Por Cassiano Battisti

No sábado, 27 de setembro, foram conhecidos os vencedores do Festival de Cinema Independente de Garibaldi (Curtas Fantásticos Gaúchos), realizado no Espaço Coletivo das Artes (ECOA). O evento, gratuito e aberto ao público, trouxe 12 curtas-metragens selecionados entre 136 produções inscritas de mais de 30 municípios do Rio Grande do Sul.

Além dos curtas da mostra competitiva, três longas na mostra não competitiva e uma vasta seleção de videoclipes locais foram exibidos. Na última noite foram exibidas as produções “Monólogo da Verdade”, de Neftali Maibi Jung; “Aurora”, de Alan Mendonça; e “A Grande Torre”, de Rodrigo Sheid. Para complementar, a coordenadora do festival, Paula Ortmann, que preparou a mostra não competitiva de longas, entre eles Histórias Estranhas 2, de Rodrigo Aragão; Até que a Música Pare, de Cristiane Oliveira; e Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado, de Felipe M. Guerra.

Em noite de exibições e prêmios, foi celebrado o cinema independente

Após o intervalo musical com a dupla Marina e Augusto, foram premiados: Posso contar nos dedos, de Vitória Kaminski, em melhor Trilha Sonora; Monólogo da verdade de Neftali Jung em Edição; Aurora de Alan Mendonça em Cinematografia; Ator para Maikel de Abreu (O Reserva); Atriz para Anna Xavier (Herança); Direção para Neftali Jung (Monólogo da Verdade); A grande torre de Rodrigo Sheid, como Melhor filme; Tudo o que Deus quer saber venceu o Prêmio Especial do Júri e a obra Herança ganhou como Melhor filme pelo Voto Popular.

O objetivo do festival, segundo Maurício Sant’Anna dos Reis, proprietário do ECOA e curador do Festival, foi atendido ao celebrar o cinema Independente e criar um espaço seguro e democrático para realizadores e espectadores.

Ele destaca que a equipe de produção quer mais para 2026. “Vida longa ao Festival de Cinema Independente de Garibaldi”, finaliza.

Filme “Tudo que Deus quer saber”, de Cruz Alta (RS),
levou o Prêmio Especial do Júri

A curadoria foi feita por Reis, mas também em parceria com os irmãos Rafael e Renan Cipriani. Segundo Reis, o processo de escolha foi marcado por qualidade técnica e narrativas envolventes. “Assistir aos filmes foi uma delícia. O problema foi ter que escolher somente 12. Na próxima edição com certeza esse número será maior. Os trabalhos tinham muita qualidade técnica. Cinematografia, som, edição, além de roteiro, atuação e direção excelentes. Nosso critério foi buscar nesses elementos técnicos, histórias que nos marcassem, de alguma forma. Enfim, buscamos algum elemento sensível em meio aos filmes. Todos afloraram alguma sensação, alguma emoção”, afirma.

Democratização do cinema

O festival nasce com a proposta de ampliar o acesso à sétima arte e valorizar a produção independente. “A principal motivação foi o amor dos organizadores pelo cinema. A ideia de poder fazer um festival vem muito dessa vontade de conhecer a produção gaúcha. Mas também fomos motivados pelo estímulo à produção, reconhecendo e valorizando o trabalho dos realizadores gaúchos e também para formação de público, para podermos mostrar à comunidade como existem bons filmes sendo feitos ao nosso lado”, explica Reis.

A Serra Gaúcha apareceu em destaque entre os finalistas, com três produções filmadas em cidades da região: Herança, de Lyncon Mollossi (Carlos Barbosa); O Reserva, de Matheus Flores (Farroupilha); e O Ressentimento, de Maikel Abreu (Caxias do Sul). Para o curador, o recorte regional é natural, mas o alcance foi além. “É meio natural que realizadores locais tenham mais interesse em participar. Mas não é um festival meramente local, é estadual. Temos filmes de Porto Alegre, de Viamão, de Pelotas, de Cruz Alta, de Dois Irmãos, Canoas. A verdade é que ficamos muito felizes com a adesão dos nossos vizinhos, mas também ficamos felizes de termos ido longe no Estado. Faltou um filme de Garibaldi, quem sabe na próxima edição?”, indaga.

