Em nossa conversa de hoje iremos abordar um tema preocupante e que a cada ano toma maior relevância: a automedicação. O uso por conta própria ou indicação não médica de medicamentos e suplementos pode trazer diversos riscos à saúde, sobretudo em populações mais sensíveis, como idosos e portadores de várias doenças crônicas que já demandam uso de medicamentos corretamente prescritos.
A automedicação traz graves riscos que podem levar a lesões irreversíveis em órgãos vitais, dependência química e até a morte. No Brasil, essa prática é considerada um problema de saúde pública. A Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas (Abifarma) estima que o hábito cause cerca de 20 mil mortes por ano no país.
Os principais riscos associados ao uso de medicamentos por conta própria incluem:
- Intoxicação e Danos a Órgãos Vitais
O fígado e os rins são os órgãos responsáveis por processar e eliminar as substâncias do corpo. A ingestão de doses incorretas, mesmo de remédios comuns como certos analgésicos e anti-inflamatórios, pode sobrecarregar esses sistemas. O uso indevido pode gerar hepatite medicamentosa, insuficiência renal aguda ou sangramentos no estômago e intestino. - Resistência Bacteriana (Superbactérias)
O uso incorreto, frequente ou a interrupção precoce de antibióticos faz com que as bactérias sobreviventes sofram mutações e fiquem mais fortes. Conforme alertam pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a resistência microbiana é uma das maiores ameaças globais à saúde, tornando infecções simples extremamente difíceis de tratar no futuro. - Mascaramento de Sintomas e Atraso no Diagnóstico
Ao tomar um analgésico ou antitérmico para aliviar uma dor persistente, a pessoa silencia o sinal de alerta que o corpo está emitindo. Esse alívio temporário esconde a verdadeira causa do problema (como um tumor em estágio inicial ou uma infecção grave). Como consequência, o paciente demora a procurar um médico, atrasando um diagnóstico que poderia salvar sua vida. - Interações Medicamentosas Perigosas
Misturar dois ou mais remédios sem orientação médica adequada pode anular o efeito de um deles ou potencializar os efeitos colaterais de forma perigosa. Por exemplo, tomar um anti-inflamatório comum junto com um remédio para pressão alta pode cortar o efeito do anti-hipertensivo, elevando o risco de um infarto ou AVC. Este é apenas um exemplo a título de ilustração. - Dependência Química e Tolerância
Algumas classes de medicamentos de tarja preta, como os calmantes e ansiolíticos (como o clonazepam), geram dependência física e psíquica rapidamente. Além disso, o corpo pode desenvolver tolerância à substância. Isso faz com que a pessoa precise de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito inicial, aumentando o risco de uma overdose acidental. - Reações Alérgicas Graves
Qualquer pessoa pode desenvolver alergia a um componente da fórmula de um remédio, mesmo que já o tenha tomado antes. Saber o histórico de alergias a medicamentos e princípios ativos feito pelo seu médico reduz muito a chance disto ocorrer. Sem o suporte adequado, uma reação alérgica pode evoluir rapidamente para um choque anafilático, que fecha as vias respiratórias e exige atendimento de emergência imediato. - Suplementos interagem com medicamentos
Vivemos uma época em que há grande pressão da indústria e de outros segmentos de nossa sociedade para consumir suplementos sob falsa égide de prolongar a vida, devolver a vitalidade perdida e manter a saúde integral. A grande maioria não serve para muita coisa (…). Suplementos podem ser usados quando ocorrer uma perda de reserva ou uma deficiência, por exemplo, reposição de Vitamina D se estiver com os níveis baixos. Usar suplementos com níveis corporais normais não ajuda a viver mais e melhor. O uso de suplementos compostos, com inúmeros componentes, pode tornar mais difícil a identificação de qual agente poderá estar causando efeitos adversos. Cabe lembrar que a suplementação desnecessária não só não traz benefícios à saúde como aumenta risco de intoxicação e NÃO AUMENTA A LONGEVIDADE. Cuidado com o que consome.
DR. EDUARDO GARCIA
Pneumologista.
Professor de Clínica Médica da UFCSPA
Contato: eduardog@ufcspa.edu.br
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