Meio-dia e meia. Enquanto o Jornal noticiava as mais recentes falcatruas brasileiras – no Bolsa Família, no FGTS, na Lei Rouanet, no Ministério dos Esportes, confederações e clubes esportivos, no DNIT e na Valec…, no leite, no queijo e na água mineral – eu cumpria meu turno de atividades do lar, arrumando, automaticamente, a roupa que iria para uma mala
de viagem.

O ritual era o mesmo de sempre. Separados cinco cabides que ficavam sobre a mesa, dobrava as camisas e as empilhava, para depois depositá-las dentro da maleta. Os espaços seriam preenchidos com peças menores e sobre tudo, o sobretudo, que o frio estava de doer.

Alisava uma camisa polo preta que insistia em formar vincos. Então, com toda a paciência do mundo, desmanchei a obra de arte em movimento estendendo-a novamente sobre a mesa. Percebi que a etiqueta estava enorme, possivelmente enredada em fiapos juntados na máquina de lavar pelo processo de centrifugação. Apalpei, pelo lado de fora, aquele ninho que se formara próximo à manga. E sem nenhuma hesitação, enfiei a mão dentro.

Por um instante, tive a impressão de tocar numa lã cardada, num cotelê ou lamê com estrias, algo aveludado e áspero ao mesmo tempo. Mas, de repente… VROM! Havia uma coisa viva lá dentro e ela pulou para fora!

Era enorme, do tamanho de um pires, com olhos por todos os lados. A cabeça parecia uma bolita de vidro marrom, presa ao abdômen, que também tinha o tamanho de uma bolita de vidro marrom, de onde partiam, aos pares, patas peludas…

Gritei! Gritei! Gritei! Gritei tanto que a vizinhança, sem saber do motivo, deve ter se perguntado se não era o caso de chamar a polícia e acionar a Lei Maria da Penha. Apesar ou por causa dos meus gritos, a caranguejeira marrom ficou ali, estática, acho que me monitorando. E eu, a um metro de distância, paralisada. E sem controle vocal.

Ficamos assim: eu olhando pra ela, e ela olhando pra mim. Então, uma chinelada certeira acabou com o suspense. E a terrorista foi varrida da face da Terra.

Passado o primeiro impacto, fiquei remoendo a violência cometida com a pobre. Ela poderia ter me picado e não o fez. Era boazinha que nem aquela personagem da música para os pequenos:

“Dona Aranha subiu pela parede, veio a chuva forte e a derrubou. Já passou a chuva, o sol já vem surgindo e a dona aranha continua a subir. Ela é teimosa…”.

Mas por que é que ela tinha de ser teimosa e subir pelo guarda-roupa, escalar um cabide e se meter dentro de uma camisa?