O comércio de Bento Gonçalves amarga um prejuizo que beira os R$ 11,5 milhões – valor inadimplente acumulado até o fim do primeiro semestre de 2017 no município. Desde a última apresentação dos dados feita pela Câmara de Dirigentes Lojistas com números referentes a dezembro de 2016, houve crescimento de 4% no montante da dívida. Já no comparativo com o mesmo período do ano anterior, o aumento está na casa dos 17% (no primeiro semestre de 2016 a dívida era de R$ 9.769.304,00, contra os R$ 11.493.088,00 registrados nos seis meses iniciais de 2017).

Em Bento Gonçalves, segundo o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-BG), Marcos Carbone, o avanço é gradativo e permanente, vindo a preocupar as entidade lojista. “É um fator que coloca em risco a saúde financeira dos negócios do varejo – ou seja, a empresa vendeu um produto ou prestou um serviço e não recebeu por ele, arcando com o prejuízo. Divulgamos esses dados como forma de alerta ao lojista, para que preste muita atenção no momento de análise e concessão de crédito”, explica. Atualmente, o comércio de Bento Gonçalves registra o total de 3.901 CNPJs ativos.

Conforme os relatórios locais, quem mais deve são pessoas físicas, com idade entre os 30 e 50 anos (55% dos registros), e do sexo femino (67% dos registros são de mulheres contra 33% de homens). “Na maioria dos casos, as mulheres compram para toda a família, tem o controle da casa e, consequentemente, gastam mais”, acredita Carbone. Metade do valor da dívida está concentrada em tickets com valor entre R$ 100 e R$ 250. A outra metade é de compras superiores a R$ 500.

O que mudou no cenário

O número de registros lançados no SPC diminiu – ainda que pouco, na casa dos 1,2% – no comparativo entre o primeiro semestre de 2017 com o mesmo período do ano anterior. A queda também ocorreu com relação ao total verificado até dezembro de 2016, com -0.7%. Isso significa que menos pessoas estão devendo na praça – ainda que o valor dessa dívida tenha crescido. “Aqui observamos uma situação recorrente e que poderia ser facilmente prevenida com a rigorosa análise do perfil do cliente no momento de concessão de crédito. O banco de dados do SPC é riquíssimo e atualizado em tempo real, configurando-se em uma ferramenta importante que alerta o lojista diante de um consumidor que está inadimplente em outros estabelecimentos”, esclarece Carbone.

Na contramão desses indicadores, o comparativo mostra crescimento no número de pessoas jurídicas devedoras: 32% a mais no primeiro semestre de 2017 do que no mesmo período do ano anterior, além de aumento de 18% no valor da dívida. Já com relação ao acumulado em 2016, o total desse tipo de inadimplência aumentou em 11%. “As empresas estão devendo mais porque muitas delas sentiram fortemente os efeitos do ciclo de retração desencadeado no Brasil pela sucessão de crises políticas e econômicas. Não existem dados oficiais que comprovem esse indicador, mas nosso conhecimento empírico mostra que, diante da escassez de capital, os gestores precisaram fazer escolhas, e optaram por cumprir com as obrigações da folha de pagamento, gerando inadimplência em outros compromissos”, sugere o presidente.

Consumidor quer quitar a dívida

Quem está devendo tem pressa de limpar o nome na praça e recuperar o acesso ao crédito. Os registros feitos em até 03 meses caíram 14,5% no comparativo entre o primeiro semestre de 2016 com o mesmo período de 2017. O recorte da queda é ainda mais expressivo se analisados os registros com 01 mês: redução de 20%. Isso significa que as pessoas estão quitando suas dívidas com mais rapidez.

A esperança de o comércio recuperar o prejuízo causado pela inadimplência foi renovada com o recente anúncio da liberação da última fase de saques das contas inativas do FGTS. A verba disponibilizada pela Caixa Econômica Federal aos beneficados é de R$ 3,5 bilhões. Desse total, cerca de R$ 1,2 bilhão devem ser repassados ao comércio para quitação de dívidas, conforme levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). “Para os lojistas, essa é uma oportunidade muito valiosa de renegociar a dívida e reveter, mesmo que parcialmente, o ônus de uma venda não rentável”, afirma Carbone. “Ao conceder crédito, o lojista precisa fazer uma avaliação mais criteriorsa do CPF do consumidor para diminuir o risco da inadimplência”, aconselha o presidente.