O homem é praticamente invisível, mas incomoda. Ele fica sentado num canto sem atrapalhar a passagem de quem entra no supermercado ou sai dele, mas mesmo assim constrange. Ele pode ter perdido o teto e a própria identidade, mas seu olhar, seu sorriso, seu silêncio denunciam um resto de dignidade humana, que perturba. O homem não aborda ninguém, e se alguém lhe dirige a palavra, ele responde:
– E aí, maninho (a)?!
A gente sai carregando as sacolas cheias tentando não ver a vida vazia do homem. Então, como forma de calar essa voz íntima inoportuna, a gente doa alguma coisa, algo assim que não vai fazer nenhuma falta… Se bem que aí sobe um fiapo de vergonha pela própria falta de humanidade. Nada que um pigarro não expulse.

E o frio chegou. Com um ímpeto hibernal nunca visto em pleno outono, ele tem pintado de branco as paisagens e atraído turistas. Os celulares registram as cenas estupidamente geladas e compartilham a beleza aos seguidores. Mas quase ninguém vê os moradores de rua, porque são invisíveis, como o homem acompanhado de seu cão.
Ele continua ali, com seu silêncio obstinado. De vez em quando, se ouve um “te cuida, maninho”, que é a sua forma de agradecer por alguma moeda ou algum cigarro recebido.

É, ele fuma. Não disfarça diante do olhar desaprovador dos passantes, que não estão nem aí para os seus pulmões. Na verdade, o que deixa as pessoas indignadas é o fato de o pobre diabo se dar ao luxo de alimentar um vício.
Por outro lado, isso alivia a consciência coletiva porque a desobriga de sentir empatia e consequentemente de fazer algo mais concreto, afinal “o vagabundo não merece. Ele que vá trabalhar”.

Dia desses, o termômetro marcando 0º, alguém perguntou ao homem onde é que ele iria dormir naquela noite que prometia ficar medonha.
-No meu apartamento, ué! – respondeu apontando para um condomínio.
Indefinível sua reação. Tolerância zero? Ironia? Brincadeira? Sonho? O certo é que a resposta deixou o outro sem jeito, pela sua curiosidade gratuita.

Hoje, o homem e seu cachorro ganharam um vizinho. Foram vistos conversando como bons amigos. Depois se separaram em dois pontos estratégicos, cada um respeitando o espaço do outro.
Para os incomodados, a coisa ficou feia. Entrando pelo lado de cima, a gente se depara com o inquilino mais antigo. Entrando por baixo, a gente dá de cara com o novo. Não há como fugir do desconforto provocado por mais um ser praticamente invisível.