Entre 2017 e 2022, 3.812 pessoas que anteriormente residiam em outros estados brasileiros ou no exterior passaram a viver em Bento Gonçalves, conforme dados do Censo Demográfico de 2022. Entre elas, 831 vieram do Pará, número que representa cerca de 21% da migração recente para o município e configura o maior contingente entre os estados de origem, superando inclusive o total de imigrantes vindos do exterior (829). Na sequência aparecem São Paulo (294), Santa Catarina (292), Maranhão (210) e Paraná (171).
Os números ajudam a explicar uma presença cada vez mais visível na cidade: trabalhadores, famílias e empreendedores vindos do Norte e do Nordeste têm contribuído para o desenvolvimento econômico da cidade enquanto mantêm vivas suas tradições. Embora ainda pouco percebida por parte da população, essa comunidade vem crescendo e construindo sua própria história na Serra Gaúcha.
Gastronomia como reencontro com as origens
Natural do Ceará, Manuel Aguiar Nobre, conhecido em Bento como “Ceará”, chegou ao município em 1990. A mudança aconteceu por motivos pessoais. Desde então, acompanhou de perto as transformações da cidade e, principalmente, o aumento da presença de moradores vindos do Norte e do Nordeste.
Segundo ele, quando chegou à cidade praticamente não havia pessoas dessas regiões. “Na verdade, essa migração forte começou mesmo nos últimos dez anos. Hoje vem mais gente do Norte do que do Nordeste”, afirma.
Depois de mais de três décadas morando no município, Nobre decidiu transformar uma antiga vontade em realidade e inaugurou, em novembro de 2026, o restaurante Tempero de Mainha, especializado na gastronomia nortista e nordestina.
A ideia nasceu justamente da saudade da própria cultura. “Sempre teve uma carência muito grande. Eu sempre senti falta das comidas de la. Era um desejo antigo, mas não é fácil abrir um restaurante com essa proposta. Até que chegou o momento de criar coragem”, explica.
Mais do que servir refeições, Nobre conta que o estabelecimento foi pensado para ser um espaço de acolhimento para quem está longe da terra natal. “Primeiramente é o reencontro com a sua cultura, com a sua comida. Estamos a quatro ou cinco mil quilômetros da nossa terra. A ideia é fazer essa integração cultural entre o Rio Grande do Sul e o Norte e o Nordeste, para que as pessoas se sintam acolhidas”, pontua.
Além dos pratos típicos, o ambiente também busca reproduzir elementos culturais das regiões, incluindo a música e a ambientação.

Sabores que carregam identidade
Apesar de muitas pessoas tratarem Norte e Nordeste como se fossem uma única cultura, Nobre faz questão de destacar que existem diferenças marcantes entre as duas regiões, inclusive na gastronomia. “As culturas são totalmente diferentes”, explica.
Entre os clientes nortistas, o prato mais procurado é o açaí, consumido de forma bastante diferente daquela conhecida pelos gaúchos. “Eles não comem açaí doce, nem como sorvete. É o açaí natural, acompanhado de peixe frito, carne de sol ou charque”, detalha.
Já entre os nordestinos, pratos como baião de dois, buchada de bode, sarapatel e peixe frito inteiro são os mais pedidos. Embora o restaurante tenha sido pensado especialmente para atender quem sente saudades dos sabores da infância e da terra natal, Nobre afirma que boa parte do público é formada por moradores da Serra Gaúcha interessados em conhecer uma culinária diferente. “Como não existe outro restaurante com essa proposta na região, recebemos pessoas de cidades próximas, de Porto Alegre e Novo Hamburgo. Também tem muita gente daqui da cidade que vai por curiosidade conhecer a nossa comida”, completa.
Uma migração impulsionada pelo trabalho
Ao recordar sua chegada no município, Nobre afirma que a realidade era bastante diferente da atual.
Na década de 1990, segundo ele, havia grande oferta de mão de obra vinda do interior do Rio Grande do Sul, o que dificultava ainda mais a inserção de migrantes nordestinos no mercado de trabalho. “Eu nunca consegui um emprego em Bento. Comecei trabalhando com vendas de rua e depois fui abrindo meus próprios negócios”, recorda.
Hoje, a situação mudou completamente. “Quem chega do Norte ou do Nordeste consegue emprego muito rápido”, afirma.
Na avaliação do empreendedor, o crescimento dessa migração está diretamente relacionado à demanda por trabalhadores. “Aqui existe uma dificuldade enorme de mão de obra. Muitos jovens não querem mais determinados tipos de trabalho e esse espaço está sendo ocupado por pessoas do Norte e do Nordeste. Isso vai continuar acontecendo”, avalia
A saudade que acompanha quem parte
A paraense Ana Cristina Rosa Dalmacio é uma das pessoas que fazem parte desse movimento migratório recente. Natural de São Miguel do Guamá, ela veio para Bento Gonçalves em busca de oportunidades de trabalho. Segundo Ana, a adaptação foi facilitada pelo apoio das irmãs que já viviam na cidade. “Assim que cheguei não fiquei nem uma semana parada. Consegui emprego bem rápido”, relata.
Entre as principais diferenças em relação à cidade onde nasceu, ela destaca justamente a maior oferta de vagas de trabalho. “O que mais me chamou atenção aqui foi a facilidade de emprego. De onde venho faltam oportunidades”, compara.
Ana também percebe um crescimento constante da presença de pessoas vindas do Norte. “Ultimamente realmente tem crescido o número de pessoas vindo de lá. Inclusive é comum no nosso dia a dia de trabalho ver essas pessoas, de diversas cidades diferentes”, observa.
Mesmo vivendo no Sul, ela empenha-se em preservar os costumes da região onde nasceu. “Eu sempre faço questão de lembrar de onde eu vim, pois isso me dá forças e coragem para conseguir chegar onde eu quero. Uma das comidas típicas que está presente no meu dia a dia é o açaí. Sou apaixonada”, conta.

Entre acolhimento e preconceito
Apesar das oportunidades encontradas na cidade, Ana afirma que ainda há estereótipos em relação às pessoas de outras regiões do país. “Infelizmente ainda tem pessoas que se incomodam com nossa presença. Preconceito sofremos com frequência, mas também tem muitas pessoas acolhedoras na cidade”, lamenta.
Para ela, a valorização das diferentes tradições é essencial para uma convivência harmoniosa. “É importante ter sempre respeito à cultura e à história de cada um”, defende.
Mesmo distante do Pará, Ana diz sentir-se em casa na cidade. “Bento para mim é uma cidade maravilhosa, calma e com infinitas oportunidades. Aqui, de qualquer forma, me sinto em casa. Pretendo ficar aqui por um bom tempo, até conseguir tudo o que vim buscar”, projeta.
Uma comunidade que cresce, mas ainda pouco aparece
Para Nobre, o crescimento da comunidade nortista e nordestina ainda é pouco percebido pela população em geral, embora essas pessoas estejam presentes em diversos setores da economia local. “Esse pessoal está trabalhando. São jovens que vieram para contribuir com o município”, destaca.
Na avaliação dele, falta que esse grupo seja mais reconhecido e tenha espaços voltados à própria cultura. “Está na hora de o poder público começar a olhar para essa comunidade. Hoje temos uma cidade enorme dentro de Bento Gonçalves, formada por pessoas do Norte e do Nordeste”, defende.





