Os vinhos biodinâmicos representam uma filosofia de cultivo que une sustentabilidade e um profundo respeito pelo meio ambiente. Baseada nos preceitos da agricultura biodinâmica, essa prática enxerga a vinha como um organismo vivo, cujo manejo é orientado pelos ciclos da lua e dos planetas. Seja para acompanhar um prato sofisticado, um petisco caseiro ou para ser apreciado puro, o vinho biodinâmico oferece uma experiência rica.

Origem e crescimento
Nos últimos anos, práticas de viticultura ecologicamente responsáveis têm ganhado destaque entre os produtores. Essa tendência se intensificou no período pós-pandemia, quando a preocupação ambiental se tornou ainda mais presente. É nesse contexto que a produção de vinhos biodinâmicos ganha força.
Elaborados segundo os princípios da agricultura biodinâmica, esses vinhos seguem cuidados que vão da preparação do solo e adubação até o plantio e a colheita das uvas, sempre em sintonia com o calendário lunar. O método foi criado no início do século 20 pelo austríaco Rudolf Steiner, educador e filósofo que propôs integrar as práticas agrícolas à observação dos ritmos da natureza.

Deise Pelicioli, consultora biodinâmica e mestre em Viticultura e Enologia

Diferenças dos vinhos tradicionais
De acordo com Deise Pelicioli, consultora biodinâmica e mestre em Viticultura e Enologia, os vinhos biodinâmicos têm uma abordagem distinta. “A produção biodinâmica, ao contrário da orgânica que se concentra na ausência de insumos químicos, considera o vinhedo um organismo vivo, em equilíbrio com o solo, as plantas, os animais e os ritmos da natureza”, explica.
Para Edgar Luís Giordani, enólogo da Vinum Terra e Especialista em Agricultura Biodinâmica, que é a primeira, por ora, a única vinícola do Brasil, certificada Biodinâmica em toda sua produção, a biodinâmica é mais que um método: é uma verdadeira filosofia de vida. “Essa filosofia envolve a relação e a interação entre todos os seres animal, vegetal, humano e terrestre, além das forças cósmicas, planetárias e lunares que atuam sobre a matéria, seja ela fruto, flor, folha, caule ou raiz. Essa conexão promove uma transformação profunda e confere um diferencial significativo ao produto final”, detalha.
Além disso, a produção biodinâmica estimula a vitalidade e a autorregulação do sistema. “O foco não está apenas no controle de pragas ou doenças, mas no fortalecimento do ecossistema agrícola como um todo. Em contrapartida, o sistema convencional usa insumos químicos e sintéticos que atuam diretamente sobre o patógeno, muitas vezes sem considerar os impactos no ecossistema”, ressalta Deise.
A especialista lista os principais princípios biodinâmicos aplicados à vitivinicultura:

  • A visão do vinhedo como um organismo agrícola individual e autossustentável;
  • O uso de preparados biodinâmicos, que impulsionam a vida no solo e nas plantas;
  • A integração das práticas agrícolas com os ritmos cósmicos e as fases da lua;
  • O estímulo à biodiversidade no solo e no entorno do vinhedo;
  • O fortalecimento do vínculo entre o agricultor e a terra, com consciência e responsabilidade ambiental.

Calendário biodinâmico
Conhecido como calendário astronômico agrícola, essa ferramenta é fundamental para orientar as práticas na viticultura. “Ele indica os momentos mais favoráveis para atividades como poda, enxertia, colheita, vinificação e até mesmo o engarrafamento. Quando esses ciclos baseados nos ritmos da lua, dos planetas e das constelações são respeitados, tendem a potencializar a expressão e a vitalidade da vinha e, consequentemente, do vinho”, explica Deise.
Giordani complementa que, ao identificar o momento cósmico ideal, ele realiza o engarrafamento do vinho “sem filtragem, sem qualquer adição”.

