Bento Gonçalves carrega uma história marcada pela imigração italiana, pela diversidade cultural e por um patrimônio que se espalha desde o centro urbano até os distritos. Nos últimos anos, o município tem intensificado ações para registrar, preservar e valorizar essa herança, material e imaterial, mas enfrenta o desafio de conciliar crescimento acelerado e proteção da memória local.

Inventário, mapeamento e educação patrimonial

Desde 2019, a Secretaria Municipal de Cultura, em parceria com a Universidade de Caxias do Sul (UCS) e outras instituições, realiza o Inventário do Patrimônio Cultural. A iniciativa mapeia edificações históricas, paisagens culturais e tradições locais, abrangendo tanto áreas urbanas quanto rurais. O projeto resultou em publicações como o livro Laços Patrimoniais (2021) e avança agora para a região do Vale Aurora, ampliando o olhar para bens imateriais como saberes, festas e modos de vida. “A preservação da memória não é só registrar, mas aproximar a comunidade de sua própria história”, afirma o Secretário de Cultura do município, Evandro Soares.

Centro Cultural Tuiuty

Espaços de memória e museus

O Museu do Imigrante, mantido pela Fundação Casa das Artes, é o principal guardião da história da imigração na cidade. Outros espaços, como o Arquivo Histórico, a Biblioteca Pública Castro Alves, o Centro Cultural Tuiuty, o Centro Cultural 20 de Novembro, o Parque Municipal de Rodeios, a Praça CEU e a Casa do Artesão e do Artista Plástico, cada um com um papel relevante na preservação e promoção da cultura local. “Também podemos destacar monumentos simbólicos como a Pipa Pórtico, o Monumento ao Imigrante e o Campanário Mirante de Faria Lemos, que guarda uma bela vista do Vale Aurora. Outros espaços mantidos por entidades parceiras também contribuem com esse trabalho, como o Ponto de Cultura e Memória Vale dos Vinhedos e a Casa da Memória Merlin, que atuam especialmente na preservação da memória da imigração italiana”, confirma Soares.

Museu do Imigrante

Além da gestão municipal, entidades e a comunidade contribuem para a salvaguarda de memórias. “A preservação dos prédios históricos e paisagens culturais está prevista no Plano Diretor do município. Existem instrumentos legais como incentivos fiscais e possibilidade de compensações para quem preserva imóveis com valor cultural, embora algumas dessas medidas ainda precisam ser regulamentadas para aplicação mais efetiva. Por meio do Fundo Municipal de Cultura, também é possível apoiar projetos voltados ao patrimônio histórico e cultural. Já em relação às fotografias antigas, tanto o Museu do Imigrante quanto o Arquivo Histórico cuidam de um acervo precioso que está em constante catalogação, conservação e digitalização. É comum que moradores doem imagens e documentos, o que mostra o envolvimento da comunidade com sua própria história”, evidencia o Secretário.

Patrimônio imaterial: tradições e diversidade

O Inventário do Patrimônio Cultural Imaterial, iniciado na região do Vale Aurora, vem identificando festas tradicionais, saberes artesanais e manifestações populares, incluindo o artesanato em dressa (artesanato em palha de trigo), mantido por grupos como o Circolo Trentino di Bento Gonçalves. A diversidade étnica e cultural também tem ganhado espaço, com projetos como Registro da Cor, que documenta a história da população negra local. “Esse olhar vai além do território: é também um olhar atento à diversidade étnica e cultural presente em Bento Gonçalves, valorizando suas histórias e seus protagonistas. O livro Registro da Cor conta com um investimento de cerca de R$ 35 mil, e representa um passo importante no reconhecimento e na valorização da cultura afro-brasileira local”, salienta.