Frame de “Herança”, eleito Melhor Filme pelo Voto Popular

Ele relembra de que não se trata do único festival da região. “Recentemente Bento recebeu o Festival Internacional de Cinema Respira. Isso mostra que o maior impacto não é individual, ele é coletivo. Queremos fazer parte desse ecossistema de festivais que revelam novas produções, independentes, no nosso caso, para que a produção, distribuição e exibição de cinema, como um todo, se fortaleça na região”, frisa.

Competição e voto popular

Reis reforça a importância do público, principalmente na categoria Melhor filme pelo Voto Popular, onde teve participação ativa. “É a ideia da formação de um público. Fazer o espectador participar, com que ele também tenha suas expectativas. Mostrar que o cinema está mais próximo do que se imagina. A voz do público é uma forma de valorizar alguns aspectos que os jurados não se atentaram”, destaca.

Reis acredita que o Festival pôde estimular novos públicos a se aproximarem do cinema independente. “É comum em cidades menores a sensação de ‘não se ter o que fazer’, ou a de que são poucos os eventos culturais. Sabemos que Garibaldi tem uma grande quantidade de bons artistas e que sempre estão pensando em algum evento para o público. Infelizmente esses esforços nem sempre atingem a comunidade. Oferecer eventos culturais de qualidade gratuitamente é sim uma forma de mostrar que a arte pulsa na cidade”, pontua.

A programação também contemplou oficinas gratuitas voltadas à formação e ao diálogo sobre cinema. Entre elas, “Escrita de projetos audiovisuais para editais”; “Design Gráfico de Pôsteres para Audiovisual”; “Produção de Filmes de Baixo Orçamento” e “Da crítica à câmera”. “Primeiramente, poder dialogar com o nosso público com isso é importante. Trazer alguns conceitos, ver o que estão pensando, abrir os horizontes para o que pode ser melhor, enfim, sempre que a gente ensina algo, também aprendemos com quem ensinamos”, afirma o curador.

Expectativas para o futuro

O festival foi financiado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), via repasse do Ministério da Cultura para o município de Garibaldi e para a Produção. Segundo os organizadores, esta primeira edição é apenas o começo. “Já estamos planejando a edição de 2026. Esperamos ter mais apoio de patrocinadores e fazer um evento maior, com incentivo do Estado. Em 2025 fomos contemplados, graças ao excelente trabalho da Paula Dreyer Ortmann, coordenadora do evento, pela Lei Aldir Blanc de Garibaldi. Esse recurso foi fundamental para entregarmos o evento que realizamos. A execução do festival, contudo, mostrou que ele pode ser maior e nós vamos fazer dele maior. Essa primeira edição foi uma grande experiência e nos ajudou a oferecer um Festival excelente e com grande potencial no futuro”, projeta Reis.

Ganhadores da região

Lyncon Mollossi, natural de Carlos Barbosa, revela como foi receber o reconhecimento do público com o prêmio de Melhor Filme pelo Voto Popular no Festival. “Ficamos emocionados com o prêmio, afinal, foi nosso primeiro curta e participação em festival. Não tínhamos ideia de como era. A vitória começou já na seleção, quando nos deparamos que estávamos concorrendo com produções que tiveram um investimento significativamente maior que o nosso. Fizemos o curta ‘nas coxa’. Com o que tínhamos. A obra, além do terror, aborda temas sensíveis, como perda, luto e vício, fazendo o espectador ser muito empático e sempre se questionar de que lado ele está. O curta é de certa forma interpretativo. Então vale a assistida com atenção e cautela”, afirma.

Lyncon Mollossi, diretor de Herança

O curta também trouxe o prêmio de Melhor Atriz para Anna Xavier. O diretor pondera como foi a parceria de direção e a construção da personagem com a atriz. “Muito tranquilo. Sempre fomos colegas na faculdade. E quando eu e os meninos (Lucas Machado e Mateus Henrique Henzel) estávamos discutindo o roteiro, de primeira vista, imaginávamos um personagem masculino. Porém, avançando mais na história, vimos que o papel deveria ser de uma mulher, consequentemente da Anna, que foi nossa primeira opção. Ficamos impressionados com a atuação dela. Acho que ela captou a essência da personagem Rita e a interpretou com muita responsabilidade”, evidencia.