Edgar Giordani e esposa Marielei Giordani

Cuidados com o cultivo
A produção de vinhos biodinâmicos começa com um cuidado especial com o solo. “Um solo vivo é a meta central. Em seguida, adota-se uma visão sistêmica, em que a propriedade é vista como um organismo integrado. A compostagem bem elaborada, o uso adequado dos preparados biodinâmicos e a observação constante da vinha são fundamentais. O manejo é feito com sensibilidade e consciência. É preciso estar presente e atento aos sinais da natureza”, descreve a especialista.
Giordani destaca que diferentemente dos produtores convencionais, na produção Biodinâmica, não é permitido a utilização de nenhum produto químico, sintético e hormônios no solo. “É a relação da natureza em favor da natureza. Trabalhamos muito com homeopatia, radiestesia, energização. Essa abordagem integral do organismo em um solo cheio de energia e vida resulta em um produto diferenciado”, ressalta.
O enólogo ainda enfatiza que os vinhos biodinâmicos se destacam pelo sabor. “Eles apresentam aromas e sabores mais intensos e marcantes, com grande persistência no paladar. São vinhos vibrantes, florais e com excelente potencial gastronômico”, confirma.
Giordani também explica que o tempo de cultivo da uva é o mesmo, mas a relação com a planta é diferente. “Na biodinâmica, dizemos à videira: ‘Dê-me o que você pode, dentro de sua estrutura, e eu lhe dou o que posso, com meu conhecimento e dedicação’”, relata.

Desafios
Um dos principais desafios é a proteção das videiras. “Se você é certificado biodinâmico, é exigido um isolamento em relação ao vizinho convencional. Isso porque enfrentamos o crescimento da resistência dos patógenos”, confirma Giordani.

Restrições de maquinário
A utilização de maquinário também sofre restrições. “São priorizados produtos naturais que respeitem o equilíbrio do ecossistema. O uso de maquinário é permitido, mas com cautela, para evitar a compactação do solo e intervir apenas quando necessário. A proposta é de mínima intervenção, com máximo respeito ao ambiente”, relata Deise.
Giordani complementa que na sua vinícola a mecanização está presente, mas com parcimônia, pois a elaboração de vinhos biodinâmicos, é muito braçal e artesanal, muito além do desengace. “Como não utilizamos a adição de sulfitos, o controle na fermentação é muito mais rigoroso e demanda atenção redobrada, para preservar as características olfativas, degustativas e organolépticas no vinho final. Para isso, na fermentação, não utilizamos recipientes de polipropileno, mas de inox, madeira e vidro”, esclarece.

Processo de fermentação e envelhecimento
Na produção biodinâmica, a fermentação é geralmente conduzida por leveduras indígenas. “Isso permite que o vinho desenvolva sua identidade de forma mais natural e fiel à sua origem. O envelhecimento também é mais respeitoso, com uso mínimo de aditivos ou técnicas invasivas”, explica a especialista.
O enólogo acredita que os vinhos biodinâmicos podem durar muitos anos. “Confio na potencialidade mineral e equilibrada do solo. Essa estrutura se mantém até o final, por isso acredito que esses vinhos são longevos”, avalia. Deise confirma que um vinho de um sistema equilibrado tende a envelhecer melhor, ganhando longevidade ao preservar as forças vitais de sua essência.

Preparados biodinâmicos
Os preparados biodinâmicos são essenciais para o cultivo, e alguns dos mais conhecidos são:

  • Preparado 500: feito de esterco bovino acondicionado em chifres de vaca, é usado para revitalizar a saúde e a fertilidade do solo, estimulando a atividade microbiológica;
  • Preparado 501: conhecido como “preparado da luz”, é feito com sílica coloidal. Pulverizado sobre as folhas, ele melhora a capacidade das plantas de absorver a energia solar, contribuindo para o crescimento e a qualidade dos frutos;
  • Preparado 503: obtido a partir de flores frescas de camomila, atua no composto orgânico, estabilizando o nitrogênio e auxiliando no controle natural de fungos;
  • Preparado 507: feito de extrato de flores de valeriana, intensifica o calor interno das plantas e estimula a germinação. Também é usado para proteger as culturas contra geadas.

Certificação
Para comprovar que um vinho é realmente biodinâmico, as vinícolas precisam da certificação Demeter. “É uma certificadora mundial. Para se chegar a ela, a vinícola é auditada e passa por um crivo rigoroso. Na biodinâmica, somos muito cobrados, por isso muitos até se cansam, o que não acontece em outros processos. Somos cobrados em tudo”, conclui Giordani.