Quarta-feira, 01 de Julho de 2026

ÚLTIMA HORA

Manchas da violência

Bento despertou outra vez com notícias consternadoras sobre derramamento de sangue em solo municipal. Dessa vez, uma chacina levou três homens ao óbito, irrompendo o silêncio na madrugada de quinta-feira com o estampido das balas e estendendo o espesso cobertor do medo sobre os moradores do Zatt. O medo da violência é uma realidade que tem mudado vidas. O temor de ser assaltado, sequestrado ou agredido se tornou uma marca na turística Bento Gonçalves. Na falta de atuação do poder público, as pessoas acabam se acostumando a buscar a proteção como for possível: evitando lugares vazios, guardando pertences com cadeados, vivendo vigiadas por câmeras, rodeadas de muros, entre grades.

Infelizmente, não há como negar que a sensação coletiva de medo tem bases concretas hoje em dia. Ela não é fruto de uma ficção. A criminalidade cotidiana assusta. Quem está crescendo sob o espectro da violência, ainda que nunca tenha sido vítima de algum ataque, acaba tendo de se adaptar a uma vida em que tudo o que não está sob o próprio controle ou dos familiares mais próximos pode ser temido. Não sem razão.

“A comunidade clama por paz, mas para isso, é preciso que haja o olhar dos poderes”.

Nestes locais, moradores enfrentam uma espécie de toque de recolher, acuados pela criminalidade e reféns do medo, cercados pela disputa do tráfico, por assaltos e execuções.

Quem vive ali, enfrenta na vida cotidiana as adversidades da insegurança, sem coragem de sair de casa à noite, impondo severas restrições a crianças, enjaulados dentro de sua própria residência, o que nem sempre garante a proteção de sua família. Nesses bairros, adolescentes e jovens sem empregos, desestimulados a frequentar a escola e envolvidos em um ambiente conflituoso podem se tornar prezas fáceis às malandragens e facilidades que a vida delituosa tem a oferecer.

Não há como ignorar a necessidade de um conjunto de medidas que incluam a educação de qualidade, assistência social, oportunidade de emprego e renda, além de ações efetivas de ressocialização. As manchas da violência avançam de forma inquieta sobre nossa cidade, fomentadas pelos entorpecentes e o crime organizado. É uma doença grave, que precisa de prevenção e tratamento adequado. Quem sabe o murmuro que se houve pelos bastidores do Executivo sobre a troca do secretariado – iniciada com a exoneração de Márcio Pilotti – não seja a premissa dos ventos de mudança positivas que há tempos não sopram por aqui. A comunidade clama por paz, mas para isso, é preciso que haja o olhar dos poderes.

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