Com produção própria de difusores naturais e ações de reflorestamento, turma do Instituto Federal participa da edição 2025 do programa Miniempresa Junior Achievement, em parceria com o CIC-BG, com lucro de 243%
Durante 13 semanas, alunos do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), em Bento Gonçalves, trocaram a rotina da sala de aula pela prática do empreendedorismo. Participantes do programa Miniempresa, promovido pela Junior Achievement com o apoio da CIC-BG, eles constituíram uma empresa do zero, criaram e venderam um produto sustentável e encerraram as atividades com um saldo de aprendizado e lucro. A experiência revelou talentos, promoveu vivências reais do mercado e trouxe impacto ambiental positivo à comunidade.
A miniempresa criada recebeu o nome de Alma da Terra, refletindo o compromisso com a sustentabilidade e a conexão com os ingredientes naturais utilizados na produção dos difusores. O produto foi desenvolvido com duas fragrâncias: eucalipto com menta e limão com canela. A proposta, segundo os próprios estudantes, era evitar ao máximo componentes artificiais. “A gente fez as extrações todas dentro do campus, usando casca de limão, folhas de eucalipto e menta, e pau de canela”, detalha Sarah Steinke Roman, aluna do primeiro ano e diretora de Recursos Humanos da miniempresa.
A produção envolveu pesquisa, testes, ajuda de professores e aproveitamento dos cursos técnicos do campus, como Meio Ambiente e Agropecuária. O presidente da empresa, Pedro Henrique Lorenseti, conta que a equipe testou várias essências, como bergamota e cidreira, até encontrar as combinações mais agradáveis. “Com ajuda de professores do IF, chegamos às fragrâncias finais que mais agradaram”.
A equipe reuniu estudantes de diferentes turmas e cidades, como Monte Belo, Farroupilha, Garibaldi e Carlos Barbosa. O adviser de produção Renato Bernardi destaca que muitos dos jovens sequer se conheciam antes do projeto. “Alguns talvez sejam amigos para a vida toda, outros só colegas de uma experiência intensa”, comenta.
Lucro garantido

O projeto não é apenas uma simulação: os alunos montam uma empresa real, com abertura de capital, vendas e até pagamento de impostos. Para iniciar a produção, venderam 100 ações de R$20, totalizando R$2 mil em capital. Ao final, a empresa lucrou R$6.650,00, gerando um retorno de R$66,50 por ação, uma lucratividade de 243%. “Quem comprou uma ação por R$20 vai receber agora três vezes o valor”, afirma Marijane Paese, adviser financeira. Os tributos pagos, cerca de R$3.300, foram doados à entidade Anjos Unidos, que atende pessoas com deficiência na região dos Caminhos de Pedra.
O projeto estabelece regras claras: a empresa precisa ser lucrativa. “O intuito é lucro. A gente compartilha conhecimento, mas é uma aula prática. Eles aprendem a precificar, controlar despesas, lançar vendas e compras. É controle real”, completa Marijane.
A participação das famílias também foi essencial. Algumas forneceram ingredientes naturais, como limão e eucalipto, o que reduziu custos. Bernardi destaca esse apoio: “As famílias ajudaram muito. Isso também é aprendizado coletivo”, diz o adviser.
Sustentabilidade como eixo central
Desde o início, os estudantes definiram que a sustentabilidade seria a essência da empresa. Além do uso de matérias-primas naturais e frascos reaproveitáveis, firmaram o compromisso de plantar uma árvore para cada difusor vendido. A meta é alcançar 1.200 mudas.
Lorenseti informa que boa parte das mudas já foram plantadas, além do recebimento de novas mudas, que nos próximos dias serão plantadas, e que o grupo segue buscando áreas para cumprir a meta. Sarah destaca que o tripé da sustentabilidade guiou todas as decisões da equipe. “Trabalhamos os pilares social, econômico e ambiental. Nosso produto nasceu com base nisso”, explica.
Vivência de mercado, feiras e superações
As reuniões semanais de duas horas, nas quartas-feiras, não foram suficientes para dar conta da demanda. Segundo os alunos, foi preciso organizar encontros extras, inclusive nas casas dos colegas, e trabalhar muito além do horário previsto. “Participamos de feiras e da ExpoBento, onde passamos dias inteiros vendendo. Era a vida real”, relembra Sarah.
Camila Pitt Dall’Agnol, adviser de marketing, observa que a evolução dos alunos é perceptível: “Teve aluno que era tímido e terminou vendendo com desenvoltura. Desenvolveram habilidades que nem sabiam que tinham”, destaca.
Nem tudo foram flores. Conflitos e demissões também fizeram parte da experiência. Dois colegas foram desligados da equipe por falta de comprometimento. “Na empresa, nem todos vão ser sempre amigos. Tinha gente esperando ordens enquanto outros se viravam nos 30”, afirma Sarah.
Um projeto que desperta vocações
A vivência empresarial deixou marcas profundas nos estudantes. “A gente se esforçou muito, se dedicou. Mesmo com cansaço, a vontade de continuar existe”, diz Lorenseti. Sarah também avalia positivamente: “Dá brilho no olho ver o resultado. Eu pensava em fazer medicina, mas agora vejo que tenho uma veia empreendedora. Talvez eu não consiga mais ser apenas funcionária”, comenta.
Os advisers reconhecem o impacto transformador. “Quem aproveita o projeto, leva uma bagagem que serve para o resto da vida, para o currículo, para o mercado”, destaca Camila. Marijane acrescenta: “Tenho ex-alunos do Miniempresa que hoje são empreendedores. Essa experiência planta sementes”, aponta.
Eleliane Dalla Corte Dallé, adviser de Recursos Humanos, acredita que o maior valor do projeto é permitir que os jovens circulem por todas as áreas. “Eles vivenciam marketing, RH, produção e finanças. Produzir e vender são experiências que transformam”, afirma.
Reconhecimento e próximos passos
O projeto é realizado em nove escolas da cidade, sendo o CIC-BG o responsável local por organizá-lo desde 2020, com o objetivo de fazer com que a cada ano mais escolas participem do projeto. A formatura da edição 2025 será no dia 19 de julho.
Na última semana, a miniempresa do IF apresentou seu pitch para concorrer como uma das três melhores do Rio Grande do Sul. Caso avance, disputará a etapa nacional. “Ano passado fomos finalistas. Este ano, temos boas chances também”, projeta Camila.
O grupo ainda avalia se dará continuidade à empresa. “Estamos cansados, mas felizes. A gente sabe que dá certo. Tivemos até proposta de investidor”, diz Lorenseti. “Depois da formatura, a ficha vai cair e vamos decidir se seguimos”, completa Sarah.