A continuidade e valorização desses bens materiais e imateriais ocorre em parceria com outras instituições. “Firmamos um Termo de Cooperação com o Instituto Estadual de Patrimônio (IPHAE) para aplicação do Sistema de Rastreamento Cultural no Vale Aurora e Distrito de Faria Lemos. Além disso, estamos começando um mapeamento de Mestres e Mestras Populares junto ao Circolo Trentino di Bento Gonçalves e ao Movimento Negro Raízes, que vai ajudar a reconhecer e valorizar quem guarda saberes tradicionais em nossa cidade”, revela Soares. Além disso, desde 2020, o município conta com o apoio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UCS, por meio de projetos de pesquisa, estágio e orientação técnica.

Costumes, festas e culinária são patrimônio imaterial

Segundo o Secretário, um dos principais desafios é justamente dar conta da amplitude do patrimônio, que vai desde o edificado até os saberes tradicionais, festas, ofícios e expressões artísticas. “Por isso, as parcerias têm sido fundamentais para somar forças e ampliar o alcance das ações. Cada passo dado nesse caminho, seja por meio de inventários, oficinas, publicações ou atividades educativas, representa um avanço na construção de uma cidade que valoriza e reconhece a sua história. E toda nova colaboração que venha a fortalecer esse processo é muito bem-vinda. Afinal, preservar o patrimônio é um compromisso coletivo com o presente e o futuro de Bento Gonçalves”, pondera.

Segundo Soares, após a conclusão do Inventário do Vale Aurora, a intenção é continuar expandindo o mapeamento para outras regiões do município. “Esse trabalho é fundamental porque ele nasce da escuta e do envolvimento direto com as comunidades. Entre os bens já identificados, há muitos com potencial para se tornarem espaços culturais, seja geridos por famílias, associações ou pelo próprio poder público. Com criatividade e apoio, esses lugares podem ganhar vida nova e se transformar em pontos de encontro, educação e valorização da identidade local”, reitera.

Casa Geisel

Segundo Soares, o Memorial Casa Geisel foi inaugurado em dezembro de 2019 e permaneceu aberto até 2024. Atualmente, o imóvel voltou à responsabilidade da Fundação Educacional da Região dos Vinhedos (FERVI). “Infelizmente, nas últimas vistorias, foram identificados problemas estruturais como infiltrações, o que prejudica o acervo e o bom uso da edificação. A revitalização dependerá de futuras tratativas e parcerias, mas reconhecemos a importância do espaço como parte da memória local e nacional”, comenta o representante de Cultura.

Casa Geisel

O papel das leis de incentivo

A Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) injetaram recursos significativos na cultura de Bento Gonçalves. Apenas em 2023, a Lei Paulo Gustavo destinou mais de R$ 950 mil, com destaque para produções audiovisuais. Já a Aldir Blanc prevê repasses superiores a R$ 3,4 milhões até 2026, sendo que mais de R$ 850 mil já foram executados neste primeiro semestre de 2025, beneficiando artistas, coletivos e espaços culturais.

Entre os projetos contemplados, estão documentários sobre o patrimônio ferroviário, pesquisas sobre a dressa, produções teatrais inspiradas na cultura italiana e estudos inéditos sobre a memória negra e indígena. “Quem realmente ganha com tudo isso é a comunidade, que passa a contar com uma oferta cultural mais ampla, diversa e descentralizada, em sintonia com a identidade múltipla que Bento Gonçalves carrega. Nossa cidade tem uma cultura vibrante e plural, e todos os fazedores e fazedoras de cultura merecem ser reconhecidos, valorizados e apoiados em sua trajetória”, conclui o Secretário.

