Em uma época não tão distante, retratos eram feitos em estúdios, mobiliados com uma poltrona estofada em cotelê ou uma banqueta ‘moderna’. Fotografias eram feitas com esmero, precisas como o ‘rec, rec’ da bobina de uma câmera analógica. Um misto de momentos posados com o amadorismo em closes que não davam certo. Seria essa despretensão que se busca hoje, pretensiosamente?


Logo após uma viagem ou aquele aniversário de primeiro aninho, o filme era levado a uma loja, onde se deixava com ânsia e já saudade de ver aqueles momentos que, hoje, podem ser vistos na tela do celular. Cada filme entregue tinha um valor inestimável, muitas vezes nas mãos de estagiários adolescentes dedicados e sedentos.


O trabalho manual e preciso, o suor e nervosismo entre o corte de um filme não revelado e as câmaras escuras…era trivial ser cirúrgico. Como poderíamos, por um descuido, ‘queimar’ lembranças de alguém que nem conhecíamos?


Os detalhes tinham seu charme. A compra de uma máquina fotográfica digital, nos anos 2000; uma capa para proteger da água, da areia e dos tombos; uma poupança extra para imprimir as recordações e, sempre que dava, um novo álbum.


Seria um porre eu dizer que hoje não é ‘melhor’, ou que é menos bonito, ou menos prático e eficaz. Meu melhor ângulo, meu melhor sorriso, a melhor luz…e se não for a melhor, ‘taca’ um filtro, inclusive pra afinar o nariz e aumentar a boca. Quem não quer ficar mais bonito? É só que bate um desespero às vezes, ver que uma bobina de filme é um objeto retrô, as câmeras analógicas estão em museus e eu tenho só 33 anos.


Em uma época não tão distante, lembro de estudar a ‘humanização das marcas’, ouvir murmúrios sobre design emocional, a importância e a diferença em pensar no ser humano como um ser humano, diminuir a produção em massa e dedicar qualidade, personalização e estratégia de alguns produtos e serviços, pensando realmente em cada lembrança, experiência e…HOJE ESTUDAR AS PESSOAS SIMPLESMENTE FOI AUTOMATIZADO.


Aqueles estudos feitos com 100 pessoas ditam a próxima tendência. Ou comprovam que.


Hoje você se especializa, estuda metodologias ‘a dar com pau’, e o jeito com que você navega nesse site é diferente, quer dizer, você vai virar estatística sim. E nós queremos nos sentir especiais, então não importa se fui eu que pedi e recebi exatamente o que eu queria, sinto que foi feito PARA MIM ME SINTO ACOLHIDA.


Receio chegar na farmácia e poder comprar emoções embaladas, risos picados e lembranças encapsuladas. Mas se puder mesmo, espero que não careça de prescrição médica.