Tem dias em que a vida nos confronta de forma dura e por mais que tentemos entender os seus caminhos, ela insiste em nos mostrar que nem tudo está ao nosso alcance. É nesses dias que surgem perguntas silenciosas, daquelas que a gente guarda no fundo do peito, com lágrimas nos olhos e um nó na garganta: por que os que têm tanto por viver partem tão cedo?
Lembro de pessoas que tocaram o mundo com sua força e alegria, como a Preta Gil, que mesmo enfrentando uma doença devastadora, lutou com coragem, levantando bandeiras e espalhando amor. Ela viveu — e viver, percebo, é bem diferente de apenas estar vivo. Viver é se entregar com inteireza aos dias, é deixar marcas, é ser memória viva no coração dos que ficam.
Na nossa cidade, a partida do Ronaldo Garbin deixou um vazio e, ao mesmo tempo, uma certeza: ele brilhou em sua jornada, ainda que breve. Ajudou as pessoas, foi um bom amigo e partiu cedo demais. Vi que com uma merecida homenagem, pintaram seu retrato em um muro daqui, assim, além de suas ações, seu sorriso ecoará na eternidade cada vez que passarmos por esse local. Assim como minha ex-aluna, Alana, com apenas 18 anos, cheia de sonhos e energia e como tantos outros que partiram jovens, mas que, de alguma forma, parecem ter cumprido sua missão. Porque há pessoas que vivem tão intensamente, com tamanha presença, que a vida delas não se mede pelo tempo — se mede pelo impacto, pelo amor deixado.
E então me pego pensando na avó da minha amiga, lúcida aos 99 anos, que já viu o tempo passar devagar, que já viveu o que tinha de viver. Ou no meu pai, que com apenas 71 anos não pôde ver o neto crescer. Ou ainda meu dindo, com 60, que ainda tinha tanto por ver dos filhos. Cada um com uma história, cada um com um tempo diferente. Na mãe de meu aluno, que não pude conter a emoção, que o deixara com 8 anos. Nos acidentes que cessam as vidas de famílias inteiras sem avisar.
O mais desafiador de tudo isso talvez seja seguir adiante com o coração ainda em reconstrução. Aprender a conviver com a ausência física e a presença constante na memória. Com o tempo, a dor vai mudando de forma — deixa de ser um peso insuportável para virar um lembrete silencioso de tudo o que foi vivido. É aí que o amor se mostra eterno. Cada sorriso lembrado, cada conselho guardado, cada detalhe do cotidiano que traz à tona a lembrança de quem partiu… tudo isso passa a ser parte de quem somos. Porque, no fundo, carregamos essas pessoas conosco. Elas continuam a nos ensinar, mesmo sem estarem aqui.
Não me atrevo a questionar os planos de Deus. Mas confesso: é difícil entender. O luto chega sem pedir licença e com ele a saudade, a ausência, a dor. Mas que ele passe e, ao passar, que a ferida vá cicatrizando. Que a lembrança se transforme em luz. Que a fé nos segure quando as pernas falharem. Que a esperança nos diga, baixinho, que tudo tem um sentido, mesmo quando não conseguimos ver.
Como a música que mais parecia um prenúncio de uma despedida de Gilberto Gil pra Preta, cuja a letra diz: “Drão, não pense na separação / Não despedace o coração / O verdadeiro amor é vão / Estende-se infinito, imenso monolito, nossa arquitetura! Quem poderá fazer aquele amor morrer / Se o amor é como um grão?”
Porque viver, no fim das contas, não é sobre quantos anos se tem, mas sobre o quanto se ama, o quanto se toca a vida dos outros, o quanto se permanece vivo mesmo depois da partida. Aos que nos deixaram antes da hora — nossa saudade será eterna, mas nossa esperança também. Que suas vidas continuem em nós. A todos eles, famosos, conhecidos, familiares, nossa eterna gratidão. Vocês viveram, não apenas existiram — e isso faz toda a diferença.