, colhemos uva até debaixo de chuva. E a mulher gaúcha? Não fica atrás de ninguém. Fortes e trabalhadoras, pilotam fogões, empresas, guiam famílias, escolas, sendo pilares com a emoção de mãe e a razão de pai. Essas sim mereciam estátua em praça pública. Desde os tempos de guerra, quando não havia cavalo que desse conta da lida, elas seguraram as rédeas — e não só das estâncias. Criaram filhos, gerenciaram famílias, mantiveram a fé e ainda arrumaram tempo para preparar um carreteiro que alimentava meio batalhão. Hoje seguem firmes: trabalham fora, estudam, cuidam da casa e ainda aparecem impecáveis no CTG para o fandango.
O gaúcho tem mania de país próprio. Gesticula com as mãos, fala alto e carregado. Adora churrasco e sagu com creme, come bergamota no sol, canta Mano Lima e dança junto com o par nos bailes por aí.
Por isso, digo: o Rio Grande é meu país. Um país pequeno, mas de coração imenso, que cabe dentro de um chimarrão bem cevado. Onde o vento minuano assobia histórias antigas, cada galpão guarda memórias de resistência e a gente aprende, desde cedo, que ser gaúcho não é apenas nascer aqui, é carregar coragem, simplicidade e humor de quem ri até das próprias teimosias.
É contar histórias dos nonos atrás de um fogão a lenha, cevando um mate enquanto a ovelha assa no fogo. Passamos por revoluções, enchentes, pandemias, perdemos plantações, casas, famílias, mas nunca a esperança.
Desconfie de quem não gosta do Sul, do gaúcho de alma boa. E saiba: antes de dizer que sou brasileiro, eu tenho orgulho de dizer que sou gaúcho. Porque, sim, a gente se diferencia do resto do país.