Editorial

Voto por interesse

Não é tarefa fácil construir um documento que norteie por um longo período a ocupação de solo de uma cidade com a geografia e a densidade de Bento Gonçalves. É preciso conhecimento técnico, engajamento e acima de tudo, atender aos anseios comunitários, pois afinal, quem precisa estar satisfeito com o trabalho entregue é o munícipe contribuinte. E ei que após mais de dois anos de estudos e análises, foi entregue com pompa e destaque aos parlamentares bento-gonçalvenses o Plano Diretor Municipal (PDM).

Era de se esperar que uma diretriz com 80 páginas, de teor complexo e extremamente específico, contivesse falhas de pequena relevância, como deslizes na grafia ou mesmo erros de informação, também expostos por este jornal em artigos assinados pelo jurista Getúlio de Abreu. E para corrigir isso, há a possibilidade de proposição de emendas por parte dos vereadores. Uma forma legítima de alterar o erro sem maior necessidade de revisão. Entretanto, ao que tudo indica, apresentar emendas ao Plano, que será votado na segunda-feira, 18, tornou-se uma espécie de modalidade esportiva nos corredores da Casa do Povo. Algo como “tiro de emenda ao alvo”. É quase uma corrida de 100m livres entre o protocolo do Legislativo e o gabinete de alguns vereadores. Ao todo já foram encaminhadas mais de 60 alterações ao documento, e o número não para de aumentar.

Entretanto, se nossos nobres atletas se mantivessem dentro do supracitado, objetivando apenas a correção de pequenas imperfeições, visto que não são técnicos nas áreas ou mesmo demonstraram exímio conhecimento de causa, os eventos da quinta-feira possivelmente não teriam ocorrido. O Complan, conselho formado por diversas instituições que teve a árdua tarefa de adequar o PDM aos interesses comunitários, com base no projeto apresentado pela Faurgs, resolveu “colocar as cartas na mesa” e apontar uma série de alterações propostas pelos edis, que simplesmente destruíram o Plano (palavras deles, não nossas).

Entre elas figuravam a polêmica liberação para construções de oito pavimentos no corredor gastronômico, alvo de diversos protestos pelos moradores do bairro São Bento, o rebaixamento do Complan, de conselho deliberativo para consultivo – não teriam mais poder algum (tudo ficaria nas mãos dos vereadores, no melhor caráter Brasília Politic Style), e a deliberação sobre qualidade espacial, que ficaria a encargo exclusivo de análise da Câmara de Vereadores. Mas, cá entre nós, não lhe causa estranheza que pessoas comuns, como agricultores, empresários, sindicalistas, advogados, desportistas e políticos de carreira, cheguem à conclusão de que tem mais conhecimento de causa que arquitetos e engenheiros, propondo alterar de forma tão significativa a proposta? Tudo isso, claro, embasado em supostos pedidos da comunidade, mas convenhamos que, a fundo, ninguém tem certeza de quem é.

Embora tenhamos nossas ressalvas com alguns pontos mantidos no projeto original pelos revisores, o Semanário compactua com o órgão deliberativo e se posiciona contra a desfiguração deliberada da regra mor, no que tange as diretrizes de construção e ocupação de Bento Gonçalves. Entendemos que emendas sejam instrumentos legítimos predispostos na alçada de operação da vereança, mas também ressaltamos que é necessário o entendimento coletivo nesse cenário. Não permitamos que a vontade particular de uns sentenciem a qualidade de vida e a salubridade de Bento Gonçalves pelos próximos 10 anos ao caos. Há menos de um ano observamos atônitos as atrocidades cometidas com o projeto das Dez Medidas Contra a Corrupção, na capital, onde uma proposta excelente foi remodelada às inclinações vis e políticas. É hora de dar um basta. Não compactuemos novamente com o voto por interesse.

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

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