Vivemos a era da conexão total, mas nem todos estão preparados para navegar com consciência no universo digital. O que parece uma contradição é, na verdade, o retrato de uma realidade cada vez mais comum: o analfabetismo digital, fenômeno que vai muito além da simples falta de habilidade com dispositivos tecnológicos. Ele está no centro de uma crise silenciosa, que afeta o modo como se consome e reage à avalanche diária de informações.

Para entender os contornos e os impactos desse problema, conversamos com Ronei Teodoro da Silva, professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS), coordenador do curso de Publicidade e Propaganda e do canal UCS Play. Doutor em Comunicação e Informação pela UFRGS, Silva dedica-se a pesquisar as transformações sociais provocadas pelas redes digitais — e alerta para os riscos de uma sociedade conectada, mas desinformada. “Diz respeito à incapacidade de compreender, interpretar criticamente e participar de maneira plena da cultura digital. Seus sinais aparecem quando as pessoas não conseguem distinguir informações confiáveis de conteúdos enganosos, acreditam que tudo o que circula nas redes é verdadeiro ou não entendem como funcionam os algoritmos e a vigilância de dados nas plataformas”, explica.

Formação crítica para o consumo de mídia ainda é pouco presente no sistema educacional do Brasil

Da conexão à alienação

Embora o acesso à internet tenha se ampliado no Brasil, essa conquista esbarra em uma barreira menos visível, mas igualmente excludente: a falta de letramento midiático. Ter acesso à tecnologia não significa saber usá-la de forma crítica. “Essa lacuna entre acesso e competência crítica aprofunda desigualdades informacionais: ter internet não significa, automaticamente, estar preparado para lidar com a complexidade do ecossistema midiático. Quando o cidadão desconhece os processos de produção, financiamento e interesse por trás das notícias, tende a se tornar mais vulnerável à desinformação, ao sensacionalismo e à manipulação, o que impacta diretamente a sua percepção da realidade”, destaca Silva.

Em tempos de polarização e notícias falsas, essa fragilidade tem efeitos concretos: desinformação em massa, discursos de ódio, negacionismo e dificuldade em ter um debate público qualificado.

A falha da educação tradicional

Uma das causas apontadas por Silva para esse cenário é a falta de preparo do sistema educacional brasileiro. “A formação crítica para o consumo de mídia ainda é pouco presente no sistema educacional brasileiro por uma combinação de fatores: falta de políticas públicas consolidadas, formação docente limitada nesse campo e uma visão ainda muito tradicional de alfabetização, centrada na leitura e escrita impressas. A educação midiática exige um currículo mais interdisciplinar, que dialogue com a cultura digital vivida pelos estudantes”, diz. Segundo ele, formar leitores críticos de mídia exige repensar os currículos e investir na formação de professores com domínio sobre temas como algoritmos, redes sociais e cidadania digital.

Além disso, a superficialidade com que muitas pessoas consomem informação contribui para a distorção da realidade, sendo que apenas ler títulos de uma matéria se tornou comum entre quem acessa os diversos conteúdos disponibilizados na rede. “Quando nos limitamos a ler apenas os títulos, perdemos a complexidade do conteúdo e abrimos espaço para interpretações distorcidas. Títulos muitas vezes são escritos para chamar atenção — e não para oferecer contexto. Esse comportamento alimenta a desinformação, reforça polarizações e dificulta o debate público qualificado, pois as pessoas passam a opinar com base em fragmentos, não em argumentos consistentes”, declara o professor.

Ronei Teodoro da Silva é professor da UCS

Emoções e bolhas de informação

Ao contrário do que se pensa, acreditar em notícias falsas não é só uma questão de ignorância informacional. “Envolve aspectos emocionais (como o medo e a raiva), culturais (como a identificação com certos grupos) e sociais (como o sentimento de pertencimento). Nossos ambientes digitais são moldados por filtros invisíveis que reforçam crenças pré-existentes e nos expõem seletivamente a conteúdos com os quais já concordamos. Como argumenta a pesquisadora Claire Wardle, a desinformação é eficaz justamente porque se ancora em valores emocionais e identitários, sendo moldada mais pela crença do que pela verificação factual”, afirma o pesquisador.

As chamadas “bolhas de filtro”, criadas por algoritmos que selecionam o que vemos com base em nossos interesses e curtidas/interações, só reforçam esse comportamento. Assim, o usuário é exposto constantemente a conteúdos com os quais já concorda, tornando-se mais resistente ao contraditório.

