Convenção Coletiva 2025/2026 assegura aumento acima da inflação, benefícios inéditos e reforça a mobilização da categoria por participação nos lucros e cesta básica

O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário (SITRACOM) de Bento Gonçalves firma um acordo considerado histórico com o setor patronal, consolidando a Convenção Coletiva 2025/2026. O novo documento garante reajuste salarial acima da inflação, ganho real e a inclusão de benefícios sociais inéditos, refletindo meses de negociações intensas e resistência à retirada de direitos já conquistados.

A convenção entra em vigor a partir de 1º de fevereiro de 2025 e é válida até janeiro de 2026.

Reajustes salariais para toda a categoria

O acordo assegura um reajuste de 4,17% retroativo a fevereiro de 2025, acrescido de ganho real de 1,33%, a ser incorporado na folha de pagamento de agosto. Ao todo, o reajuste acumulado chega a 5,5%, superando o índice oficial da inflação (INPC). Para o piso salarial, o ganho total é de 6%, com aplicação adicional de 1,76% em agosto.

Os salários retroativos devem ser pagos até o 5º dia útil de agosto, contemplando a diferença salarial de fevereiro. “O nosso pleito por melhores salários é justamente para que o trabalhador conquiste qualidade de vida. A inflação não acompanha os gastos com alimentação, água, luz e escola. São itens com reajustes mensais, enquanto o salarial é anual. O trabalhador sente muito mais”, afirma Adriana Machado de Assis, presidente do SITRACOM, ao justificar a insistência no ganho real. Ela destaca que “salário não fica nas mãos dos trabalhadores, ele vai para a economia local, principalmente, e é usado para suprir as necessidades”, declara.

Benefícios inéditos

A nova convenção também introduz duas cláusulas sociais inéditas que ampliam o cuidado com os trabalhadores, especialmente em jornadas estendidas e no cuidado com as mulheres.
O primeiro benefício garante lanche e transporte gratuitos para jornadas que ultrapassem duas horas extras, além de um intervalo de 10 minutos entre o fim do expediente regular e o início da hora extra.

O segundo estabelece que as empresas devem fornecer, gratuitamente, absorventes higiênicos às trabalhadoras, em locais adequados, como enfermarias ou espaços específicos, promovendo dignidade menstrual e equidade de gênero. “Nossa preocupação com novas cláusulas sociais é anual”, explica Adriana. Ela afirma que parte das sugestões vem dos próprios trabalhadores, e outras são inspiradas em convenções de sindicatos parceiros. “Mesmo enfrentando resistência, conseguimos emplacar dois avanços significativos neste ano”, celebra.

Negociação marcada por impasses e tentativas de retrocesso

As negociações se estendem por mais de cinco meses, entre fevereiro e julho. Desde o início, segundo o sindicato, o setor patronal demonstra resistência até mesmo à reposição da inflação. “Nos últimos anos enfrentamos mais dificuldade nas negociações coletivas. O patronal se mostra sem abertura, disposto apenas a conceder a reposição salarial”, aponta Adriana. Ela relata que, nesta convenção, foram surpreendidos com propostas de retirada de direitos históricos, como o dia extra de férias concedido nas coletivas entre Natal e Ano Novo e a tentativa de aumentar o contrato de experiência de 60 para 90 dias. “Não aceitamos negociar retrocessos. Nossa missão é conquistar, mesmo que com muita luta. Retirada de direitos já conquistados, não vamos acatar”, afirma a presidente.

Ela critica também a postura contraditória do setor patronal, que, apesar de registrar lucros expressivos com exportações em 2024, insiste em alegações de insegurança econômica. “No ano de 2024, as empresas faturaram muito, principalmente com as exportações. Mas, na mesa de negociação, diziam estar se recuperando da Covid, das enchentes e da instabilidade do mercado. Lutamos até conquistar o aumento real”, relata.

Participação da base fortalece mobilização

Uma das estratégias adotadas pelo SITRACOM foi ampliar a participação direta dos trabalhadores nas negociações, com divulgação clara dos resultados por meio de redes sociais, informativos e assembleias. “Nossas negociações nunca foram fáceis, mas buscamos sempre o diálogo. E o apoio dos trabalhadores nos ajudou muito”, reconhece Adriana. Ela reforça que o envolvimento da base tem sido essencial para pressionar e legitimar as reivindicações do sindicato.

Contribuição sindical

Desde a reforma trabalhista de 2017, a contribuição sindical tornou-se facultativa, o que gerou impacto direto nas finanças e na atuação do sindicato. “Observamos um número crescente de trabalhadores optando por não contribuir, muitas vezes influenciados por fake news ou por empresas e escritórios de contabilidade que orientam seus funcionários a não pagar. Isso é prática anti-sindical, passível de denúncia ao Ministério Público do Trabalho”, adverte Adriana.

Ela afirma que o sindicato irá fiscalizar ativamente essas práticas no próximo período de oposição. “Não podemos mais aceitar esse desrespeito a quem defende os trabalhadores. Sem contribuições, nossas ações ficam limitadas, e a categoria perde poder de barganha”, declara.

Fiscalização das cláusulas depende da base

Com base territorial ampla, o sindicato admite que não consegue fiscalizar sozinho o cumprimento de todas as cláusulas. Por isso, a colaboração dos trabalhadores é fundamental. “Contamos com os trabalhadores para denunciar irregularidades. Sem essas denúncias, muitos descumprimentos passariam despercebidos”, alerta a presidente. Ao receber os relatos, o sindicato entra em contato com as empresas para buscar solução imediata.

Próximas pautas

Mesmo com os avanços da nova convenção, o sindicato já trabalha com reivindicações pendentes que considera prioritárias para a próxima negociação. Entre elas, estão o Programa de Participação nos Lucros e Resultados (PLR/PPR) e o fornecimento mensal de cestas básicas.

A PLR, segundo o sindicato, é uma ferramenta legítima e prevista em lei, que pode estimular a colaboração e a produtividade, além de reconhecer o esforço coletivo. Já a cesta básica mensal representa segurança alimentar e dignidade, além de poder ser implementada sem encargos adicionais, caso vinculada ao Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). “Sabemos que essas propostas enfrentam resistência pelo custo operacional, mas são pautas estruturantes. A PLR moderniza as relações trabalhistas, e a cesta básica reduz absenteísmo e melhora a saúde e satisfação do trabalhador”, justifica Adriana. “Nossa luta é por direitos que transformam vidas, promovem justiça e mantêm vivo o sentido coletivo da atuação sindical”, conclui.