A famosa fábula A cigarra e a formiga conta o trabalho árduo e contínuo do inseto que durante o verão abastece o formigueiro com sementes e folhas prevendo um inverno rigoroso enquanto a cigarra vive saltitante e pirigueti pelo bosque. Até que, com a chegada da fria estação e sem frutos nas árvores, a cigarra faminta resolve procurar a formiga para pedir comida.
E qual a moral dessa história? É que todas as ações geram consequências. Enquanto a cigarra se divertia, a formiguinha só trabalhava. No fim, o esforço da formiga é compensado pela fartura e a cigarra, que não se preparou, ficou sem ter o que comer.
A formiga tem toda a razão? Não. A cigarra não tem nem um pingo de razão? Não. Porque é uma fábula, gente.

Como todo ser vivo, as formigas contribuem para o mundo. Elas são as jardineiras da natureza. Escavam o solo, ajudam a ventilá-lo e espalham as sementes. Além disso, comem animais vivos e mortos, pois são predadoras de outros insetos.
Se fossem extintas (ou se fossem folgadas como as cigarras) aumentaria a população desses insetos, causando reflexos negativos, dentre outros problemas, no ecossistema que eu não saberia citar aqui porque não sou bióloga. As formigas são dedicadas às suas funções, e também muito organizadas. Elas podiam sair pra uma baladinha no verão de vez em quando? Sim. Podiam passar uns dias na praia e depois voltar a juntar as catotas para o inverno gelado? Claro. Mas não é sobre isso.

Cada formiga possui função definida dentro da equipe e todas as tarefas são bem divididas entre elas. As formigas são unidas, se ajudam para alcançarem seus objetivos. Elas são como pessoas traumatizadas na infância e só pensam no bem coletivo e nunca nelas mesmas? Sim. Poderiam pensar mais nelas, fazer de vez em quando algo que lhe agradasse a alma, como um dia no salão de beleza? Claro. Mas não é sobre isso, ainda.

O trabalho aparentemente insignificante das minúsculas formiguinhas que caminham com o pedaço de folha maior que elas mesmas, cortando todos os obstáculos que lhe aparecem na frente, como se fosse o único objetivo da vida delas (deve ser), não importando a velocidade, ou pelo que tenham que passar, não é a coisa mais fofa e corajosa que você já viu? Não importa quanto tempo ela tenha que ficar parada, pensando em como vai passar por aquele obstáculo, ela não desiste! Ela segue um ritmo próprio, porque o importante para ela é ser consistente.

O “trabalho de formiguinha” de hoje em dia é aquilo que as pessoas não estão acostumadas a ter, nem a ver: constância, velocidade, palavra e consideração. As cigarras de hoje passam por cima de tudo isso se for preciso, para dançarem com os vagalumes até o chão no camarote.
Então, na minha fábula, o inverno chega, o fogo de palha apaga, as cigarras cantam até explodirem, e os restos mortais delas são recolhidos pelas formigas junto com as folhas e frutos, para alimentar o formigueiro no auge do inverno congelante. E aquele som estridente e chato no início da primavera não é da cigarra, e sim das formigas bocejando, pois começa mais um verão, e precisam daquele trabalho árduo, insignificante e pouco “inovador” que é simplesmente: baixar a cabeça e fazer o que tem que ser feito.