“Um erro comum é buscar apenas fontes que confirmem aquilo em que já se acredita — o chamado “viés de confirmação”. Outro equívoco frequente é confiar cegamente em conteúdos compartilhados por pessoas próximas, sem checar a veracidade da informação ou sua origem. Também há uma tendência a interpretar dados e manchetes fora de contexto, o que contribui para a propagação de desinformação”, acrescenta Silva.

O papel da universidade

Diante desse cenário, iniciativas como o canal UCS Play ganham relevância. O projeto, coordenado por Silva, atua na produção e difusão de conteúdos educativos e culturais. “Nosso objetivo é democratizar o acesso a conteúdos qualificados, fortalecendo a educação para a cidadania digital. Elas ajudam a desenvolver o senso crítico ao oferecer narrativas diversas, pautadas na ciência, na cultura e na inclusão. A extensão universitária, nesse sentido, pode atuar como ponte entre o saber acadêmico e as necessidades da comunidade, por meio de oficinas, cursos e projetos voltados à educação midiática”, afirma.

A UCS também vem investindo em ações de extensão voltadas à educação midiática, como oficinas e formações para professores sobre o uso crítico das tecnologias. Para Silva, a extensão é uma ponte essencial entre a universidade e a comunidade.

Falta de educação midiática atinge todas as faixas etárias e ameaça a cidadania na era da informação

O que pode ser feito

Cada indivíduo tem um papel fundamental. “Desenvolver uma postura crítica começa por desacelerar o consumo de informação: ler com atenção, checar fontes, buscar contextos e cultivar o hábito da dúvida saudável. Também é importante diversificar as fontes de informação e refletir sobre os próprios preconceitos. A crítica, nesse caso, não é sinônimo de desconfiança generalizada, mas de engajamento reflexivo com o que se consome, compartilha e acredita”, orienta Silva.

Já no campo das políticas públicas, o professor defende uma abordagem multifacetada: formação docente, atualização curricular, campanhas de conscientização e incentivo a plataformas que promovam a diversidade informativa. Ele cita a Finlândia como exemplo de país que conseguiu integrar a educação midiática desde os primeiros anos escolares, com uma proposta transversal e baseada em competências digitais e cidadania crítica.

A urgência de uma nova alfabetização

Enquanto isso, o Brasil enfrenta o desafio de formar cidadãos que não apenas tenham acesso à internet, mas saibam interpretar, questionar e interagir criticamente com o conteúdo que consomem. “Formar pessoas críticas exige integrar a produção de conteúdo com a reflexão sobre seus impactos sociais, econômicos e políticos. É preciso estimular habilidades técnicas, mas também éticas e analíticas, promovendo a consciência sobre a responsabilidade de quem informa. Isso implica repensar currículos e práticas pedagógicas para que incluam desde cedo debates sobre cultura digital, algoritmos, regulação e desinformação”, finaliza Silva.

Para combater o analfabetismo digital no dia a dia:

1- Leia além do título – Não tire conclusões com base apenas na manchete; o contexto está no corpo do texto;

2- Cheque a fonte da informação – Verifique se o conteúdo vem de um veículo confiável ou de um site desconhecido;

3- Evite compartilhar antes de verificar – Mesmo se foi enviado por alguém de confiança, cheque a veracidade antes de repassar;

4- Diversifique suas leituras — Evite ficar preso a uma única visão de mundo;

5- Entenda como funcionam os algoritmos – Redes sociais mostram conteúdos baseados em seus hábitos, como curtidas e interações. Questione o que aparece e por quê;

6- Pratique o “ceticismo saudável” – Não acredite automaticamente em tudo que lê, ouve ou assiste. Duvidar também é sinal de consciência crítica;

7- Aprenda a identificar fake news – Desconfie de apelos emocionais exagerados e informações sem data ou fonte clara;

8- Preste atenção ao contexto das informações – Dados soltos ou frases tiradas do contexto podem distorcer completamente os fatos;

9- Busque a educação midiática – Participe de oficinas, cursos ou conteúdos online que ajudem a desenvolver seu letramento digital;

10- Reflita sobre seus próprios vieses – Questione se você está buscando informações que apenas confirmam o que já acredita (viés de confirmação).