Cultura afro e indígena

Em Bento Gonçalves, a história e a cultura dos povos de matriz africana e dos povos indígenas ainda enfrentam baixa visibilidade e reconhecimento institucional. Segundo Odília Mara da Rosa, presidente do Conselho dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, a cultura Afro Brasileira é mais lembrada na Semana da Consciência Negra. “Apesar de avanços importantes, como a criação do Conselho Municipal dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, a participação efetiva da comunidade Afro nas políticas públicas segue limitada. No campo da educação, a aplicação da Lei 10.639/2003 ainda é frágil, houve avanços, mas ainda existe uma certa resistência quanto ao ensino da cultura Afro. Ainda assim, entidades como o Movimento Negro Raízes e a Sociedade Educacional e Cultural 20 de Novembro têm desempenhado um belíssimo trabalho de valorização e visibilidade da cultura afrobrasileira no município. Já os povos indígenas, como os Kaingang e Guarani, tenho o conhecimento que o poder público tem desenvolvido algumas ações de caráter social, mas essas iniciativas muitas vezes esbarram na resistência legítima desses povos à adequação forçada a modelos que não respeitam suas formas próprias de organização, cultura e espiritualidade”, destaca.

O Conselho dos Povos Tradicionais de Matriz Africana de Bento Gonçalves tem buscado formas mais abrangentes de preservar a memória material e imaterial dessas comunidades. “Entre as ações, destacam-se a organização de eventos que evidenciam a religiosidade afro-brasileira, como o Encontro de Quimbandeiros e a Conferência dos Povos Tradicionais, com o objetivo de ampliar a participação das Casas de Axé e transformar a percepção da sociedade sobre essas tradições. Um avanço importante é o diálogo com o poder público para a regulamentação das Casas de Axé, por meio da elaboração de uma lei que facilite a obtenção de alvarás de funcionamento. Essas iniciativas demonstram o comprometimento com a valorização dos saberes, tradições e territórios dos povos de matriz africana no município. Temos o projeto da CEU Mãe Oxum e Ogum Beira Mar, apresentado por Mãe Anahí de Oxum, que fala sobre os saberes e desmistificação das casas de Axé. Essas são algumas ações que não são somente do Conselho, mas também da comunidade Afro de Bento Gonçalves”, salienta.

Odília Mara da Rosa, presidente do Conselho dos Povos
Tradicionais de Matriz Africana de Bento Gonçalves

Segundo Odília, a valorização dos saberes, ritos e tradições afro-brasileiras como patrimônio de Bento Gonçalves tem avançado graças à atuação das entidades locais e do Conselho. “A inserção de expressões culturais afro-brasileiras em eventos públicos, o fortalecimento da oralidade e da ancestralidade, o diálogo com o poder público e ações educativas contra a intolerância religiosa são caminhos importantes. Há grandes desafios, mas com o engajamento das entidades e o comprometimento do poder público, o município caminha para se tornar uma cidade mais plural, antirracista e conectada à diversidade de suas raízes”, frisa.

Segundo a presidente, a criação do Conselho, a realização de conferências, eventos e a presença crescente de representantes afro-brasileiros em espaços antes restritos são passos importantes, mas ainda insuficientes. “É preciso que essas iniciativas deixem de ser pontuais e passem a integrar as políticas públicas e a memória coletiva da cidade de forma estruturada e permanente”, reitera.

O Conselho dos Povos Tradicionais de Matriz Africana tem desempenhado um papel fundamental na promoção e valorização da cultura afrobrasileira em Bento Gonçalves. “Essa integração tem possibilitado a participação de manifestações culturais afro-brasileiras em eventos oficiais, oficinas, mostras e programações especiais — especialmente durante o mês da Consciência Negra —, ampliando a visibilidade e o reconhecimento das tradições e expressões dos povos de matriz africana no cenário cultural do município. Também há diálogo com a Secretaria de Educação, buscando levar conteúdos antirracistas e de valorização da ancestralidade às escolas da rede municipal, fortalecendo o papel da educação no combate ao racismo e no reconhecimento da diversidade cultural”, aborda Odília.

Segundo ela, para que o patrimônio imaterial afro-brasileiro seja efetivamente respeitado e preservado, é preciso ir além da simbologia. “É necessário construir políticas públicas sólidas, duradouras e comprometidas com a justiça histórica, com investimento, proteção legal e escuta ativa das comunidades afrodescendentes de Bento Gonçalves. O respeito à ancestralidade exige ações concretas e contínuas, que fortaleçam a presença da cultura afro-brasileira nos espaços públicos, na educação, na cultura e nas decisões políticas”, destaca.

