Representantes de entidades e empresários da vitivinicultura, setor moveleiro e indústria metalmecânica falam em perda de competitividade e defendem saída diplomática para o impasse
A imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na última quarta-feira, 9 de julho, acendeu um alerta entre setores exportadores de Bento Gonçalves e região. A taxa é a mais alta entre as novas tarifas divulgadas pelo governo norte-americano, que notificou 25 países com sobretaxas que variam de 20% a 50%. A medida, que deverá entrar em vigor a partir de 1º de agosto caso não haja acordo entre os países, atinge diretamente segmentos com forte presença no mercado norte-americano, como o moveleiro, o vitivinícola e o metalmecânico. A cidade é referência nacional nessas áreas, e empresários locais já projetam impactos sobre a competitividade, o volume de vendas e até a imagem do produto brasileiro no exterior.
Móveis: maior importador ameaçado
O setor moveleiro também pode sofrer perdas significativas. Conforme o presidente da Associação das Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul (MOVERGS), Euclides Longhi, os EUA são o principal mercado de destino dos móveis gaúchos, representando cerca de 16% das exportações. “Se essa medida realmente vigorar, vai impactar negativamente. Especialmente as empresas que têm os EUA como principal cliente. Vai encarecer nossos produtos, tirando a competitividade no mercado norte-americano”, afirma.
Longhi reforça a importância de uma solução diplomática: “Esperamos que os governos cheguem a um acordo. Uma taxação de 50% afetaria não só nosso setor, mas toda a economia brasileira, em vários segmentos”.
O diretor do Grupo Madem, que tem escritório em Garibaldi, Leandro Mazzoccato, avalia que a empresa será impactada pela tarifa, mas em menor escala, já que possui operação nos Estados Unidos. “Para nós não é tão complicado assim, porque nós temos duas fábricas nos Estados Unidos, mas o Brasil também fornecia.”
Apesar disso, ele estima perdas significativas com a nova taxação: “Vai afetar em torno de 15% as vendas, pode gerar custo com a mercadoria que está em trânsito entrando nos EUA e nós vamos ter que aumentar a produção lá. Provavelmente não vai ter capacidade, então a gente vai perder um pouco de venda lá e aqui também. Então, uns 15% aqui no Brasil e uns 20% nos EUA.”
Mazzoccato destaca que, mesmo com estrutura no exterior, o impacto é relevante: “É um impacto grande, óbvio. 15% em qualquer empresa é impactante. Claro que tem outras empresas em situações piores, alguns que têm até 100% das vendas no mercado americano vão ter problemas gigantescos. É uma pena chegar a esse nível”, lamenta.
Vitivinicultura: perda de competitividade
O setor vitivinícola brasileiro está em alerta após o anúncio do governo dos Estados Unidos sobre a implementação de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. O presidente do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), Luciano Rebelatto, manifestou preocupação, destacando que o setor no Brasil já sofre com questões tributárias internas e com desvantagens frente a outros países: “O Consevitis vê isso como mais um impedimento na exportação dos nossos produtos, agora, nesse momento, direcionada ao mercado americano. Uma taxação maior faz com que os nossos produtos cheguem com valor maior e, claro, se tornando menos competitivos. Nós já não somos tão competitivos no mundo do vinho, os nossos produtos têm um custo maior em função do não subsídio, diferentemente de outros países que subsidiam desde o setor primário, com os produtores, até na exportação. Por exemplo, o que nós vemos nos países do Mercosul e da União Europeia, que vêm para o Brasil através de acordos comerciais, sendo que os produtos chegam com impostos bem reduzidos, tornando os vinhos que entram muito mais em conta do que os nossos aqui, em função da questão tributária interna”, afirma.
Rebelatto lembrou que diversas empresas da Serra Gaúcha exportam vinhos aos Estados Unidos. “Temos várias indústrias, várias empresas que exportam para os Estados Unidos aqui na nossa região. E, agora, nós temos essa questão tributária também nos travando na exportação ao mercado americano.”
