Após duas décadas de dependência externa, o país retoma a produção nacional de insulina regular e NPH, com capacidade para atender até metade da demanda do SUS e reduzir riscos de desabastecimento

Em 11 de julho de 2025, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, recebeu o primeiro lote de insulinas produzidas no Brasil por meio do programa Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP). A entrega marca a retomada da fabricação nacional de insulinas humanas do tipo regular e NPH, suspensa há mais de 20 anos. Agora, com a produção 100% nacional, o país dá um passo decisivo rumo à autonomia tecnológica e ao fortalecimento do SUS.

O Brasil deixou de produzir insulina nacionalmente no início dos anos 2000. À época, o país enfrentava dificuldades de atualização tecnológica, falta de investimentos e uma crescente dependência do mercado internacional. Com preços mais competitivos e estrutura consolidada, laboratórios estrangeiros dominaram o fornecimento. A consequência foi a dependência quase total da importação para atender a milhões de brasileiros com diabetes, uma realidade que se manteve por mais de duas décadas.

Produção nacional ganha força

Na fábrica da Biomm, em Nova Lima (MG), foram entregues 207.385 unidades do hormônio: 67.317 frascos de insulina regular e 140.068 de insulina NPH. A previsão é atender até 50% da demanda do SUS, o que representa cerca de 45 milhões de doses por ano. A iniciativa envolve transferência de tecnologia da farmacêutica indiana Wockhardt para a Fundação Ezequiel Dias (Funed) e a própria Biomm, com a inclusão do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) no processo nacional.

Segundo o Ministério da Saúde, o primeiro lote deve beneficiar cerca de 350 mil pessoas com diabetes atendidas pelo SUS, nas cinco regiões do país. A distribuição será coordenada por critérios populacionais e demanda local.

E o impacto no Rio Grande do Sul?

No estado, onde a prevalência de diabetes cresce acima da média nacional, a medida é especialmente bem-vinda. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Diabetes, mais de 800 mil gaúchos convivem com a doença. Em diferentes momentos, unidades de saúde do país enfrentaram atrasos na entrega de insulinas, em especial durante crises internacionais. A retomada da produção nacional surge como resposta estratégica para reduzir riscos de desabastecimento.

Riscos anteriores reforçam a urgência da autonomia

Nos últimos anos, o Brasil vivenciou situações críticas de abastecimento de insulina. Em 2022 e 2023, unidades de saúde de diversas regiões do país relataram falta do medicamento, principalmente insulinas análogas de ação rápida e prolongada. Os motivos incluíam escassez global de insumos e entraves na importação. Para especialistas, a instabilidade mostrou a vulnerabilidade do sistema nacional diante da dependência externa. “Não podemos correr o risco de faltar insulina no posto de saúde por causa de uma guerra, uma pandemia ou uma crise logística. Ter essa produção aqui é salvar vidas com soberania”, declarou Padilha.

Insulina glargina

Em abril de 2025, o governo firmou uma PDP para produção de insulina glargina, de ação prolongada, em parceria com Bio-Manguinhos/Fiocruz, Biomm e a farmacêutica chinesa Gan & Lee. A expectativa é entregar 20 milhões de frascos ainda neste ano e atingir até 70 milhões por ano nos próximos 10 anos, com a produção do IFA prevista para a Fiocruz no Ceará.

O que muda para quem vive com diabetes

A produção brasileira busca trazer mais segurança e estabilidade para o tratamento de cerca de 20 milhões de pessoas com diabetes no país. No SUS, quatro tipos de insulina são ofertados atualmente: NPH, regular (ambas humanas), e análogas de ação rápida e prolongada. A retomada da produção interna deve garantir estoques mais confiáveis, reduzir riscos de desabastecimento e abrir caminho para novas formulações no futuro.

Dados do próprio ministério indicam que aproximadamente 10% da população brasileira convive com o diabetes mellitus, o que representa cerca de 20 milhões de pessoas. A prevalência tem aumentado nos últimos anos, especialmente entre adultos e idosos, reforçando a importância de uma cadeia de fornecimento estável e nacionalizada.

Além de ampliar o acesso, a medida representa uma economia de longo prazo, reduzindo gastos com importação e fortalecendo a capacidade do país de se adaptar às demandas do tratamento de doenças crônicas.