A juventude de Bento Gonçalves tem se destacado pelo protagonismo cultural, com forte atuação em movimentos artísticos e sociais. “Contudo, esse protagonismo ainda é limitado quando se trata da continuidade das tradições afro-brasileiras, especialmente em um município cuja identidade oficial permanece fortemente atrelada à cultura italiana”, comenta Odília.

No entanto, ela reforça que o Movimento Hip Hop tem sido uma ferramenta importante de resistência e expressão entre jovens. “Paralelamente, entidades e coletivos ligados aos povos de matriz africana têm fortalecido a identidade afro no território. Para avançar, é essencial criar e fortalecer espaços de formação, escuta e pertencimento para a juventude negra. Seu envolvimento é fundamental para romper os ciclos de invisibilidade e exclusão, construindo uma cidade mais justa e representativa da sua diversidade cultural”, finaliza.

Alguns projetos de fomento à cultura:

Sabrina De Lima Greselle
“Patrimônio vivo: as múltiplas identidades e significações do patrimônio ferroviário na comunidade de São Luiz das Antas-BG”
Produção de documentário sobre as relações entre os moradores e o patrimônio cultural.

Rosane Marchetto
“Espaços continuum”
Utilizou os espaços do Museu do Imigrante e da Praça Ismar Scussel para a realização de uma produção cênica a partir de um desdobramento do espetáculo Mundus Immundus 2

Roberto Vargas
“Circuito de histórias”
Contação de história do livro “A araucária e a gralha azul: uma história dos antigos Kaingang”, por Daíze Figueiredo, com roda de conversa com Isaías da Silva, da Comunidade Kaingang de Bento Gonçalves.

Circulo Trentino
“Ponto de Cultura Vale dos Vinhedos”
Revitalização e manutenção do Ponto de Cultura Vale dos Vinhedos, com adaptações de acessibilidade, e realização de oficinas mensais sobre higienização e digitalização de documentos, artesanato em Dressa e rolhas, Histórias e Saberes e Gastronomia típica.

Patrícia Larentis
“O último trem”
Produção de média metragem gravado na Estação Ferroviária de Bento Gonçalves

Cristine Tedesco
“O trigo é meu cristal: memórias do artesanato em Dressa”.
Pesquisa sobre o artesanato em dressa, com publicação de livro impresso, audiolivro e livro digital.

Silvia Maia Alves
“Memória Negra em Bento Gonçalves”
Pesquisa inédita e publicação de livro sobre a memória negra, com o historiador Lucas de Anhaia.

Pedro Ramon Festa
“Circula Memórias”
Palestras e apresentações com base no livro “Memórias do Rolê” (2023, também fomentado pelo FMC), sobre as memórias de Hip Hoppers de Bento Gonçalves, buscando atentar para o registro de memórias e preservação da história da cultura Hip Hop em Bento Gonçalves.

Thaís Pegoraro
“Una Visita Inaspettata”
Criação de espetáculo teatral inspirado na cultura italiana da região de Bento Gonçalves, retratando o cotidiano de uma mulher idosa de uma comunidade rural.

Lucas de Anhaia
“Retalhos da diversidade”
Produção de uma exposição de artes digitais com a técnica de colagem, construídas com fontes iconográficas encontradas no Museu do Imigrante.

Anahí Cardoso Miranda
Oficina de preservação do patrimônio histórico e cultural da Umbanda em Bento.

Preservação arquitetônica sob pressão

O Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural de Bento Gonçalves (COMPAHC) deixou de ter poder deliberativo em fevereiro deste ano, suspendendo a capacidade de tomar decisões sobre obras e reformas em áreas de interesse histórico, transformando-o em um órgão meramente consultivo.

