O morango do amor de hoje já foi o pistache do verão passado — que, por sua vez, já foi o napolitano da infância. O Bobbie Goods que agora domina as timelines já foi a “Floresta Encantada” de pintar as flores no caderno, que antes já fora o caderno de recordação. O chá revelação que hoje tem fumaça rosa ou azul já foi, um dia, o chá de fraldas com pintura de barriga e adivinhação de presente.
O Instagram e o TikTok são só os netos tecnológicos do Orkut e do MSN, que por sua vez eram os sobrinhos moderninhos do mural de recados e do telefone fixo com fio enrolado. O passeio na vinícola — de look pensado e story ensaiado — já foi a balada da juventude: Laranja Mecânica, Zampi, Boulevard, com direito a fichinha de bebida e carona combinada na saída.
A viagem ao resort (pra quem pode, porque eu só conheço de ouvir dizer mesmo) já foi o verão em Arroio do Sal, Tramandaí ou Cidreira, com farofa na areia e guarda-sol de propaganda de cerveja. O SUV com teto solar já foi o Chevette de tiozão ou o Golzinho rebaixado do primo metido. O Tinder já foi a cartinha entregue pelo amigo tímido no recreio — “Quer ficar comigo? Sim [ ] Não [ ]”.
A selfie com filtro já foi o filme Kodak de 24 poses — que só os mais abastados tinham coragem de gastar com autorretrato. A unha de gel de hoje é a neta evoluída da postiça de colinha pequena da farmácia. A extensão de cílios veio substituir os cílios postiços colados com medo de cair no meio da festa. Os procedimentos estéticos já foram o combo de sol no rosto, pepino nos olhos, e o creme “milagroso” da revistinha da Avon, prometido pela vizinha.
Perfume importado já foi Alma de Flores e Lavanda Johnson’s. A roupa da moda já foi calça boca de sino, blusa bata com brilho, tamanco de madeira, mocassim, Melissa com glitter e salto plataforma. O silicone já foi o sutiã de enchimento. O crossfit de hoje, cheio de grito e corda pesada, já foi a lida do interior, com enxada e saco de batata.
A dieta era chamada de educação alimentar, sem app, sem whey, só um “não precisa repetir” e o bom senso da vó. Aliás, o Whey de hoje é o Herbalife de ontem. O preenchimento labial era gloss que pinicava e deixava a boca graúda. O megahair era peruca ou aplique de tic-tac. O happy hour de chopp e tábua de frios era, na essência, a matinê de domingo à tarde, com música alta, refrigerante Fruki e suor no salão.
O podcast de hoje já foi o CD pirata do carro, que antes disso foi a fita K7 rebobinada com a caneta Bic. O Kindle já foi a enciclopédia Barça na estante. Os seguidores já foram fãs que compravam o CD original e colavam pôster no quarto ou adesivo no vidro. O planner minimalista de capa dura já foi a agenda da escola com adesivo e bilhetinho escondido. A Alexa já foi a mãe gritando da cozinha: “Desliga essa luz!”. O tênis de corrida com amortecimento especial já foi o Kichute no paralelepípedo. O detox digital já foi ficar sem sinal da TIM. E a terapia, ah… a terapia já foi a conversa na calçada com a vizinha, enquanto se descascava bergamota e se resolviam os problemas do mundo — ou pelo menos, os da rua.
O mundo muda, gira, reinventa, mas no fundo, é só a mesma história com novos filtros, nomes em inglês e menos espontaneidade. O ontem vive disfarçado no hoje. E talvez, só talvez, amanhã a gente vá rir de tudo isso — tomando um chá revelação holográfico ou postando uma selfie em realidade aumentada. Porque no fim, a moda passa e anos mais tarde ela retorna, mas a nostalgia é sempre eterna.