Na época de ginásio, não consegui assinar o famoso Livro Preto, onde eram registradas as infrações das alunas. Tentei de tudo, mas tudo era nada em relação às colegas mais populares, sempre às voltas tomando bronca das freiras. O que é que aquelas meninas tinham que eu não tinha? Malandragem! E longas melenas loiras, ruivas e castanhas. Ou seja: o modelo a ser perseguido por toda nerd.

Pra minha infelicidade, passei o ginásio completamente ficha limpa. Depois veio o curso Normal, equivalente ao Magistério de hoje, e o Livro Preto, já desmitificado, ficou em alguma gaveta da memória, que acabo de abrir.

Abro também um parêntese para mostrar outro extremo, vivenciado por minha colega de trabalho, num colégio daqui. Contou-me que, com sete anos apenas, ela e uma vizinha, ficavam de castigo num compartimento pequeno e escuro. Sendo a punição repetitiva sem que elas soubessem o porquê, as baixinhas passaram a esquadrinhar o ambiente e descobriram que se tratava de uma despensa. A partir daí, o castigo virou hora da guloseima: enfiavam o dedo indicador nas caixas de “marmeladas” diversas e depois lambiam. Parêntese fechado.

Então normalista, os interesses mudaram. Mas, por alguma ironia do destino, me vi, de repente, não diante do tal Livro Preto, e sim de uma carta de suspensão de sete dias. O que é que eu tinha feito que as outras não fizeram? “Uma perguntinha!” Só umazinha sobre o formato da prova, na qual ganhara nota seis. Acho até que foi uma pergunta capciosa de quem começava a dar sinais de que o cérebro servia também para questionar.

Bom, os tempos evoluíram. O mundo anda numa velocidade medida em gigabytes, com novidades que envelhecem de um dia para outro. A sociedade, a família, os paradigmas se transformaram. A Internet aproxima distâncias eliminando fronteiras…

E a escola? Vai bem, obrigada! Obrigada a enfrentar os problemas antigos somados aos atuais.Mas, em se tratando do Livro Preto, ah, quanta diferença: hoje pode ser de qualquer cor.

Joelho de Fora

Essa minha colega – aí, de cima – também me contou que sua escola levava os alunos à missa, em ocasiões especiais. Certa vez, a menina teve a bainha de sua saia de pregas baixada porque os joelhos estavam à mostra. Que desrespeito! Um par de joelhos de sete aninhos afrontando à Igreja!

Tudo bem, a gente entende, afinal eram os anos sessenta do século passado. Mas qual não foi a minha surpresa quando, em passeio pelo Vaticano, a guia nos avisou que, para visitar a Catedral, o museu e a Capela Cistina, as mulheres teriam que cobrir ombros e joelhos. Aquilo ficou martelando na minha cabeça, até que cheguei ao motivo da exigência: evitar a tentação das dezenas ou centenas de homens nus esculpidos em pedra que povoam aqueles lugares sagrados…