Presidente da Câmara de Bento Gonçalves, Anderson Zanella, fala sobre avanços na gestão, inclusão, desenvolvimento e desafios para o futuro da cidade
No comando da Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves desde janeiro de 2025, Anderson Zanella diz conduzir o Legislativo com um objetivo claro: aproximar a Casa da comunidade, reforçar a transparência e preparar o município para os próximos anos. Ele define o atual momento como de “sinergia” entre Legislativo, Executivo e sociedade civil, algo que, em sua avaliação, nunca ocorreu de forma tão natural. “A atuação tem sido compatível com uma mudança de postura e posicionamento da Câmara. Se olharmos os números das nossas redes sociais, o engajamento da Casa com a comunidade fala por si. O diálogo entre os pares tem sido constante e a gente tem conseguido muita entrega. É um processo harmônico, de construção, que representa uma grande evolução. As energias nunca conspiraram tanto para que a gente pudesse desenvolver os trabalhos, e isso está acontecendo de forma natural”, declara.
Esse novo ambiente, segundo ele, se traduz em medidas concretas: corte de gastos, modernização de processos, inclusão, incentivo à participação popular e um olhar atento para os desafios do desenvolvimento.
Redução de custos e portas abertas à comunidade
Logo nos primeiros meses, a gestão adotou medidas para reduzir despesas, como a implantação de energia limpa, iniciativa pioneira no Estado entre as câmaras municipais. “Nós fomos a primeira no Estado, talvez até no país, a aderir à energia sustentável, reduzindo em quase 25% a conta mensal. Abrimos as portas para que a comunidade participe ativamente de todos os processos da Casa. Aproximamos as pessoas do que se discute, do que se fala e do que se faz aqui”, ressalta.
O conceito de “portas abertas” vai além do sentido físico. Zanella fala em transformar a Câmara em um espaço de diálogo permanente, onde a população não apenas acompanhe, mas interfira positivamente nas decisões legislativas. Ele defende que isso passa por ações de comunicação mais ativas, acessibilidade plena e integração de ferramentas tecnológicas que aproximem a gestão do cidadão.
Modernização: da digitalização ao 4K



Entre as inovações, destaca-se a digitalização do acervo histórico da Câmara. “Estamos digitalizando toda a documentação da Câmara desde 1991 e vamos chegar até 1941, sem custo algum. É preparar a Casa para as próximas gerações, garantindo que nada fique perdido”, explica.
A modernização também chegou ao audiovisual. Todas as transmissões agora são feitas em 4K, permitindo entregar imagens de alta definição para imprensa e público. Essa medida, aparentemente técnica, tem impacto direto na transparência, pois oferece registros nítidos e acessíveis do trabalho legislativo.
No campo físico, a mudança estrutural foi significativa. A sede atual, antes “cheia de puxadinhos”, segundo ele, teve paredes internas removidas para criar um plenário mais amplo e inclusivo. “O plenário tinha uma parede que dividia o espaço, o que tirava a sensação de amplitude e inclusão. Hoje temos total acessibilidade, espaço para quem precisa e uma mudança que simboliza muito essa abertura: o intérprete de Libras nas transmissões. Era um sonho antigo, e mesmo sendo um processo burocrático delicado, que levou três a quatro meses, conseguimos entregar. É um dos maiores legados que vamos deixar”, declara.
Essa preocupação com inclusão também foi reforçada por exemplos externos, como o trabalho da princesa Yasmin Luiza de Lima Barbacovi, da Fenavinho, que ampliou o uso de Libras nos eventos comunitários. “Ela abriu os olhos de todos para a importância de dar voz e vez a todo mundo”, comenta.
Nova sede: acessibilidade como prioridade
A futura sede do Legislativo, localizada em ponto estratégico da cidade, próxima ao Fórum da Comarca, avança para a etapa final. Quando assumiu, Zanella diz ter encontrado a obra com pouco mais de 56% de execução; hoje estima que o percentual esteja em 75%. “Fizemos alterações para garantir mais acessibilidade e melhorias internas. Agora partimos para a fase de acabamento e para definir mobiliário, climatização e entorno, com licitações previstas nos próximos 60 dias. Acredito que em abril ou maio do ano que vem faremos a mudança”, informa.
A previsão inicial era abrir o ano legislativo de 2026 no novo prédio, mas a própria Câmara optou por adiar a mudança para entregar um espaço mais funcional e inclusivo.