Por fim, defendeu uma saída diplomática para o impasse: “O que esperamos agora é que se tente uma negociação, e talvez essas tarifas sejam reduzidas ou até uma negociação a ponto de fazer com que o governo americano volte atrás nessa taxação e torne o Brasil um grande parceiro tanto na exportação quanto importação.”
O diretor superintendente da Miolo Wine Group, Adriano Miolo, afirmou que a nova tarifa “irá afetar 100% dos produtos brasileiros exportados para o mercado norte-americano, e essas tarifas inviabilizam a exportação dos vinhos e espumantes da Miolo para os EUA”
Ele ainda destacou que a empresa já sente os efeitos da medida: “Atualmente, já está sendo aplicado um adicional de 10% sobre os embarques que temos em andamento.”
Apesar do cenário adverso, Miolo ressaltou que “não dependemos deste mercado” e reafirmou o interesse da empresa na manutenção das relações comerciais com os Estados Unidos: “De qualquer forma, acreditamos no grande potencial dos Estados Unidos. O mercado norte-americano é relevante para a Miolo, especialmente quanto à visibilidade internacional para os vinhos brasileiros. O mercado dos EUA é o maior mercado importador de vinhos do mundo, com um grande potencial de rápido crescimento para as exportações de vinhos brasileiros. A efetivação dessa tarifa vai impactar negativamente os planos e investimentos do setor para o mercado.”
A preocupação, segundo o executivo, não é apenas com os negócios da Miolo, mas com o impacto para toda a cadeia vitivinícola nacional: “Entendemos que qualquer barreira comercial pode afetar não apenas nossos negócios, mas também a imagem do vinho brasileiro como um todo.”
Diante disso, ele destacou que a empresa está acompanhando de perto as articulações políticas: “Estamos atentos às movimentações do governo brasileiro e das entidades do setor vitivinícola para que haja diálogo e busca por alternativas diplomáticas que possam minimizar impactos ao setor exportador.”
Indústria metalmecânica: efeito cascata e temor de inflação
O presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Bento Gonçalves (SIMMME), Juarez Piva, demonstrou grande preocupação com os impactos da tarifa sobre o setor: “Essa tarifa de 50% vai atingir diretamente o nosso setor sim, principalmente em Bento Gonçalves, que nós somos grandes produtores de máquinas, exportamos diretamente e principalmente vendemos para a cadeia produtiva que atende esse mercado. E, automaticamente, com a queda das exportações para lá, os investimentos que seriam feitos também deixam de acontecer, e isso vai repercutir no nosso setor diretamente.”
Piva destaca a relevância do mercado norte-americano para a indústria metalmecânica local: “Hoje esse mercado norte-americano é relevante para o metal mecânico aqui da nossa região, então é muito preocupante. Esperamos que realmente sentem na mesa e discutam e que isso não aconteça no nosso setor porque seria drástico.”
O dirigente ainda alerta para os possíveis efeitos da retaliação comercial e seus reflexos na economia nacional: “O medo principal é que se realmente houver a taxação do Brasil sobre as importações norte-americanas é que a nossa inflação também dê um pulo no mercado e já estamos com a inflação descontrolada, os juros altíssimos e isso seria um desastre para toda a nossa economia.”
Atualização do cenário político
Na sexta-feira, 11, o presidente norte-americano Donald Trump sinalizou que está disposto a conversar futuramente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre as tarifas impostas ao Brasil. Segundo ele, isso deve ocorrer “em algum momento, não agora”.
No sábado, 12, Lula afirmou, pelas redes sociais, que o Brasil tomará medidas para proteger sua população e os setores produtivos diante da sobretaxa. No domingo, 13, o presidente convocou o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, para uma reunião em Brasília. Segundo Alckmin, o decreto de retaliação deve ser publicado até terça-feira, 15.