Nos últimos anos, o mercado de produtos proteicos cresceu de forma acelerada, impulsionado pela chamada “onda fitness”. De suplementos a versões adaptadas de receitas tradicionais, tudo parece ganhar o rótulo de “proteico”, como pipocas, pães, bolos, biscoitos, massas e até sobremesas. Essa tendência desperta o interesse de consumidores em busca de uma alimentação mais saudável e associada ao ganho de massa muscular, mas também levanta questionamentos: será que todo alimento precisa, de fato, ser proteico? O consumo elevado e, muitas vezes, inconsciente desses produtos pode trazer impactos tanto para a saúde quanto para os hábitos alimentares da população.
Consumo de proteína: a regra do equilíbrio
De acordo com a nutricionista Michele M. Reginatto, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que o consumo proteico já é suficiente na dieta da maioria dos brasileiros. “Uma alimentação saudável precisa de equilíbrio entre proteínas, carboidratos, gorduras boas, fibras, vitaminas e minerais. O excesso de proteína não traz mais saúde e pode até sobrecarregar o organismo. O que faz diferença para a saúde é o equilíbrio, não o excesso”, orienta.

Michele M. Reginatto


Michele ressalta que o consumo elevado e prolongado de proteínas pode trazer riscos à saúde, principalmente em pessoas predispostas. “Evidências recentes mostram que esse excesso pode acelerar a perda da função renal em indivíduos com maior vulnerabilidade. Além disso, quando a dieta rica em proteínas não é acompanhada por uma boa ingestão de cálcio, pode ocorrer aumento da excreção urinária desse mineral, comprometendo a saúde óssea”, conta.
Ela destaca ainda, que outro ponto de atenção é o excesso de proteína animal, o que favorece a formação de compostos tóxicos durante a digestão. “Como amônia e aminas, relacionados à inflamação intestinal. Vale lembrar que o corpo não tem um ‘estoque infinito’ de proteína: o que passa da necessidade é convertido em energia ou armazenado como gordura”, menciona a nutricionista. Na prática, quem consome proteína em excesso pode apresentar sintomas como inchaço, constipação, desconfortos intestinais e até ganho de peso. Já pessoas com histórico de doença renal devem ter atenção redobrada. O mais saudável é ajustar a quantidade de proteína às necessidades individuais, de acordo com os objetivos e a condição clínica de cada pessoa”, explana.

A quantidade ideal
Ao planejar uma dieta equilibrada, determinar a quantidade ideal de proteína é um passo fundamental. A nutricionista explica que essa medida deve ser individualizada, pois a necessidade varia de pessoa para pessoa. “A quantidade ideal de proteína depende da idade (adulto, idoso, criança, adolescente), peso, nível de atividade física (praticante de exercício, atleta, modalidade, intensidade e frequência de treino) e saúde (principalmente renal) de cada pessoa”, salienta.
Segundo ela, existe um limite diário de ingestão de proteína por pessoa. “A faixa saudável fica entre 0,8 e 1,2 g por quilo de peso ao dia. Uma mulher de 60 kg sedentária, por exemplo, precisa em média de 50 a 70 g de proteína por dia. Já um homem de 80 kg que treina intensamente pode precisar de 130 a 160 g. Mas passar muito disso não traz benefícios e pode até sobrecarregar o organismo”, observa.

Atenção aos rótulos e opções naturais
Com a chamada “onda fitness”, muitos alimentos passaram a ser denominados proteicos, mas a realidade nem sempre corresponde ao rótulo. “Até parecem saudáveis, mas, ao olhar o rótulo, vemos excesso de açúcar, gordura ou aditivos. O consumidor deve avaliar a lista de ingredientes e a tabela nutricional, não apenas o destaque da proteína”, orienta a nutricionista.
Para ela, a instrução é fundamental para que as pessoas saibam diferenciá-los. “No consultório, costumo mostrar na prática: às vezes a barrinha ‘proteica’ tem mais açúcar que uma fruta com iogurte natural. Sempre oriento meus pacientes a olhar os ingredientes, a quantidade real de proteína por porção e comparar com alternativas simples do dia a dia. Essa consciência evita cair no modismo e ajuda a fazer escolhas mais equilibradas”, menciona.
Michele salienta que na dieta tradicional já temos várias alternativas de incrementar a proteína no dia a dia, através de: “Carnes magras, ovos, aves, peixes, laticínios, feijão, lentilha, grão de bico e quinoa”, afirma a nutricionista.
Segundo ela, esses alimentos fornecem proteína de alta qualidade. “Não é necessário recorrer a suplementos ou produtos industrializados para atender a essa demanda. A dieta tradicional brasileira de arroz com feijão é um exemplo clássico e completo. Quando combinados, esses alimentos fornecem uma proteína de alta qualidade, contendo todos os aminoácidos essenciais que seu corpo precisa. A proteína de qualidade já está no seu prato todos os dias, basta fazer as combinações certas”, finaliza.