Harmonia institucional e força da sociedade civil
Zanella avalia que o bom momento legislativo também se deve à relação de confiança com o Executivo e com as entidades comunitárias. “O Legislativo tem votado e discutido todas as matérias importantes para o município. É um momento de sintonia, não só com o Executivo, mas com toda a sociedade civil organizada. As lideranças participam, opinam e ajudam a desenvolver. Muitas vezes sou eu que as procuro para pedir opinião, porque ouvir evita erros e ameniza impactos”, afirma.
Essa abertura é vista como estratégica para manter um ambiente político produtivo e evitar rupturas desnecessárias.
Desenvolvimento econômico

Zanella chama atenção para a necessidade de equilíbrio entre crescimento e preservação da base produtiva. “Temos um problema geográfico, falta de áreas para novas instalações e uma crise agravada pela política externa federal. Antes de pensar em desenvolver, precisamos manter vivas as empresas que temos. Nossa cadeia produtiva: moveleira, metalmecânica, plástica, vinícola e turística, precisa ser ouvida para que possamos dar as mãos e enfrentar os desafios”, analisa.
A falta de mão de obra é outro gargalo. Ele estima que Bento receba cerca de 1.500 novos moradores por ano, aumentando a pressão sobre serviços públicos e o mercado de trabalho. “A nova escola profissionalizante do SESI, que será inaugurada até dezembro, vai ajudar, mas também precisamos combater o excesso de benefícios a quem pode trabalhar e fiscalizar para recolocar essas pessoas no mercado”, defende.
Plano Diretor
A revisão do Plano Diretor é um dos temas mais sensíveis. Para Zanella, a atualização não pode esperar dez anos entre uma e outra. Ele cita Porto Alegre como exemplo de cidade que discute recuos, e não apenas altura de construções. “Verticalização não é altura de prédio, é pensar no diálogo do empreendimento com a cidade. É mais fácil construir 400 unidades habitacionais verticalizadas do que ocupar cinco quarteirões com casas, que demandam mais infraestrutura. Temos que garantir moradia e qualidade de vida, especialmente em bairros populares, e o Plano Diretor deve olhar para isso”, reforça.
Turismo regional e preservação cultural
O presidente vê no PLAN VALE, projeto que cria regras únicas para Bento, Garibaldi e Monte Belo, uma ferramenta para equilibrar preservação e desenvolvimento no Vale dos Vinhedos. “Precisamos transformar a subjetividade em lei, para preservar os parreirais e a história italiana sem travar o crescimento. O turismo precisa ser regional, não municipal. E precisamos que o Estado invista na divulgação da Serra, que é um dos maiores indutores turísticos do Brasil”, afirma.
Zanella lembra que as enchentes de 2024 e o fechamento de aeroportos provocaram uma migração de turistas para outros destinos, o que gerou queda no fluxo. “Estamos retomando, mas é preciso investir pesado para recuperar”, alerta.
Bento+20: a cidade que queremos em duas décadas
Sobre o programa que projeta Bento para 20 anos, Zanella é enfático. “O futuro não acontece por acaso, ele é construído com visão, diálogo e compromisso. É preciso aprender com o passado, entender o presente e projetar o futuro. O Bento+20 não é uma lista de obras, é um plano que abrange educação, mobilidade, meio ambiente, inovação e qualidade de vida”, explica.
Para ele, o diferencial do projeto é a participação plural: poder público, setor produtivo, universidades, entidades e cidadãos comuns. “Pensar Bento para 20 anos é um desafio, mas é isso que garante que não vamos ser pegos de surpresa como na pandemia ou nas enchentes”, afirma.
Agenda do segundo semestre e reconstrução
Zanella projeta um segundo semestre intenso, com discussões como o plano plurianual, a lei de diretrizes orçamentárias e as alterações do Plano Diretor. Também planeja seguir com o Plan Vale e concluir a nova sede.
Ao falar do momento pós-enchentes, o presidente destaca a importância da união. “Estamos retomando o hospital público, que será entregue gradualmente. Quando deixamos de lado os egos e pensamos no coletivo, avançamos mais rápido rumo a dias melhores. Vamos continuar construindo Bento com qualidade de vida, desenvolvimento e preservação das nossas origens italianas e do espírito acolhedor do interior”, conclui.