Para a arquiteta e urbanista Marilei Piana Giordani, Especialista em Patrimônio Cultural e Mestre e Doutora em Planejamento Urbano e Regional, Bento Gonçalves vive um momento decisivo. “Muito já foi demolido que não precisaria ser. Progresso e desenvolvimento não exigem destruir o passado. O interesse econômico e imobiliário muitas vezes se sobrepõe à preservação. A arquitetura representa a materialidade do cotidiano da época, da cultura, dá uma característica física às texturas e aos materiais ali empregados. A demolição dela faz com que tenha uma desconexão entre espaço e tempo, a população fica sem memória, história”, evidencia ela, que também faz parte do Compahc, pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil, Núcleo Vinhedos da Serra Gaúcha.

Capelas de longo tempo são testemunhos de preservação

Ela defende que o Plano Diretor e o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (IPURB) adotem instrumentos claros e específicos para proteção de imóveis históricos. Também critica a recente retirada do caráter deliberativo do COMPAHC, que, segundo ela, fragiliza a participação comunitária nas decisões. “Não há uma política eficaz de preservação do patrimônio edificado em Bento Gonçalves. Visto, há menos de dez edificações tombadas. Entretanto, não são somente essas que devem ser preservadas, mas sim, também as inventariadas, de interesse histórico, assim como todas as edificações que representam a história e a memória do lugar”, pontua.

A Constituição Federal de 1988 elevou a preservação do patrimônio cultural a uma questão jurídica, estabelecendo um capítulo específico sobre cultura e definindo o patrimônio cultural brasileiro como um direito de todos e um dever do Estado. “Por isso o Ministério Público tem atuado nesta preservação em Bento quando a legislação não é seguida. Muitos também reclamam de como o Plano foi feito, mas a população não compareceu quando convocada, é necessário que entendam o Plano Diretor, por que é essa Lei que direciona o município”, destaca Marilei.

A Constituição de 1988, em seu artigo 216, define o patrimônio cultural brasileiro como bens de natureza material e imaterial, individualmente ou em conjunto, que merecem preservação. Além disso, o artigo 23, incisos III e IV, estabelece a competência comum da União, Estados, Distrito Federal e Municípios para proteger documentos, obras de arte e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, bem como impedir sua evasão, destruição e descaracterização.

Marilei chama atenção ainda para a importância da arquitetura industrial, como antigas vinícolas e chaminés, que testemunham o início da vitivinicultura local. “O turista que Bento atrai é formador de opinião. Ele percebe quando a cidade está apenas representando e não preservando de verdade”, indica.

O órgão

O Compahc é responsável por assessorar a administração municipal em questões relacionadas ao patrimônio histórico e cultural da cidade, tanto material quanto imaterial. O conselho é composto por representantes de diversos setores, incluindo governo, sociedade civil e entidades ligadas à cultura e patrimônio. “Penso que deveria haver ainda mais pessoas da comunidade, um peso maior. Com a retirada dos poderes deliberativos, quem toma a decisão são os políticos. Acredito que a população deveria se envolver mais. Quem não aprova as demolições, geralmente são as entidades que entendem a importância da preservação do patrimônio cultural. Mas infelizmente, quem quer preservar é um terço do total, a maioria opta pelas demolições. Tudo isso, consta nas Atas do Compahc que são públicas e podem ser consultadas”, desenvolve.

Um equilíbrio

A relação entre desenvolvimento e preservação é possível quando há clareza sobre o que preservar, defende a arquiteta e urbanista, especialista em Antropologia Cultural, Cristiane Bertoco. Inspirando-se no conceito de “palimpsesto urbano” do geógrafo David Harvey, ela afirma que a cidade precisa construir novas camadas sem “violentar” o que já foi feito. Para isso, é fundamental adotar regras dinâmicas de preservação que respeitem tanto a cultura local quanto às necessidades contemporâneas da população.

