Quarta-feira, 01 de Julho de 2026

ÚLTIMA HORA

Peripécias de um pescador

Quem nasceu antes dos anos oitenta, deve se lembrar da evolução do celular, que surgiu como um tijolão, encolhendo depois até virar tijolinho. Já, hoje, quanto maior e mais leve ele for, mais status representa.
Esta história aconteceu na época dos celulares pequenos. Minúsculos que eram, cabiam em qualquer lugar, disfarçavam-se embaixo de qualquer revista, sumindo a qualquer distração. E para achá-los, que encrenca!
Mas vamos ao caso (real):
Era uma paisagem quase paradisíaca. Quase, porque, no paraíso, as ovelhas não expelem caca em forma de bolinhas. E, naquele potreiro, o cidadão precisava de muita destreza para desviar delas.
Lá também havia um açude, onde húngaras, cabeçudas e prateadas faziam a alegria dos pescadores de araque – porque pescador de verdade se embrenhava no vale das Antas, se aprumava na pedra mais alta, junto ao rio e gastava um terço das férias fisgando lambaris que serviriam de aperitivo num jantar qualquer.
Pois estando o pescador de verdade em tarefa de reconhecimento do terreno para catar minhocas, ele acabou optando por um depósito de esterco, onde passou a cavar como se estivesse garimpando ouro. Depois de encher uma latinha de iscas gosmentas, ele tapou o buraco e foi até o carro, onde já estocara o restante do material necessário para a pescaria.
Mentalizou a lista e passou a conferir se tudo fora mesmo providenciado. Salame? Presente; cerveja? Presente; repelente de mosquitos? Presente; radinho a pilha? Presente. Ok! Só faltava ligar para os outros pescadores de verdade que aguardavam em suas casas. Dormindo.
“Mas que droga, cadê meu celulóide?”, resmungou o pescador depois de apalpar o bolsinho da camisa. Teve que abrir a mochila outra vez, o que, aliás, foi providencial, pois percebeu que ainda faltava o pão de sanduíche. Não encontrando o aparelho, o cara retornou ao potreiro e passou a pesquisar cada cocozinho preto que se destacava. E eram centenas…
De repente, escutou o som abafado de uma valsa bem conhecida, parecendo vir de um salão longínquo, lá da sua juventude. O pescador de verdade ligou as antenas. Era o seu pretinho básico, e ele estava por aí, mas onde? Encarou, desconfiado, as ovelhas próximas. Será que alguma delas seria capaz de papar o aparelho?
Desistiu ao perceber que a melodia continuava no mesmo volume, embora as ovelhas tivessem se distanciado. Voltou então ao local onde cavara, e o som ficou mais nítido. Alvoroçado, usou as mãos como pás até chegar ao fundo do buraco, onde jazia o celular, já mudo, mas não morto. Que sorte alguém ter ligado naquele momento! Apanhou-o e retornou a ligação:
-Oi, estou ligando pra dizer que sua chamada salvou meu celular de ser enterrado vivo… Claro, eu… O quê? A operadora? (Lembrou-se do tempo perdido com as operadoras). Desculpe, tem um barulhão aqui… Não ouço nada.
Num click – ou seria num tim? – o pescador de verdade desligou. Sem remorsos.

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