Com aumento no volume produzido, lideranças sindicais destacam sanidade da fruta e alertam para dificuldades com mão de obra, excesso de chuvas e gargalos logísticos no campo

O setor vitivinícola da Serra Gaúcha encerra o ciclo de colheita com indicadores que apontam para uma recuperação robusta no volume de produção e uma qualidade técnica superior para a elaboração de derivados. Após um período de incertezas climáticas em safras anteriores, o cenário atual desenha-se com otimismo moderado, equilibrando o aumento da oferta com desafios estruturais, trabalhistas e tributários que ainda preocupam as entidades representativas.
De acordo com o presidente do Sindicato Rural da Serra Gaúcha, Elson Schneider, as estimativas preliminares indicam um incremento considerável na quantidade de uvas processadas nesta temporada. Embora os números finais ainda dependam de consolidação técnica, a percepção no campo é de um crescimento de aproximadamente 25% em relação à safra passada. No âmbito estadual, Schneider projeta que as estatísticas, que inicialmente orbitavam a casa dos 800 milhões de quilos, possam atingir a marca de 1 bilhão de quilos de uva. “A variedade que mais representa aqui na nossa região é a uva Isabel, que corresponde a um índice bastante alto desta variedade, da Vite Labrusca. Ela se destaca e foi a que mais teve produção, embora todas as variedades tenham produzido mais este ano. Mas ela já é o que mais produz, então, fica a Isabel como destaque”, afirma o dirigente.


Impactos climáticos
A análise da qualidade da matéria-prima revela duas etapas distintas durante o ciclo. O início da colheita, marcado por períodos de baixas temperaturas, resultou em uvas precoces com graduação inferior à esperada. No entanto, a estabilização climática na reta final permitiu que as variedades de ciclo tardio atingissem excelentes níveis de açúcar, compensando o início lento. Schneider observa que, no balanço geral, a graduação média se equivale à do ano anterior, garantindo o potencial enológico necessário para a indústria. “A produção de vinhos e espumantes é a melhor possível, porque as variedades que são as viníferas, tiveram uma excelente graduação. Esperamos uma excelente qualidade de vinhos, bem como espumantes”, destaca.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza, Cedenir Postal, corrobora a percepção de que a safra se concretiza com qualidade, apesar das oscilações iniciais. No entanto, Postal ressalta que o impacto real na renda dos produtores rurais ainda é incerto. Conforme o dirigente, a uva já foi entregue às vinícolas, mas ainda não existe uma definição clara sobre os valores finais que serão pagos. A expectativa é que seja praticado o preço mínimo estabelecido pelo governo federal, embora possam ocorrer variações pontuais em determinados casos.

Estrutura física
No campo econômico, a manutenção da rentabilidade do produtor rural permanece como pauta prioritária. Schneider explica que o preço médio da uva sofreu oscilações, mas a política de preço mínimo serve como balizador fundamental para o mercado. O reajuste no valor de referência foi acompanhado pela indústria, o que deve garantir que o rendimento final ao viticultor seja equivalente ao da safra passada. Entretanto, existe um estado de atenção quanto ao fluxo de caixa das propriedades. “O que temos de preocupação é que as cantinas efetuem o pagamento. Mesmo sendo parcelado, é muito importante que até o final deste ano seja paga toda a safra. Estamos apreensivos quanto à forma de pagamento”, pontua Schneider.
Neste momento de finalização da safra, Postal também ressalta a preocupação com os prazos para a realização dos pagamentos, que ainda não possuem prazo de finalização.
Sobre a estrutura das propriedades, Postal observa que o número de produtores na região se mantém estagnado, sem o ingresso de novos profissionais ou a saída significativa de quem já atua na área. “O que tem é a renovação de parreirais, ou os mesmos produtores aumentando alguma pequena área, mas não muito, porque não temos espaço disponíveis aqui para aumentar. Onde tem, ou é mato, que não há a possibilidade de fazer a supressão, ou é cidade que avança sobre as áreas rurais, então, basicamente, a área se mantém estagnada”, explica.
Quanto às variedades, Postal destaca que as uvas Isabel e Bordeaux seguem na liderança para a produção de sucos, seguidas por um incremento nas variedades BRS. Atualmente, a região cultiva mais de 100 variedades destinadas a vinhos, espumantes e moscatéis.

Crédito Anderson Pagani

Dinâmica de mercado
A competitividade da Serra Gaúcha frente a outras fronteiras agrícolas também foi objeto de análise. Schneider avalia que a região mantém posição consolidada devido às limitações hídricas de Petrolina (PE) e às restrições ao uso do herbicida 2,4-D na Região Sul e fronteira do Estado. Para fortalecer essa liderança, sugere políticas públicas que tragam segurança à comercialização do suco de uva.
Postal reforça a importância desse segmento, informando que cerca de 50% da produção atual é destinada ao suco, fator que ajuda a viabilizar o mercado frente à dificuldade de comercialização dos vinhos, que enfrentam forte concorrência de produtos importados.
Apesar dos resultados positivos na colheita, o setor enfrenta entraves operacionais. Postal aponta dificuldades na contratação de mão de obra, citando uma legislação complexa que não favorece o produtor e fiscalizações do Ministério do Trabalho que exigem deslocamentos para a entrega de documentos. “Nós tivemos muitos produtores que estavam com todos os trabalhadores em dia de forma registrada, mas mesmo assim eles precisavam enviar posteriormente a documentação”, afirma. Além disso, o custo das novas tecnologias, como a colheita mecanizada, embora facilite o trabalho, encarece o custo de produção devido aos altos valores de investimento.

Dandy Marchetti

Desafios tributários
Apesar dos resultados positivos na colheita, o horizonte da viticultura regional é permeado por desafios macroeconômicos e regulatórios. Schneider manifesta profunda preocupação com o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, além da reforma tributária em curso. “O grande desafio para os próximos anos é a questão do acordo com a União Europeia, que está muito turbulento, e essa reforma tributária, que pode prejudicar os vinhos com uma tributação muito alta em relação aos outros países. É uma grande preocupação do setor e um grande desafio para a gente amenizar e ser competitivo no mercado”, avalia.
Por fim, as lideranças chamam a atenção para as novas exigências ambientais que agora estão interligadas ao financiamento da atividade. Schneider ressalta que novos decretos do governo federal vinculam a preservação ambiental à liberação de linhas de crédito bancário. “A gente tem uma preocupação muito grande que o nosso produtor é o que mais preserva, mas a gente encontra essa dificuldade cada vez mais. Temos reservas legais, áreas preservadas e mesmo assim temos esses problemas sérios que agora estão até nas linhas de crédito”, conclui o presidente. Para os próximos anos, o setor busca um equilíbrio entre a sustentabilidade exigida e a desburocratização necessária para a sobrevivência econômica da viticultura gaúcha.