Ao ser perguntado sobre que sentimentos ou reflexões queria despertar no público com a obra, ele diz que em um primeiro momento, suspense e medo. “Principalmente por se tratar de uma história de ‘descoberta de um lugar novo’, então a intenção inicial era prender a atenção do espectador para irem descobrindo o local juntamente de Rita. Depois de avançarmos mais no roteiro, vimos que o filme estava indo muito além do terror. Conseguimos criar uma história impactante com temas sensíveis. E isso se sobressaiu. Eu diria que “Herança” é um drama com uma pitadinha de terror. Desde o início íamos pontuando como queríamos e o que queríamos captar”, revela.

Sobre os desafios durante as filmagens ele conta que o principal desafio para o cinema “de guerrilha” é conseguir atores/figurantes. “Como a gente não tinha um investimento muito grande, contamos com a colaboração de amigos e parentes para a interpretação dos personagens. E se saíram muito bem por sinal. Nos divertimos muito nesses seis dias de set”, relembra.

Ele comenta da importância de festivais como o de Garibaldi para cineastas independentes. “É importantíssimo para o cineasta, seja ele iniciante ou já experiente. Levar o teu trabalho e a tua visão artística adiante é muito gratificante. Trabalho na área do audiovisual desde 2020, mas foi só em 2023 que comecei a mergulhar de vez nas ideias de produzir filmes e documentários. Tenho uma produção chamada JAVY’JU, gravada em uma aldeia indígena em Barra Do Ouro, que além de mostrar a intervenção do homem branco sobre os Guarani, mostra como pessoas de diferentes modos de vida, crenças e costumes podem se conectar. O trailer já está disponível no YouTube. A versão completa está concorrendo em alguns festivais. Provavelmente em 2026 ele será disponibilizado para o público geral”, ressalta.

Já o caxiense Maikel de Abreu ganhou como ator pela participação no filme “O Reserva”. “Para mim significou uma valorização de um talento inesperado, já que não sou um ator profissional e nunca tive pretensão de atuar. Mas como quem gosta de fazer filmes independentes, temos que atacar em todas as frentes. Havia atuado em pequenos papéis de filmes locais. Mas sempre me considerei mais um sujeito que fica atrás das câmeras. Atores não profissionais, inclusive, são algo bem comum no meio do cinema, sobretudo o independente”, afirma.

Maikel de Abreu, ator e diretor

Ele comenta sobre o processo de construção do personagem e seus principais desafios. “Foi tudo de última hora, eu combinei com o Flores (diretor) para improvisar sobre o roteiro. Após alguns erros e acertos, achamos o resultado bastante orgânico. O filme foi rodado em Caxias do Sul. Sou um tanto obcecado com a própria cidade, sobretudo a respeito das belezas naturais. Mas acho que já é um lugar comum a exploração das nossas belezas. Acho que está na hora dos escritores e cineastas começarem a explorar as idiossincrasias da região em relação ao Brasil para além das belezas naturais e geográficas”, conta.

Ele destaca que o reconhecimento com o filme é bastante relativo. “Gosto de manter sempre as minhas expectativas baixas em tudo o que vou realizar. Estou mais interessado em fazer as coisas mesmo, pois a gente sabe como é um meio difícil, elitizado e fechado. Não é preciso somente talento. Vai muito mais sobre onde você está localizado, de tempo investido, de muitos riscos, de não se intimidar pelo acometimento deste delírio crescente que é a ideia fixa de continuar fazendo arte”, evidencia.

Frame do curta “O Reserva”, de Matheus Flores

Ele aborda que antes de se arriscar como ator, escreveu livro, roteiros e dirigiu alguns filmes. O curta “O Ressentimento” foi o episódio dois de um exercício cinematográfico realizado com celular e sem orçamento. O que mais foi bacana foi o envolvimento orgânico dos meus amigos com o projeto, sobretudo a boa vontade do ator, o Ricardo Machado. O desafio de contar esta história foi a limitação orçamentária. O direcionamento final foi basicamente realizado na edição. Foi um exercício de improviso”, elabora.

Frame do curta “O Ressentimento”

O profissional também dirigiu um documentário que esteve em um festival internacional e também um outro que foi em Mogi das Cruzes. “Estou um pouco ‘ressacado’ desses processos todos, sinceramente. Estou numa busca de um próximo assunto. Fazendo muitas leituras sobre cinema também. É um estado meio depressivo que eu fico depois que eu termino algo. O que considero natural para mim. Mas topo todo e qualquer trabalho na área: da assistência à atuação, da edição à direção”, conclui.

Frame do curta “O Ressentimento”