Cristiane destaca que, em Bento Gonçalves, a arquitetura italiana, legado dos imigrantes, é tratada principalmente como vetor turístico, mas permanece como herança viva em comunidades que preservam não apenas os prédios, mas o modo de vida associado a eles. Ela lembra que projetos de conservação são, em sua maioria, viabilizados por leis de incentivo à cultura e parcerias com a iniciativa privada, enquanto reformas e reusos muitas vezes surgem da iniciativa de empreendedores. “É importante lembrar que se trata de um turismo rural e cultural. É preciso um olhar atento para perceber os valores culturais dessa arquitetura para além do cotidiano e assim reconhecer o legado que eles nos trazem, não apenas na preservação dos imóveis e dos objetos materiais, mas daquilo que acontece dentro dessas casas, todo um modo de viver, saberes e fazeres, que constituem o patrimônio imaterial”, pontua.

Os projetos de conservação e restauro, em sua maioria, são fomentados através de leis de incentivo à cultura nacional e estadual, através de propostas encaminhadas pelo poder público ou por agentes culturais da sociedade civil, com auxílio de entidades privadas que destinam seus impostos.

A conscientização popular sobre o valor do patrimônio histórico, segundo a arquiteta, cresce com o tempo, mas é diversa e influenciada por laços afetivos locais. Casos como a Cantina Strapazzon mostram que é possível preservar bens materiais e imateriais de forma integrada, enquanto perdas como o Solar do Dr. Tacchini (conhecida também como Solar dos Mônaco) e a antiga Igreja de Faria Lemos evidenciam a importância da mobilização social e legislação protetiva posterior após estas perdas irreparáveis. “Existem critérios que podem direcionar a preservação, como o valor de referência coletiva, a compatibilização com a estrutura urbana ou rural, o uso tradicional, o estado de conservação, o risco de desaparecimento, entre outros. Isso pode ser fortalecido ouvindo as pessoas das comunidades e não apenas definindo ‘tecnicamente’ ou seja, a valorização é uma construção social”, ressalta.

Iniciativas como os roteiros Caminhos de Pedra e Vale dos Vinhedos são, para Cristiane, exemplos de sucesso na valorização da cultura da colônia, pois restauraram edificações, preservam costumes e fortalecem a identidade local, transformando antigas “casas velhas” em “casas históricas”. “Em uma época em que o trabalho rural era desvalorizado e o colono era considerado cidadão de segunda categoria, essas iniciativas resgataram a autoestima dessas comunidades, e possibilitaram uma nova forma de trabalhar com a terra, integrando tecnologias e trazendo o consumidor para conhecer de perto a origem de seus produtos. Os objetivos de valorizar e preservar a arquitetura antiga e os costumes da imigração italiana possibilitaram o restauro de diversas edificações, que foram adaptadas para uso turístico, gastronômico e memorial, gerando renda para as famílias e possibilitando um novo olhar para as casas históricas”, pondera.

Segundo ela, outro fator é a valorização da culinária, dança, jogos e cantos tradicionais e a revalorização do dialeto ‘Vêneto-Riograndense’, hoje o reconhecido ‘Talian’, que de proibido e menosprezado, veio a se tornar patrimônio nacional.

A arquiteta destaca a atuação do Compahc como mediador entre sociedade e poder público, analisando intervenções e buscando o equilíbrio entre desenvolvimento e preservação. “A análise de intervenções no patrimônio cultural edificado e paisagens, embora tenha parâmetros no Plano Diretor, é realizada caso a caso, de acordo com o nível de preservação das edificações e sua inserção em conjunto ou roteiro. Além disso, o município não conta com especialistas dedicados exclusivamente a isso, como em outros municípios”, afirma.

Desafios e futuro

A preservação em Bento Gonçalves exige equilibrar crescimento urbano com memória histórica.
Como resume o Secretário de Cultura, Evandro Soares, “preservar a memória não significa parar no tempo, mas usar o passado como fonte de identidade e pertencimento. É um compromisso coletivo com o presente e o futuro”, conclui.

Foto capa: Augusto Arcari