Quarta-feira, 01 de Julho de 2026

ÚLTIMA HORA

Armadilha de outono

Na janela aqui de casa tem um vaso de gerânios que estão querendo secar por culpa do outono que chegou com um par de olhos tristonhos. O outono anda com um olhar cabisbaixo, como que velando as folhas mortas dos cinamomos.

O inverno prefere olhar para dentro de suas lareiras acesas.

Já o olhar da primavera é horizontal para percorrer as paisagens em flor.

O verão anda de cabeça erguida, soleva seus olhos para o sol e a alegria escaldante.

Mas agora estamos sendo acometidos pelo outono. Alguns preferem dizer que estão sendo privilegiados pelo outono, uma meia-estação que começou quando o sol alcançou o equinócio de março e só irá terminar ao atingir o solstício de junho. Dia-a-dia, os pomares desnudam-se para poderem dormir seu sono profundo. O mesmo acontece com minhas desbotadas bermudas e os meus tênis amaciados pelo uso de tanto saltar pedras das cachoeiras.

Enquanto costuro esses desapontamentos sobre o outono, que me parece ser uma estação mais da alma do que da natureza, em pleno sábado de manhã, minha tia tenta enfiar a linha na agulha, procurando um pouquinho de sol com os pés descalços na sacada da casa. Tudo em vão: não consegue uma coisa e nem a outra. Como dizia meu sábio vovô: enfiar é sempre mais difícil do que tirar. Não ria, que o negócio é bastante profundo. Enfiar pensamentos ruins na cabeça, por exemplo, é rápido e dispensa até manual de instruções. O mesmo não acontece, porém, na hora de tirá-los. Não há pé-de-cabra que resolva.

Voltando a tarefa de enfiar a linha na agulha, ajudo minha tia que está no outono de sua vida. Ela me agradece com um entusiasmo quase infantil. Sua atitude mostra-me, claramente, a diferença entre uma mera comichão e a alegria verdadeira.

– Os gerânios estão secando, tia – digo, apontando o dedo para o vaso rodeado por crianças.

– É verdade – concorda ela, antes de complementar: – mas o grande segredo não é procurar tirar lições disso mediante um ato de vontade.

Como sou um imbecil de marca maior, penso com minhas folhas secas, porém indago com a clara intenção de desconcertá-la:

– Como assim, se as quase todas as lições que aprendemos são impiedosas.

Condensando toda a ternura do mundo em um sorriso, minha tia, acomoda-se melhor na poltrona e diz com a experiência de quem já está na idade do lucro:

– Depende de como você assimila os fatos. Olhe lá aquelas três crianças entretidas com a teia de aranha que envolve os gerânios. Cada uma delas deve estar reagindo de uma maneira diferente.

– Talvez – digo a meia voz.

– Tenho certeza de que cada uma delas deve estar colhendo uma impressão diferente – garante-me ela.

– Como assim? – quero saber.

– A primeira deve pensando como a aranha conseguiu tecer aquela teia complicadíssima.

– E a segunda… interrompo-a, arrastando a cadeira para mais perto dela.

– Bem, a segunda deve estar com medo das presas da aranha, imaginando o veneno mortal que elas contêm.

– E a terceira?

– Já a terceira está prestes a exclamar: “Que legal, uma rede de acrobatas”.

Quem caiu na “rede” armada por minha tia fui eu mesmo.

A verdade é que recebi uma lição que não aprendi em nenhum banco escolar e que me vale por muitos e muitos outonos.

 

flavio@flavioluisferrarini.com.br

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